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(A) :: Uma bica, com cheirinho amargo

Uma bica, com cheirinho amargo

Se queremos manter cafés e lojas com densidade humana, temos de agir como se fossem infraestrutura.

Rui Valdemar
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Há fins de semana de inverno em que o sol de Lisboa parece trabalhar por conta própria. Não aquece exactamente, mas insiste, e traz uma luz oblíqua, quase teimosa, que dá à cidade a aparência de estar acordada mesmo quando ela se declara cansada. Fiz um programa simples e antigo, num dos sábados de Janeiro ousei descer do Príncipe Real ao Chiado e continuar, como quem adia um pensamento difícil, até à Baixa. Estes passeios, sem objectivo prático, acabam por ser um inventário silencioso daquilo que juramos amar.

Na Rua Dom Pedro V, a montra da Padaria da Patriarcal ainda tinha pão nos cestos. O balcão de mármore exibia a compostura de quem viu demasiadas manhãs semelhantes, demasiados cafés apressados, demasiadas conversas interrompidas por “já vou”. Havia um cartaz, ou uma frase dita com o mesmo efeito de um cartaz, “sábado, 17 de Janeiro, é o nosso último dia”. A funcionária pronunciou aquilo com a economia de quem não está ali para fazer literatura, e talvez seja esse o modo mais cruel de dizer uma despedida, sem retórica, como se fosse um dado do tempo. O espaço mudará de função, dizem, talvez lobby, talvez restaurante de hotel. Sabemos que a Pensão Londres sai de cena e o prédio entra noutra economia. E nós, que somos tão bons a lamentar, ficamos por instantes com a ideia na boca, como quem prova uma migalha e não sabe se é saudade ou só hábito.

Habituámo-nos a ler estas notícias como se fossem meteorologia. Mais uma casa que fecha, mais um sítio com história, mais um recanto que perde o uso e passa a decoração. Seguimos, tiramos uma fotografia, partilhamos uma frase indignada, e depois voltamos para a nossa vida com a mesma ligeireza com que comentamos a chuva. Raramente fazemos aquilo que mantém uma casa aberta, que é entrar. Consumir, sim, mas por pacto, não apenas por gula mas para reconhecer que certos lugares sobrevivem de rotinas mínimas, de gestos repetidos, dessa fidelidade sem heroísmo que parece insignificante até ao dia em que desaparece.

Na mesma zona, a cidade soma perdas em cadeia. A Cister fechou no final do ano, a Mujique desapareceu da Rua Luciano Cordeiro, e a lista vai-se tornando uma espécie de catecismo triste, conhecido de todos. As rendas e a pressão imobiliária explicam uma parte da história. A outra parte pertence-nos, e é mais incómoda. Lisboa descaracteriza-se sobretudo quando a vida quotidiana deixa de precisar das rotinas que lhe davam identidade. Porque não é só o despejo que mata, é a erosão anterior, esse afastamento de cada dia, essa substituição silenciosa do “vou ali” pelo “encomendo já”.

Pelo caminho até ao Chiado, reparei que as lojas sobreviventes parecem pertencer a dois mundos que mal se tocam. Um vende Lisboa como souvenir, a cidade reduzida a íman e a azulejo, a desenho e a saudação. O outro tenta vender bens a lisboetas que já quase não passam ali, como se falasse para uma sala vazia. Entre ambos abre-se o terceiro mundo, sem montra, onde se compra pelo telemóvel, é um comércio sem rua, sem passagem, sem encontro, sem aquele acidente feliz de entrar por acaso e ficar por necessidade. Um relatório recente dos CTT estima que, em 2025, o comércio online em Portugal roça os 13 mil milhões de euros. O número, por si, é abstracto. Mas o gesto, porém, é concreto e repetido, como uma oração moderna. E é aí que a mudança deixa de ser “tendência” e se torna hábito social, torna-se dinheiro que já não atravessa ruas, e ruas que deixam de ser atravessadas perdem o pretexto para as pequenas coisas. Entrar num café a meio da tarde, pedir uma bica, levar uma bola de Berlim, reparar que as calças rasgadas talvez merecessem uma segunda oportunidade. O clique é eficiente, mas esteriliza o acaso. E o acaso, numa cidade, é uma forma de cidadania.

Quando não compramos online, escolhemos muitas vezes os corredores dos centros comerciais, onde o tempo parece mais barato porque é indiferente. Lá dentro, o relógio não tem autoridade, mas cá fora, a cidade vai ficando com a função que sobra. A Baixa abdicou de ser o centro prático do quotidiano e converteu-se num postal. A sua economia mudou de escala para servir a passagem, não a permanência. Também os ofícios sofrem o mesmo desvio, e os que dependem de tempo, de conversa, de continuidade, vão sendo empurrados para fora como se fossem um luxo.

Há, no entanto, uma contradição que nos denuncia. Um inquérito europeu sugere que a maioria de nós preferiria reparar em vez de comprar novo, mas no momento da decisão a substituição vence pelo custo, pela rapidez, pela promessa de não pensar. Desejamos a reparação como valor moral, quase como um voto, e depois escolhemos o imediato com uma naturalidade que nem chega a ser cinismo. É rotina.

O exemplo das retrosarias na Rua da Conceição endurece a metáfora até ela se tornar argumento. Onde antes havia mais de uma dezena de casas dedicadas a remendar, a coser, a prolongar a vida das coisas, restam hoje quatro. O que desapareceu primeiro não foi a loja, mas foi o impulso de reparar. E quando o impulso morre, a loja torna-se um capricho, um resto, uma excentricidade. Só depois chega o despejo. É sempre assim, sempre, o primeiro golpe é a erosão do uso, não a demolição.

Na Baixa, o contraste fere. A cidade desenhada para ser consumida depressa já engoliu quase tudo, e os espaços que exigem tempo resistem como inquilinos num prédio que já mudou de dono. Um café tradicional pede que alguém se sente e leia o jornal, ou pelo menos que fique o tempo suficiente para a cadeira fazer sentido. Uma retrosaria pede que se entenda um rasgão como trabalho, como oportunidade, e não como sentença de lixo. Isto porque não são apenas negócios, são pequenas instituições de demora, lugares onde o mundo não precisa de estar sempre a acelerar.

No regresso, subi devagar e fui dar à Praça das Flores, como se precisasse de fechar o circuito para perceber o que tinha visto. A ideia vinha atravessada, a roer com aquela lentidão própria das evidências, a ideia de que um lugar só é típico enquanto é usado. Quando deixa de ser vivido, torna-se cenário. E o cenário, por mais bonito que seja, é sempre uma forma de abandono.

A proposta é pouco épica. Não direi nada de novo. Mas talvez seja isso o que falta, uma política sem grandiloquência, feita de gestos repetidos. Se queremos manter cafés e lojas com densidade humana, temos de agir como se fossem infraestrutura. Ter um café habitual e comprar ali mesmo quando é mais cómodo não o fazer é, no fim, a única política que depende apenas de nós. Lisboa continuará a mudar, claro. Só que há mudanças que validamos com cada clique, com cada desvio, com cada desculpa pequena. A parte que podemos alterar de imediato não espera por leis nem por planos, e basta a vontade de entrar, pedir uma bica e ficar.