(c) 2023 am|dev

(A) :: Dois anos depois da morte do opositor, o fantasma de Navalny volta a assombrar Putin

Dois anos depois da morte do opositor, o fantasma de Navalny volta a assombrar Putin

Informação de que Navalny foi envenenado com toxina encontrada em pele de sapo leva oposição anti-Putin a tentar ganhar força. Rússia esconde assunto internamente, diplomacia do país controla danos.

José Carlos Duarte
text

Cumprem-se esta segunda-feira dois anos desde a morte da principal figura da oposição russa, Alexei Navalny. O dissidente morreu numa colónia penal no Ártico em circunstâncias que inicialmente eram pouco claras. Os serviços de segurança russos alegaram que se tratou de uma morte por causas naturais, mas, durante este fim de semana, cinco países europeus desmentiram a tese e apuraram que o principal adversário político de Vladimir Putin foi envenenado com uma toxina fatal encontrada na pele de rãs da América do Sul. No Kremlin, nega-se categoricamente essas acusações, ainda que se receie que esta notícia possa ter repercussões negativas dentro e fora de fronteiras.

Esta segunda-feira, centenas de pessoas reuniram-se no cemitério onde Alexei Navalny está enterrado em Moscovo. No local, a mãe do opositor, Lyudmila Navalnaya, não se mostrou surpreendida com as revelações dos serviços secretos europeus. Desafiando a malha apertada da censura do Kremlin, a mulher declarou à imprensa internacional que já sabia que o “filho tinha sido assassinado”. “Penso que levará algum tempo, mas acabaremos por descobrir quem o fez. Já disse que aqueles que deram esta ordem são conhecidos mundialmente. Queremos que todos os envolvidos sejam identificados”, pediu.

A viúva e agora principal rosto da oposição russa, Yulia Navalnaya, não perdeu tempo a apontar o dedo a Vladimir Putin. Tal como a sogra, a dissidente também disse ter tido sempre a certeza de que o marido tinha sido “envenenado”. “Agora há uma prova: Putin matou o Alexei com uma arma química. É um assassino. Deve ser responsabilizado por todos os seus crimes”, acusou. No exílio, enfrentando várias dificuldades para falar com uma sociedade civil praticamente inexistente na Rússia, a opositora está a tentar mobilizar o movimento contra o Presidente russo e ganhar ímpeto após esta divulgação do envenenamento.

As revelações da morte de Alexei Navalny ocorrem num momento diplomaticamente sensível para a Rússia. Esta terça-feira, delegações da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos da América vão encontrar-se em Genebra, na Suíça, para discutir os contornos de um eventual acordo de paz. A descoberta de que o sistema de segurança russos envenenou o principal opositor de Vladimir Putin pode dar razão ao argumento da Ucrânia e da oposição russa de que não vale a pena negociar com um líder que se rege pela máxima de manter o poder a todo o custo.

Um balão de oxigénio para a oposição russa?

Nos jornais e nas agências de notícias da Rússia, o assunto praticamente não existe. O aniversário da morte de Alexei Navalny passou em branco na imprensa do país, fortemente controlada pelo Kremlin, como notou o correspondente russo da BBC em Moscovo. Steve Rosenberg analisou as edições diárias dos principais órgãos de comunicação social russos e concluiu que nem uma linha se escreveu sobre o assunto.

Não é propriamente uma surpresa. O Presidente russo nunca escondeu a animosidade que sentia pelo seu principal dissidente — que lhe fez frente várias vezes até morrer na prisão em 2024. Na sua longa carreira política, poucos opositores conseguiram mobilizar a população russa como ele, retratado como o “indesejável número um” do Kremlin. Carismático e disruptivo, Alexei Navalny foi uma pedra no sapato para Vladimir Putin durante anos e foi alvo de um envenenamento quase fatal em 2020, antes daquele que lhe tirou a vida na colónia penal do Ártico IK-3.

https://observador.pt/especiais/navalny-o-indesejavel-numero-1-do-kremlin-o-que-vai-acontecer-ao-principal-opositor-russo-de-quem-putin-recusa-dizer-o-nome/

Por tudo isto, o Kremlin não quererá converter Alexei Navalny num mártir morto às mãos do Governo. Num momento em que a liberdade de expressão é praticamente inexistente dentro de fronteiras, o regime russo pretende que o nome do opositor fique esquecido e não seja sequer mencionado. Acima de tudo, Vladimir Putin deseja que ninguém ouse repetir os passos do dissidente e lhe decida fazer frente, nomeadamente enquanto ainda está em curso a guerra que desencadeou contra a Ucrânia.

[Gregorian Bivolaru dá todos os passos do manual de manipulação. Mas quem vive no interior da seita vai demorar a perceber. Ouça o terceiro episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e o aqui o segundo.]

Dentro da Rússia, restam poucos opositores. No evento desta segunda-feira que teve lugar no cemitério onde está enterrado Alexei Navalny, ainda estiveram presentes alguns emblemas contra o regime de Vladimir Putin; por exemplo, foram avistadas bandeiras com a cor branca e azul, um símbolo da oposição contra o Governo e contra a guerra na Ucrânia. Pautando-se pela discrição e com a presença de embaixadores estrangeiros em Moscovo, a cerimónia terá sido certamente vigiada pelas forças de segurança da Rússia.

No estrangeiro, é onde está a verdadeira oposição ao regime russo. Depois do início da guerra na Ucrânia, vários dissidentes tiveram de fugir do país natal perante o endurecimento das medidas de repressão interna. Esta segunda-feira, os grupos de opositores realizaram manifestações em várias partes da Europa, da Alemanha ao Reino Unido, para tentar mostrar que, mesmo pouco ativas e com pouca tração dentro da Rússia, ainda existem vozes da oposição a Vladimir Putin.

Porém, a oposição tem-se deparado com várias dificuldades em erguer-se após a morte do principal dissidente de Vladimir Putin. Yulia Navalnaya é consensualmente vista como a principal opositora — tendo herdado essa missão na sequência da morte do marido —, mas tem tido várias dificuldades em impor-se e em mobilizar os russos. Por um lado, a Rússia fechou-se ainda mais. Por outro, longe vão os tempos em que a presidência norte-americana apoiava claramente a dissidência ao atual regime russo.

O antigo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, criticou duramente a morte de Alexei Navalny em fevereiro de 2024 e o Kremlin. “A morte de Alexei Navalny mostra mais uma vez a corrupção e a violência que há na Rússia”, declarou o antigo chefe de Estado norte-americano, que, uma semana depois da morte do opositor, encontrou-se presencialmente com Yuliya Navalnaya e a filha, Daria Navalnaya, num gesto que conferiu legitimidade política à viúva.

Na Casa Branca, o inquilino mudou, assim como a relação entre Washington e Moscovo. Donald Trump adota um tom mais amigável com o Presidente russo e nem falou diretamente (e em público) com Yulia Navalnaya. Indiferente à repressão interna e à situação da oposição russa, a presidência dos Estados Unidos continua a interagir com Vladimir Putin e a relação entre os dois líderes é complexa, mas longe de ser hostil como era com Joe Biden.

Na Ucrânia, também se levantam várias dúvidas sobre a credibilidade e legitimidade da viúva, apontando os comentários de Alexei Navalny sobre a Ucrânia (chegou a dizer depreciativamente que a Crimeia era como uma “sandes de salsicha” que não deveria ser “passada de mão em mão”) como prova de que a atual oposição não é muito diferente do Presidente russo. Quando esteve na Web Summit em 2024, a discursar sobre as grandes tecnológicas e autocracias, Yulia Navalnaya foi mesmo vaiada por alguns ucranianos presentes no local.

https://observador.pt/2024/11/12/foi-vaiada-por-ucranianos-e-emocionou-se-a-recordar-o-marido-na-web-summit-navalnaya-foi-obrigada-a-falar-sobre-a-guerra-na-ucrania/

Apesar de todas estas condicionantes em redor da oposição, o aniversário da morte de Alexei Navalny já serviria para trazer mais atenção aos movimentos de oposição na Rússia. A revelação de que o opositor foi envenenado serviu para os dissidentes exporem este exemplo como mais uma prova da brutalidade do regime russo e como age contra opositores.

Numa entrevista ao Politico durante este fim de semana, Yuliya Navalnaya reconheceu que está “satisfeita” com a notícia, dado que, logo após a morte de Alexei Navalny, acusou a presidência russa de o ter matado — e a prova das suas alegações surgiu agora. “Eu sabia que ele tinha sido morto, ele era muito jovem, tinha menos de 50 anos”, sublinhou.

timing da revelação também poderá ter sido propositado para dar uma espécie de balão de oxigénio à oposição russa. Ocorreu durante  a Conferência de Segurança de Munique, um evento anual que junta vários líderes ocidentais que apoiam a dissidência dentro da Rússia e onde também esteve presente o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

Como escreveu o especialista em política russa Mark Galeotti na revista Spectator, o facto de o anúncio ter sido feito durante a Conferência de Segurança de Munique evidencia que foi um “gesto político”, numa tentativa “de fortalecer uma aliança anti-Putin que recentemente demonstrou algum desgaste e desarmonia”. Entre a oposição russa, é uma oportunidade para recordar aos russos a brutalidade do regime e demonstrar que há uma alternativa, por muito longínqua que possa parecer.

As palavras de Rubio e as preocupações da Rússia

Na Conferência de Segurança de Munique, a “aliança anti-Putin” quis cerrar fileiras também no plano internacional, tentando cativar em particular os Estados Unidos da América. Os cinco países — Reino Unido, França, Alemanha, Suécia e Países Baixos — que emitiram o comunicado em que acusam a Rússia de matar Alexey Navalny com o veneno de uma espécie de sapo sul-americano são dos principais críticos do regime russo, apoiando em paralelo a Ucrânia.

“Há dois anos, Alexei Navalny morreu envenenado com um dos agentes nervosos mais mortíferos”, destacou o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, referindo-se à toxina epibatidina, presente na pele de sapos‑dardo nativos da América do Sul, em países como o Equador ou Colômbia, e 200 vezes mais potente do que a morfina. “Nós agora sabemos que Vladimir Putin está preparado para usar armas biológicas contra o seu próprio povo de forma a manter-se no poder”, considerou o chefe da diplomacia de França.

https://observador.pt/2026/02/16/cor-berrante-e-veneno-para-matar-dez-homens-de-onde-vem-e-para-que-serve-a-toxina-de-sapo-que-tera-matado-navalny/

Intervenções idênticas tiveram vários ministros dos Negócios Estrangeiros europeus. Dos Estados Unidos, a reação veio do secretário de Estado, Marco Rubio. Questionado sobre o assunto, o líder da diplomacia norte-americana destacou que não há “nenhum motivo” para questionar as conclusões sobre a morte de Alexei Navalny pelas secretas de cinco países europeus. “É claro que não temos nenhuma razão para não acreditar nelas. Não as contestamos”, realçou, num tom conciliatório, tal como empregou no seu discurso em relação à Europa.

Dos países europeus, a Rússia já espera condenações inequívocas e críticas ao regime. Agora, a reação norte-americana é menos positiva para o país, mesmo que — até agora — os danos pareçam estar controlados. Donald Trump ainda não reagiu ao tema e não é expectável que o faça. Mas o facto de cinco países bastante próximos dos Estados Unidos terem divulgado a informação tem estado a preocupar a diplomacia russa.

"É claro que não temos nenhuma razão para não acreditar nelas. Não as contestamos."
Marco Rubio, secretário de Estado, sobre as conclusões da morte de Alexei Navalny

Entre ofensivas de charme e elogios a Donald Trump, a Rússia pretende defender a sua posição durante as negociações de paz, esperando que a sua posição maximalista vingue e obrigando a Ucrânia a ceder. Ora, a divulgação de detalhes da morte de Alexei Navalny acontece quatro dias antes de uma ronda de negociações com a presença de uma delegação norte-americana na Suíça, com o objetivo de acertar os detalhes para terminar a guerra. Esta informação sobre o veneno que as forças de segurança russas usaram pode ser um ativo tóxico na véspera destas conversações de paz — e os cinco países europeus podem ter querido alertar os EUA da real faceta do regime russo.

Assim, não é de estranhar que várias vozes no Kremlin tenham vindo a público desmentir estas informações. A preocupação da presidência russa não é propriamente a eventual contestação interna, com a estratégia a ser a de não divulgar nenhuma informação sobre o assunto. O que mais inquieta é a reação externa, especialmente dos norte-americanos. A diplomacia russa foi a primeira a reagir: a embaixada russa em Londres atacou o método dos “políticos do Ocidente” que usam a “necropropaganda”. “É um ultraje aos mortos. Mesmo após a morte de um cidadão russo, Londres e as capitais europeias não conseguem deixá-lo descansar em paz, o que demonstra a índole dos promotores desta campanha.”

“O objetivo deste irrisório espetáculo circense é transparente: acender na sociedade ocidental a agonizante chama antirrussa. Se não existem motivos, inventam-nos à força”, acusou a embaixada. Palavras idênticas usou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, que descreveu esta “campanha informativa” como uma forma de “desviar a atenção dos graves problemas do Ocidente”. A número dois da diplomacia russa alegou mesmo que era uma forma de esconder as investigações do caso Epstein.

Na mesma linha, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, recusou as acusações dos cinco países europeus: “Não as aceitamos. Consideramos que são tendenciosas e infundadas. Rejeitamos totalmente”. O esforço de negar estas informações já chegou às redes sociais com várias contas ligadas à Rússia a ridicularizar e a contestar as conclusões das secretas europeias.

Para a Rússia, é importante que este assunto seja totalmente afastado das negociações de paz em Genebra que começam esta terça-feira. Com a divulgação cirúrgica da informação num fórum onde estava presente Marco Rubio — talvez a figura mais amigável da Europa na presidência norte-americana —, os países europeus tentaram mostrar o que o Kremlin é capaz de fazer, agitando a memória do homem que, mesmo dois anos após a sua morte, continua a deixar Vladimir Putin numa posição desconfortável.