Há uma semana, dia 8, Portugal foi a votos e produziu o resultado mais previsível da sua história democrática. Uma eleição sem suspense, sem verdadeiro confronto de projetos e sem qualquer efeito transformador no posicionamento do país. No mesmo dia, porém, o mundo também decidiu em várias latitudes. Houve eleições regionais em Espanha, uma eleição presidencial parcialmente repetida na Bósnia, eleições legislativas no Japão e, na Tailândia, eleições gerais acompanhadas por um referendo constitucional. À superfície, um domingo eleitoral como tantos outros, com democracias a cumprir calendário e cidadãos a exercer o direito de voto.
Mas a história não se escreve pela quantidade de eleições realizadas num mesmo dia. Escreve-se pelas decisões que alteram equilíbrios para lá das fronteiras nacionais. E, nesse plano, a eleição japonesa de 8 de fevereiro destacou-se de forma inequívoca. Num momento em que a guerra regressou à Europa, a estabilidade no Indo-Pacífico depende da dissuasão e a questão de Taiwan passou do plano teórico ao operacional, o Japão saiu das urnas com um governo legitimado para aprofundar o reforço da sua política de defesa, consolidar a sua aproximação estratégica aos Estados Unidos e assumir um papel mais ativo na arquitetura de segurança regional. O voto japonês não foi apenas doméstico. Teve impacto direto no sistema internacional.
A vitória esmagadora de Sanae Takaichi e do Partido Liberal Democrata não é apenas uma vitória eleitoral. É a consolidação de um mandato político raro no contexto japonês contemporâneo. Com 316 dos 465 lugares na câmara baixa, o LDP assegurou sozinho uma maioria qualificada de dois terços, algo excecional na história política japonesa do pós-guerra. Com a coligação, que inclui o Japan Innovation Party, esse número sobe para 352 deputados, garantindo um controlo parlamentar que confere ao governo capacidade legislativa plena, incluindo para ultrapassar bloqueios na câmara alta. Onde antes houve primeiros-ministros de passagem, equilíbrios frágeis e governação defensiva, há agora condições para estratégia. Onde antes havia prudência forçada, há agora escolha deliberada.
Este ponto é essencial para compreender o significado global destas eleições. Num sistema internacional cada vez mais marcado pela competição entre democracias e ditaduras, o Japão ocupa uma posição que amplifica o impacto das suas escolhas políticas, tanto pela sua escala económica como pelo seu papel na segurança do Indo-Pacífico.
Durante décadas, o Japão foi o exemplo acabado de contenção estratégica. A Constituição, em particular no que diz respeito à Defesa, funcionou como símbolo e instrumento dessa escolha. A aposta no poder económico, na diplomacia discreta e na dependência do “guarda-chuva” americano permitiu ao país prosperar num contexto internacional relativamente previsível. Mas esse contexto dissolveu-se. A ascensão da China, a normalização da coerção como ferramenta de política externa e a erosão das regras que sustentavam a ordem liberal alteraram profundamente o cálculo estratégico japonês.
A eleição de domingo confirma que esse cálculo deixou de ser apenas matéria de elites políticas e passou a ser partilhado pelo eleitorado. A linha mais firme de Takaichi em relação a Pequim foi testada nas urnas e saiu reforçada. Isto não é um detalhe. É a legitimação democrática de uma postura que reconhece que o silêncio já não compra estabilidade e que a ambiguidade, quando unilateral, se transforma em vulnerabilidade.
Taiwan está no centro desta mudança. Durante demasiado tempo, a questão taiwanesa foi tratada na Europa como um incómodo distante, algo que se reconhece como problemático, mas que se evita integrar plenamente no discurso político. No Japão, essa fase terminou. Taiwan deixou de ser um tema periférico e passou a ser reconhecida como uma questão estrutural de segurança nacional. Não por afinidade ideológica, mas por realismo estratégico. Taiwan concentra sensivelmente 90% da produção mundial de semicondutores avançados, essenciais para a indústria japonesa de eletrónica e automóveis, além de ser central para as rotas marítimas vitais do Japão e para o seu abastecimento energético. Um conflito em Taiwan teria efeitos imediatos e profundos na economia japonesa e na sua segurança.
Ao reconhecer isso de forma clara, a liderança japonesa não está a provocar uma escalada. Está a reforçar a dissuasão. A mensagem é simples: qualquer tentativa de alterar o status quo pela força terá custos que já não podem ser ignorados. Esta clareza estratégica ganha agora uma base política sólida. Com uma maioria qualificada na câmara baixa, o governo japonês passa a ter condições reais para avançar em áreas que até aqui estavam bloqueadas por prudência política ou falta de consenso.
A mais importante dessas áreas é a constitucional, em particular no domínio da Defesa. A revisão ou reinterpretação das limitações impostas às Forças de Autodefesa deixa de ser uma discussão teórica e passa a ser uma opção política concreta. A Constituição japonesa foi um pilar identitário do pós-guerra. Alterá-la ou adaptá-la às exigências de um mundo mais perigoso não é um gesto ligeiro. É o reconhecimento de que a contenção absoluta deixou de ser sustentável num ambiente estratégico em deterioração, sobretudo quando os potenciais adversários já não se impõem limites a si próprios.
O Japão não está a caminhar para o militarismo. Está a caminhar para a normalização estratégica, assumindo responsabilidades proporcionais ao seu peso económico e político. Aqui, a comparação com a Europa torna-se inevitável e desconfortável. Enquanto o Japão constrói maiorias democráticas para discutir seriamente a sua arquitetura de segurança, a União Europeia continua frequentemente presa a uma linguagem que evita escolhas claras. Fala-se de autonomia estratégica, mas hesita-se quando é preciso investir em Defesa, definir prioridades ou aceitar custos políticos. O Japão, pelo contrário, está a fazer uma pedagogia política explícita: a segurança tem um preço e esse preço deve ser assumido conscientemente pelos cidadãos.
A relação com os Estados Unidos sai claramente reforçada deste resultado. Com este mandato, Takaichi pode apresentar-se em Washington como uma líder capaz de cumprir compromissos, aumentar investimento em Defesa e assumir um papel mais ativo na segurança regional. No contexto da presidência Trump, em que as alianças são cada vez mais avaliadas em termos de contributo concreto, o Japão ganha peso precisamente por estar disposto a fazer mais. Um aliado que investe, que assume riscos e que fala com clareza é um aliado valorizado num sistema internacional cada vez mais transacional.
Isso não significa dependência. Pelo contrário. Um Japão mais forte é um Japão mais autónomo. Um Japão com maior capacidade de defesa é menos vulnerável a chantagens e mais capaz de agir como parceiro pleno. Essa distinção é crucial num ambiente estratégico marcado pela experimentação constante dos limites e pela exploração de zonas cinzentas. A estabilidade política agora alcançada permite ao Japão alinhar discurso, planeamento e execução, reduzindo ambiguidades internas e aumentando a previsibilidade externa, um fator central para a credibilidade da dissuasão.
Há ainda um flanco frequentemente ignorado na Europa, mas central para o Japão: a Rússia. A ocupação das Ilhas Chishima e de Karafuto, conhecidas na Rússia como Curilas e Sacalina, não é apenas um contencioso histórico. É uma questão de segurança ativa, agravada pela aproximação estratégica entre Moscovo e Pequim. Num mundo em que os teatros europeu e indo-pacífico estão cada vez mais interligados, o Japão não pode dar-se ao luxo de tratar este dossiê como herança do passado. Esta eleição dá-lhe margem para o enfrentar com maior latitude estratégica.
A dimensão económica desta eleição é igualmente reveladora. Durante demasiado tempo, segurança e prosperidade foram tratadas como domínios separados. O Japão desmonta essa narrativa. Nos dias que se seguiram à vitória, a bolsa japonesa atingiu máximos históricos, refletindo confiança na combinação entre estabilidade política, clareza estratégica e capacidade de decisão. Num mundo instável, o risco político pesa tanto quanto a dívida ou o défice. A segurança tornou-se fator de competitividade económica.
O mesmo se aplica às cadeias de valor globais. O Japão é ator central em setores estratégicos como semicondutores, robótica, materiais avançados e tecnologia de precisão. Ao alinhar-se mais claramente com democracias e ao reduzir dependências estratégicas da China, Tóquio participa ativamente na reconfiguração dessas cadeias. Isto tem custos, mas tem sobretudo consequências estruturais. O controlo tecnológico cria dependências e, com elas, relações de poder.
Esta lógica estende-se ao Sul Global. A competição entre modelos não se joga apenas nas grandes capitais ocidentais, mas em países que escolhem parceiros para financiar infraestruturas, fornecer tecnologia e garantir estabilidade. O Japão posiciona-se como alternativa credível ao modelo chinês, oferecendo previsibilidade, financiamento sustentável e respeito institucional. Para isso, precisava de estabilidade interna e mandato político. Esta eleição fornece ambos.
Tudo isto revela algo mais profundo: o fim do tempo intermédio da ordem internacional. Durante anos, foi possível adiar escolhas, viver em zonas cinzentas e beneficiar de um sistema que outros defendiam. Essa fase terminou. O Japão percebeu isso e decidiu posicionar-se antes de ser forçado pelas circunstâncias. A Europa continua, em grande medida, a hesitar.
Portugal, como país pequeno, aberto e profundamente dependente do comércio internacional, tem tudo a perder num mundo em que a força substitui o direito. Mas também tem pouco a ganhar com discursos vazios que não se traduzem em ação. O exemplo japonês mostra que até sociedades marcadas por trauma histórico conseguem adaptar-se sem abdicar da democracia, desde que encarem a realidade com honestidade.
O que o Japão decidiu nestas eleições não foi um gesto de rutura, mas de adaptação. Reconheceu que a ordem internacional que moldou o seu pós-guerra já não existe e que continuar a agir como se existisse seria a opção mais arriscada de todas. Ao alinhar um mandato democrático reforçado, estratégia externa e capacidade de ação, Tóquio reduz a distância entre aquilo que o mundo é e aquilo que a sua política externa assume que ele seja. Num sistema internacional em rápida transformação, essa capacidade de ajuste vale mais do que qualquer declaração solene. O Japão não resolveu todas as incertezas do futuro, mas deu um passo essencial: decidiu não ser surpreendido por ele.