Não é novidade quando ouvimos que a Inteligência Artificial veio para ficar. Entrou de forma quase sorrateira e, em poucos anos, revolucionou o dia-a-dia do trabalho, no setor tecnológico e não só.
Automatiza tarefas, resume documentos, escreve atas de reuniões em segundos e promete ganhos de eficiência difíceis de ignorar.
No entanto no meio de tanta automatização, importa fazer a pergunta essencial: estará a Inteligência Artificial a melhorar, de facto, as nossas vidas pessoais?
Hoje temos folhas de dados resumidas em segundos e relatórios produzidos num piscar de olhos. Porém, traduziu-se essa eficiência em menos carga horária? Menos horas extraordinárias? Numa maior compatibilidade entre trabalho e vida familiar? Para muitos trabalhadores, a resposta continua a ser não.
Em Portugal, os números do burnout são alarmantes. Mais de metade dos trabalhadores afirma já ter sofrido ou estado muito perto de um esgotamento profissional. As horas extra são dadas como adquiridas, a disponibilidade constante é esperada e o senso de urgência parece permanente. Quando a isto se soma o desgaste da vida pessoal, temos a receita perfeita para o colapso silencioso que tantos vivem.
Não obstante sabemos que existem alternativas. A semana de quatro dias de trabalho foi testada em vários países, com taxas de sucesso elevadas, inclusivamente em algumas empresas portuguesas. Os resultados são claros: menos fadiga, menos problemas de sono e trabalhadores que sentem que desempenham melhor as suas funções. Apesar de trabalharem menos um dia por semana, há um aumento da produtividade acompanhada por melhorias nos níveis de burnout, na satisfação profissional e na saúde mental e física dos trabalhadores.
Seria lógico assumir que caminhamos para jornadas laborais mais curtas e equilibradas, com mais tempo para a família, a comunidade e o descanso. Especialmente agora, com o avanço da Inteligência Artificial aplicada à eficiência e à melhoria de processos. Se tarefas que antes demoravam um dia inteiro podem ser feitas em duas horas, o que fazemos com o tempo que nos sobra?
Resistir à Inteligência Artificial no local de trabalho é, hoje, ficar perigosamente perto de se tornar obsoleto. Mas importa sublinhar que aqui não se trata de substituir a mão humana por máquinas, mas sim de criar uma colaboração inteligente entre pessoas e tecnologia, onde a IA assume tarefas repetitivas e administrativas, libertando tempo para o pensamento crítico, a criatividade e a tomada de decisão.
Se substituirmos reuniões longas e pouco eficazes por discussões objetivas, se automatizarmos processos morosos e propensos ao erro, criamos cadeias de trabalho mais eficientes e preparadas para o futuro.
A verdadeira questão já não é se a Inteligência Artificial veio para ficar, mas sim para quem estamos a usar os ganhos que ela traz.
Porque eficiência sem bem-estar não é progresso, é apenas mais uma forma sofisticada de esgotamento.
O Observadorassocia-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.