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Inteligência Artificial: eficiência para quem? 

A verdadeira questão já não é se a Inteligência Artificial veio para ficar, mas sim para quem estamos a usar os ganhos que ela traz.

Ana Gomes
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Não é novidade quando ouvimos que a Inteligência Artificial veio para ficar. Entrou de forma  quase sorrateira e, em poucos anos, revolucionou o dia-a-dia do trabalho, no setor  tecnológico e não só.

Automatiza tarefas, resume documentos, escreve atas de reuniões em segundos e promete  ganhos de eficiência difíceis de ignorar.

No entanto no meio de tanta automatização, importa fazer a pergunta essencial: estará a  Inteligência Artificial a melhorar, de facto, as nossas vidas pessoais?

Hoje temos folhas de dados resumidas em segundos e relatórios produzidos num piscar de  olhos. Porém, traduziu-se essa eficiência em menos carga horária? Menos horas  extraordinárias? Numa maior compatibilidade entre trabalho e vida familiar? Para muitos  trabalhadores, a resposta continua a ser não.

Em Portugal, os números do burnout são alarmantes. Mais de metade dos trabalhadores  afirma já ter sofrido ou estado muito perto de um esgotamento profissional. As horas extra  são dadas como adquiridas, a disponibilidade constante é esperada e o senso de urgência  parece permanente. Quando a isto se soma o desgaste da vida pessoal, temos a receita  perfeita para o colapso silencioso que tantos vivem.

Não obstante sabemos que existem alternativas. A semana de quatro dias de trabalho foi  testada em vários países, com taxas de sucesso elevadas, inclusivamente em algumas  empresas portuguesas. Os resultados são claros: menos fadiga, menos problemas de sono  e trabalhadores que sentem que desempenham melhor as suas funções. Apesar de  trabalharem menos um dia por semana, há um aumento da produtividade acompanhada por  melhorias nos níveis de burnout, na satisfação profissional e na saúde mental e física dos  trabalhadores.

Seria lógico assumir que caminhamos para jornadas laborais mais curtas e equilibradas,  com mais tempo para a família, a comunidade e o descanso. Especialmente agora, com o  avanço da Inteligência Artificial aplicada à eficiência e à melhoria de processos. Se tarefas  que antes demoravam um dia inteiro podem ser feitas em duas horas, o que fazemos com o  tempo que nos sobra?

Resistir à Inteligência Artificial no local de trabalho é, hoje, ficar perigosamente perto de se  tornar obsoleto. Mas importa sublinhar que aqui não se trata de substituir a mão humana  por máquinas, mas sim de criar uma colaboração inteligente entre pessoas e tecnologia,  onde a IA assume tarefas repetitivas e administrativas, libertando tempo para o pensamento  crítico, a criatividade e a tomada de decisão.

Se substituirmos reuniões longas e pouco eficazes por discussões objetivas, se  automatizarmos processos morosos e propensos ao erro, criamos cadeias de trabalho mais  eficientes e preparadas para o futuro.

A verdadeira questão já não é se a Inteligência Artificial veio para ficar, mas sim para quem  estamos a usar os ganhos que ela traz.

Porque eficiência sem bem-estar não é progresso, é apenas mais uma forma sofisticada de  esgotamento.

O Observadorassocia-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.