O palco dos grandes feitos e que é capaz de proporcionar histórias memoráveis, também é, por vezes, um cenário norteado por polémicas. Na passada semana, a patinagem artística começou a distribuir as suas primeiras medalhas nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina-2026. Nesse sentido, a vertente de dança no gelo foi mais uma de tantas outras provas que entrou na história… por bons e maus motivos. A primeira parte da competição acabou por não fazer grandes diferenças, com França, Itália, Grã-Bretanha, Canadá e Estados Unidos da América a sobressaírem na dança rítmica e a chegarem à dança livre na luta pela medalha de ouro.
Ao som da música do filme A Baleia, a dupla francesa, composta por Laurence Fournier Beaudry e Guillaume Cizeron acabou por levar a melhor, também, na dança livre, conquistando o ouro por apenas uma ponto de vantagem (225,82 contra 224,39) face à dupla norte-americana, que é tricampeão do mundo (Madison Chock e Evan Bates). O bronze voou para o Canadá, com Piper Gilles e Paul Poirier a terminarem com 217,74 pontos. Deste modo, Cizeron, que partiu para esta prova como campeão olímpico vigente, depois de ter subido ao lugar mais alto do pódio ao lado de Gabriela Papadakis, em Pequim-2022, tornou-se no primeiro patinador a conquistar o ouro com duas parceiras diferentes. Curiosamente, a atual dupla conseguiu chegar ao ouro com apenas cerca de um ano de trabalho em conjunto.
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Curiosamente, Fournier já representou a Dinamarca e o Canadá, mas foi ao serviço da seleção francesa, com Guillaume, que alcançou os seus melhores resultados. Inicialmente, o patinador formou dupla com Nikolaj Sorensen, que é, também, o seu parceiro de vida, mas esta acabou por se desfazer depois de Sorensen ter sido suspenso por conta de uma denúncia de assédio sexual feita por outra patinadora. Por outro lado, o francês abandonou, no mesmo sentido, a dupla que mantinha com Papadakis, com quem patinava desde criança. Na origem da rutura esteve uma alegada relação de poder e manipulação que levaram a patinadora a lutar contra problemas mentais.
Tudo começou ainda em 2022, ano em que a dupla subiu ao topo do certame olímpico. Nessa altura, os dois decidiram afastar-se provisoriamente, mas a rutura acabou por se tornar definitiva em dezembro de 2024, altura em que se consumou, em termos oficiais, a separação que, no caso de Gabriela Papadakis, culminou no término da sua carreira. Na altura, faltava pouco mais de um ano para os Jogos Olímpicos, pelo que a decisão não foi fácil. Nesse sentido, o campeão olímpico anunciou, no início de 2025, que ia formar dupla com Laurence Fournier Beaudry, começando um percurso em contrarrelógio para revalidar o título em Milão-Cortina. Contudo, esse acabou por não ser o único terramoto com o qual Guillaume Cizeron teve de lidar.
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Em apenas quatro anos, uma das duplas mais mediáticas da patinagem artística entrou num duro processo de divórcio sem retorno, que se detonou com a publicação do livro Pour ne pas disparaître (Para não desaparecer, em português), escrito por Papadakis. Na obra, a francesa questionou todo o sistema que envolve a patinagem artística e acusou o seu antigo companheiro de ser “controlador, exigente e crítico”, dizendo inclusivamente que não queria patinar com Cizeron sem a presença de um treinador. Para além disso, Gabriela relatou que chegou a ter medo de se aproximar do colega, perdendo “toda a sua autoestima”, contou. Com vista às Olimpíadas deste ano, a dupla ainda tentou uma espécie de terapia de casal, mas a separação tornou-se inevitável. “Nunca houve muita comunicação entre nós. Ficaram muitas coisas por dizer e, de certo modo, era melhor assim”, completou a agora ex-patinadora.
Em sentido inverso, Guillaume Cizeron defendeu-se com a necessidade de ambos precisarem de “um descanso”. “Quando ganhámos a medalha de ouro nos Jogos e o quinto título mundial em 2022, vínhamos de vários anos difíceis. Era óbvio que íamos precisar de um descanso, ou inclusivamente de parar tudo. A única coisa que lamento é não ter havido clareza mental para decidir ‘terminamos aqui'”, explicou o patinador. Apesar de a dupla ter acabado meses antes, Papadakis foi convidada pela NBC para ser comentadora em Milão-Cortina. Contudo, depois da publicação do livro, Cizeron “barrou” a presença da antiga companheira, afirmando que o seu livro “contém informações falsa, que atribuem, entre outras coisas, declarações” que “nunca” fez e que “considera graves”. O canal televisivo acabou por “apoiar” a reivindicação do francês e cessou a colaboração com a antiga campeã olímpica.
https://twitter.com/ISU_Figure/status/2021724220145750455?s=20
“O seu novo livro cria um claro conflito de interesses. A nossa responsabilidade é oferecer uma informação que a nossa audiência possa confiar e que esteja livre de preconceitos, que seja real e compreendida. Lamentavelmente, nestas circunstâncias, isto já não é possível“, explicou a NBC. “Estava disposta a comentar todos com igualdade e neutralidade. Pelo que sei, em resposta à notificação formal do Guillaume, que se tornou pública, consideraram comprometida a perceção da minha neutralidade e que não podia comentar nos Jogos Olímpicos”, reclamou Papadakis.