Nas últimas semanas, Portugal voltou a confrontar-se com a fragilidade do seu território perante fenómenos climáticos extremos. Cheias, ventos acima dos 130 km/h, telhados arrancados, diques destruídos, estradas submersas — um cenário que para já é excecional, mas tende a tornar-se recorrente. O mais preocupante, porém, não é apenas a força da natureza. É a forma como o país responde às suas consequências.
Em Portugal, continua a prevalecer a ideia de que o problema fica resolvido quando a água é retirada das casas, quando um telhado é substituído ou quando se voltam a plantar árvores nas zonas ardidas. Mas a realidade é mais complexa. Essas respostas são necessárias, ninguém o nega, mas são insuficientes. Porque o verdadeiro impacto dos fenómenos climáticos não termina quando termina a emergência.
Ele continua na vida das pessoas.
O que não se vê depois da tempestade
Limpa-se a lama, reabre-se a estrada, recompõe-se a fachada. No entanto, por baixo dessa aparência de normalidade, fica uma sociedade mais vulnerável e, muitas vezes, mais desigual.
Esta semana soubemos que muitos apoios relacionados com os incêndios de 2025 ainda não foram pagos. Mais do que uma questão administrativa, isto representa tempo perdido na recuperação das famílias, pequenos proprietários e comunidades inteiras. Enquanto aguardam, acumulam-se encargos, adiam-se obras, prolonga-se a incerteza.
Quando o apoio não chega a tempo, o impacto deixa de ser apenas climático, torna-se social.
A evidência científica mostra que fenómenos climáticos extremos não afetam todos por igual. Uma revisão internacional concluiu que, em cerca de 78% dos casos analisados, as alterações climáticas agravam desigualdades e têm impacto desproporcional sobre comunidades vulneráveis. Portugal não é exceção.
Vulnerabilidade prévia, impacto ampliado
Apesar de uma ligeira descida recente, o risco de pobreza em Portugal mantém-se elevado — 15,4% da população em 2024, o que corresponde a cerca de 1,6 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade económica. Para estas famílias, um evento extremo não é apenas um contratempo: pode ser um choque financeiro com efeitos duradouros.
Quando uma cheia invade uma casa ou um incêndio destrói uma habitação, a capacidade de recuperação depende dos recursos disponíveis. Algumas famílias conseguem recorrer a
poupanças, seguros ou crédito. Outras enfrentam o impacto sem margem de manobra. Perdem rendimentos, acumulam dívidas, atrasam reparações essenciais e ficam expostas a novos riscos.
Não é apenas uma questão de danos materiais. É uma questão de resiliência social.
Evidência internacional mostra que os incêndios florestais não deixam apenas cinzas, deixam desigualdades. Famílias com menos recursos perdem riqueza e enfrentam maiores obstáculos na recuperação do valor das suas casas, enquanto agregados com maior capital conseguem reconstruir mais depressa e, por vezes, até beneficiar da revalorização imobiliária no pós-desastre. Esta diferença traduz-se, muitas vezes, em mobilidade forçada, instabilidade e ciclos prolongados de fragilidade económica.
As consequências vão além da habitação. Eventos extremos afetam o emprego, interrompem serviços, aumentam a pressão sobre sistemas de saúde e fragilizam a coesão social. O impacto acumula-se muito depois de a emergência terminar.
Reconstruir não é o mesmo que prevenir
Reconhecer que cheias, incêndios e tempestades afetam todos os portugueses é fácil. Reconhecer que afetam de forma diferente as várias condições sociais exige maior maturidade coletiva.
É verdade que o Estado tem responsabilidades claras: garantir apoios atempados, investir em adaptação, planear território, reforçar infraestruturas. Sem isso, a recuperação será sempre desigual.
Mas também é verdade que a resiliência não se constrói apenas por decreto.
Ela constrói-se na cultura de prevenção, na responsabilidade individual e comunitária, na preparação antecipada. Passa por:
- manutenção preventiva de habitações e terrenos;
- respeito por regras de ordenamento e construção;
- participação ativa em planos locais de proteção civil;
- cooperação entre vizinhos, associações e autarquias.
Num contexto de fenómenos extremos mais frequentes, a prevenção deixa de ser opcional — torna-se uma responsabilidade partilhada.
O verdadeiro teste
Os fenómenos climáticos não criam desigualdades do zero. Revelam-nas. E podem ampliá-las.
Quando a água baixa e o telhado é reparado, o problema pode parecer resolvido. Mas se as famílias continuam endividadas, se os rendimentos não recuperam, se as infraestruturas permanecem frágeis e se os apoios tardam, então a crise apenas mudou de forma.
A reconstrução resolve danos. A prevenção reduz riscos. A cooperação constrói resiliência.
O combate aos efeitos climáticos e o combate à pobreza não são desafios paralelos. São dimensões diferentes do mesmo desafio coletivo: preparar Portugal para um futuro mais exigente, com menos vulnerabilidade e mais capacidade de resposta.
E essa preparação depende de todos.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.