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(A) :: Assobios no Bernabéu, troca de treinador, guerra pela sucessão, investidores externos: o ano em que Madrid está a ser tudo menos Real

Assobios no Bernabéu, troca de treinador, guerra pela sucessão, investidores externos: o ano em que Madrid está a ser tudo menos Real

Real joga grande parte da época com o Benfica depois de uma derrota na Luz que relegou a equipa para o playoff da Champions. E esta não é uma época qualquer – até a ideia da Superliga Europeia caiu.

Bruno Roseiro
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A temporada não terminou da melhor forma no Mundial de Clubes, com uma pesada derrota frente ao PSG nas meias-finais que impediu a disputa do primeiro título por Xabi Alonso. No entanto, tudo apontava para um Real Madrid pujante numa nova era pós-Ancelotti, com um plantel rejuvenescido com nomes como Dean Huijsen, Álvaro Carreras, Franco Mastantuono ou Trent Alexander-Arnold, com um treinador que marcara as duas épocas anteriores no comando do Bayer Leverkusen e com um arranque a todo o gás com 13 vitórias em 14 jogos entre Liga e Champions que colocavam a equipa com cinco pontos de vantagem sobre o Barça e a qualificação para os oitavos da prova continental “controlada”. Depois, tudo mudou. E mudou em tudo.

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O Real pode ter épocas melhores ou piores, pode ganhar mais ou menos troféus mas sempre foi conhecido este século por pilares inabaláveis que personificavam a gestão de Florentino Pérez no comando do clube – e que permitiu que se tornasse o presidente mais titulado de sempre. A forma como não conseguiu gerir todas as evidentes celeumas no balneário custou a queda precoce do projeto Xabi Alonso, a maneira como a equipa não resistiu aos constantes abalos desportivos colocou o Barcelona como formação dominante em Espanha. Em paralelo, a ideia de uma Superliga Europeia caiu e foi dado o primeiro passo para haver investimento externo nos merengues. A temporada de viragem na realidade blanca tornou-se uma vertigem conturbada que já motivou duas monumentais vaias em jogos no Bernabéu e tem agora um complicado teste no playoff da Champions com o Benfica, na sequência de três vitórias na Liga depois do desaire na primeira fase na Luz mas sem margem de erro para falhar numa época com demasiados “falhanços”.

Os assobios que não pouparam ninguém e um balneário (mais) difícil de gerir

O despedimento de Xabi Alonso após a derrota na final da Supertaça frente ao Barcelona, naquele que foi o culminar de um período de completa erosão desportiva que começara entre novembro e dezembro só com duas vitórias em oito jogos que atrasou a equipa na corrida pelo título, a que se seguiu a aposta em Arbeloa e a eliminação na Taça do Rei frente ao Albacete, da Segunda Liga, fez com que o Santiago Bernabéu quisesse também tomar uma posição em relação a toda a temporada do Real Madrid. Como? Um coro de assobios na entrada para aquecimento, outro coro de assobios no início da partida, mais um coro de assobios perante o nulo frente ao Levante ao intervalo. O técnico falou em manobras “arquitetadas” por alguns grupos que queriam visar também Florentino Pérez mas o episódio voltou a repetir-se na receção ao Rayo Vallecano, depois da derrota por 4-2 na Luz frente ao Benfica. O ambiente continua pesado na capital espanhola.

Também no balneário nem tudo é fácil. A semana passada ficou marcada por um jantar que reuniu todos os 24 jogadores do plantel num restaurante no centro de Madrid, com a conta final na ordem dos 1.800 euros a ser dividida pelos “pesos pesados” Kylian Mbappé e Vinícius Jr., mas há muito que têm saído notícias que dão conta de problemas internos que envolvem as principais figuras – e que estariam também na génese da saída de Xabi do comando, a par do rendimento físico aquém do esperado com várias lesões à mistura. “Tivemos semanas em que engolimos muita m**** e isso ajudou-nos a crescer como jogadores e pessoas. Passámos por momentos difíceis e bem merecidos mas isso fez-nos mudar e amadurecer como jogadores. As vitórias ajudam a ter outra fluidez e menos raiva na hora de trabalhar”, assumiu Valverde.

A aposta em Xabi Alonso que tinha tudo para correr bem mas não podia ter corrido pior

Desde que reassumiu a liderança do Real Madrid, em 2009, na sequência de uma era de galáticos (ou a era de Zidanes e Pavones) que acabou da pior forma e levou à demissão em fevereiro de 2006, Florentino Pérez fez sempre questão de iniciar ciclos que pudessem ter continuidade a médio prazo para dar estabilidade a todo o projeto desportivo. Houve duas exceções: Rafa Benítez, despedido em janeiro de 2016 após meros seis meses no cargo antes de ser substituído com sucesso por Zinedine Zidane, e Julen Lopetegui, a contratação que nasceu torta por toda a novela que envolveu o então selecionador espanhol em 2018 e que acabaria por não durar mais do que três meses (Santi Solari foi o sucessor, Zidane acabaria de novo a temporada). De resto, houve ciclos com maior ou menor sucesso tendo José Mourinho, Carlo Ancelotti e Zidane no comando que começavam e acabavam no verão de forma devidamente pensada. O próximo era Xabi Alonso.

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O antigo internacional que jogou no clube entre 2009 e 2014 era apontado como o técnico que iria dominar o futebol europeu nos próximos anos pelo trabalho que conseguiu fazer no Bayer Leverkusen e estava há muito apontado ao comando do Real, que iria fechar o segundo ciclo Ancelotti quatro anos depois – tanto que, no final da temporada, assumiu o comando dos merengues no Mundial de Clubes, onde só caiu nas meias-finais diante do PSG. Florentino Pérez via no treinador espanhol a possibilidade de abrir uma nova era mas falhou na forma em que “faltou” ao técnico em momentos críticos que teve com o balneário, entre o “choque” com Vinícius Jr., a relação com Kylian Mbappé e a falta de referências para lidar com os momentos mais críticos adensada pela saída de Luka Modric (que Xabi Alonso não queria). De forma inevitável, o ciclo acabou de forma precoce seis meses depois, com a aposta numa solução “interna” com Álvaro Arbeloa.

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A regeneração do Barça com Flick que mudou o paradigma do futebol em Espanha

O regresso de Joan Laporta à presidência do Barcelona, concorrendo agora a um segundo mandato num ato eleitoral antecipado para março através de uma demissão em bloco de toda a Direção, veio mudar o tipo de adversário direto que o Real Madrid tinha. O líder dos blaugrana tem um cariz mais bélico, nunca foge ao confronto e foi conseguindo recuperar um conjunto catalão que foi caindo a pique numa espiral que levou à saída de Lionel Messi. Porquê? Apostou na parte desportiva, percebendo que essa é a chave para recuperar qualquer projeto de um grande clube. Muitos receiam a fatura que poderá sair a médio prazo dessa opção, até porque houve pelo meio a remodelação de Camp Nou, mas o Barcelona conseguiu voltar a ser Barcelona em campo com grande mérito de Hansi Flick à mistura, lançando mais jovens da cantera com sucesso.

Com isso, a última temporada acabou por trazer uma viragem de paradigma no futebol espanhol. A conquista de Liga, Taça do Rei e Supertaça de Espanha não foi apenas um fenómeno circunstancial, tendo em conta que os catalães estão de novo na liderança do Campeonato, já ganharam também a Supertaça e venceram o rival em cinco dos derradeiros seis duelos. Aos poucos e de forma paulatina, existiu uma mudança de paradigma quase despercebida no futebol espanhol, com o Barça a passar de crónico candidato a ganhar todas as provas nacionais a principal favorito a ganhar todas as provas nacionais – é esse gap que o Real terá de voltar a fechar perante o crescendo dos catalães com cada vez mais jogadores de seleção espanhola nas opções.

A capacidade de ser melhor na Europa que se esbateu entre a deriva de uma identidade

O Real Madrid reforçou nos últimos anos o papel “especial” a nível de Champions. As coisas podem estar a correr melhor ou pior em termos internos, a época pode ter mais ou menos títulos, mas quando entravam na arena europeia os merengues tornavam-se numa espécie de Fénix renascida capaz de encontrar soluções perante todos os problemas que pudessem aparecer – e é isso que explica também que tenha ganho metade das últimas 12 edições, reforçando de tal forma o papel de clube mais titulado na prova que passou a contar com mais do dobro das vitórias (15) do que as equipas que se seguem no palmarés: AC Milan (sete), Bayern (seis) e Liverpool (seis). Até na temporada passada, quando 15 minutos de total pesadelo no Emirates deram uma vantagem de 3-0 ao Arsenal nos quartos, ainda havia quem acreditasse em mais uma remontada para a história no Santiago Bernabéu. Não aconteceu (nem esteve perto) mas essa era uma “imagem de marca”.

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Nas alturas chave, havia sempre uma resposta. Um sinal. Um daqueles jogos que mostram o porquê de haver um Real que encara a Liga dos Campeões como a “sua” prova”. Foi isso que não se viu na primeira fase da Champions: depois de triunfos pela margem mínima com Marselha e Juventus entre a goleada em Almaty com o Kairat, o conjunto espanhol perdeu com Liverpool e Manchester City, respondeu a todos os assobios à equipa no Bernabéu com a melhor exibição da temporada na receção ao Mónaco (6-1) mas voltou a mostrar as várias fragilidades na deslocação à Luz para defrontar o Benfica, terminando com uma derrota pesada que relegou a equipa para os lugares de playoff num encontro em que os encarnados chegaram a vulgarizar um antigo campeão europeu perdido na sua identidade e sem argumentos para se fixar no top 8 da competição.

A possibilidade de entrada de um investidor externo que obrigaria a mudar os estatutos

Durante vários anos, Florentino Pérez foi um feroz defensor do Real Madrid como “um clube dos sócios”, recusando a ideia de qualquer entrada de investimento externo no Santiago Bernabéu ao contrário do que estava a ser o sentido da maioria dos adversários externos na Liga dos Campeões. Até no plano interno, o Real começava a tornar-se quase uma exceção, sendo o único 100% detido pelos associados a par de Athl. Bilbao, Osasuna e Barcelona (que foi vendendo participações mas sempre de empresas do universo culé). E a ideia parecia estar reforçada com todo o investimento feito no estádio, que depois de ver amortizado o total do montante concedido poderia tornar-se mais uma fonte de receita importante para um clube que fatura acima de 1,1 mil milhões de euros por temporada. No entanto, existem sinais de mudança em Madrid.

Na última Assembleia Geral Ordinária, Florentino Pérez apresentou aos delegados e a todos os associados um projeto que visava abrir um montante de 5% a investimento externo sem que o clube tivesse de forma obrigatória de passar a ser uma Sociedade Anónima Desportiva, numa alteração que obrigaria também a mexer com os atuais estatutos do clube. De acordo com o New York Times, a ideia foi sendo gizada perante a necessidade de encontrar formas de “combater” o crescente investimento dos principais candidatos à vitória na Champions como PSG, Manchester City ou Liverpool, com uma possível divisão entre futebol e business,  por forma a que os sócios mantenham o pleno controlo da parte do futebol e institucional. Essa cedência de 5% por parte do Real Madrid poderia permitir um encaixe mínimo de 500 milhões de euros.

O fim da Superliga Europeia que deixou a má imagem do todo poderoso com pés de barro

Se dúvidas ainda existissem, o projeto Football Leaks mostrou aquilo que todos pareciam saber: a génese da criação de uma nova competição continental com alguns dos melhores clubes europeus estava no gabinete de Florentino Pérez, que contou com ajuda da Key Capital Partners, sediada também na capital espanhola, para gizar todo o projeto que iria tornar-se um autêntico terramoto no futebol. Em abril de 2021 surgiu o anúncio oficial da Superliga Europeia, menos de 48 horas depois a ideia estava suspensa sem data. Porquê? Todos os clubes ingleses deram um passo atrás também por influência governamental, os clubes italianos também começaram a mostrar renitência, os clubes alemães e franceses já tinham saído da equação. Sobrava apenas uma mão cheia de nada, por culpa da reação duríssima que chegou por parte da UEFA e da ECA.

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Durante alguns anos, e sempre sob a batuta mais ou menos presente do Real Madrid, a ideia nunca chegou a cair nos bastidores. Bernd Reichart, CEO da A22 Sports Management que agarrou depois no mesmo projeto, abordou no final de 2023 a possibilidade de uma Superliga Europeia mais “pensada” que traria uma maior equidade na distribuição de prémios, seria menos “fechada” no plano desportivo e poderia chegar a todos os espectadores de forma gratuita. Também não funcionou. Até o Barcelona, que apesar das relações frias com o rival se foi mantendo no mesmo barco, decidiu sair e deixar os merengues sozinhos com uma mera utopia nas mãos. Na semana passada, Real Madrid, UEFA e ECA anunciaram um acordo que colocava de vez fim à Superliga Europeia. O comunicado falou em meses de conversas proveitosas e num entendimento a bem do futebol, da sustentabilidade dos clubes e das melhorias das experiências dos adeptos mas aquilo que sobrou no final foi a imagem de um clube a tentar puxar dos galões de mais titulado na Europa para mudar tudo e aumentar as receitas de uma elite mas que, no final, acabou como um todo poderoso com pés de barro.

A guerra pela sucessão que já começou há muito nos bastidores do Santiago Bernabéu

O ano de 2025 trouxe uma “novidade” no contexto do Real Madrid, com Enrique Riquelme, empresário de 32 anos ligado às energias renováveis que é fundador, presidente e CEO da Cox Energy e que é também filho de um antigo dirigente do clube no elenco de Ramón Calderón, a querer entrar na luta eleitoral dos merengues contra Florentino Pérez. No final, apesar de cumprir aquele parâmetro que obriga a qualquer candidato ter 15% do orçamento em valor patrimonial, acabou por não avançar, considerando que não estavam reunidas as condições para ir a votos contra o recandidato. “É uma deceção que estes prazos curtos fixados pela atual Direção do clube e pela Direção eleitoral impeçam de apresentar oficialmente a candidatura e, com ela, a equipa, as propostas e o projeto em que temos vindo a trabalhar com dedicação e seriedade”, apontou. Assim, e de forma natural, Florentino Pérez foi reconduzido para mais um mandato até 2029.

Para muitos, tendo em conta a idade do presidente (78 anos), este deverá ser o último ciclo do empresário no Santiago Bernabéu. É por isso que, como têm avançado alguns meios espanhóis, já teve início uma espécie de guerra surda em termos internos para a sucessão de Florentino Pérez, com dois nomes próximos do atual número 1 na disputa daquela que será a preferência do líder mais titulado de sempre do clube – assumindo-se que isso poderá ser a chave para uma vitória eleitoral. Por um lado, José Ángel Sánchez é o diretor geral do Real Madrid, numa posição omnipresente que mexe com quase tudo o que envolve o Real do marketing à direção desportiva. Por outro, Anas Laghari é um empresário que estará por trás de toda a estratégia gizada por Florentino Pérez para o Real a médio prazo e que terá feito crescer a sua esfera de influência junto do líder dos merengues apesar de não cumprir alguns pontos obrigatórios dos estatutos como os 20 anos de filiação sem interrupção e até o facto de não ter nacionalidade espanhola. A corrida à liderança já começou.

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