Não sei se a presidência de Trump será boa para os Estados Unidos, mas está a ser muito positiva para a União Europeia. A ilusão do fim da história foi o maior problema da União Europeia nas últimas três décadas. A Europa abandonou a história e a realidade. Deixou de acreditar no que conta, como a defesa, o crescimento económico e a coesão nacional das suas sociedades. Começou a seguir fantasias, importadas ou criadas internamente, como as ideias “woke”, o radicalismo climático ou a fraqueza perante o radicalismo islâmico que cresce nos seus países. Ainda há muito por fazer, e a UE não ultrapassou muitos dos seus desafios (longe disso), mas desde que Trump chegou à Casa Branca, mudou mais do que desde o início do século. Mais importante, está a mudar no bom sentido. Como disse este fim de semana o Chanceler Merz, “está na hora da Europa acabar com as férias da história.” Vamos ver se ainda vai a tempo, porque as férias foram demasiado longas.
Antes de mais, finalmente os países europeus começaram a investir na defesa. Sem capacidade militar, a Europa não contará no futuro. Os governos europeus já decidiram investir 3.5% do PIB na capacidade militar, a partir de 2030, e mais de 2% do PIB até ao fim da década. Alemães e franceses já discutem a criação de uma capacidade nuclear europeia. Será uma questão de tempo até isso acontecer.
Ainda no plano externo, a União Europeia voltou a assumir uma política comercial ambiciosa. Desde 2016, tinha assinado dois acordos comerciais, com o Canadá (em 2016) e com o México (em 2020). No último ano, assinou cinco acordos comerciais, com os Estados Unidos, com o México (revisão e aprofundamento do anterior), com o Mercosul, com a Indonésia e com a Índia. E está próximo de assinar com a Austrália. Estes sucessos mostram como a vontade em política é decisiva. Quando o protecionismo cresce, a União Europeia assinou cinco acordos comerciais, e um deles com Trump.
No plano económico, além do comércio livre, os líderes europeus perceberam que o crescimento económico significativo exige a redução da burocracia e das barreiras regulatórias que ainda persistem no mercado único. Merz e Meloni estão a combater a burocracia. Em paralelo, a União Europeia está a abandonar o radicalismo climático dos anos Juncker e do primeiro mandato de de Von der Leyen. Agora, a UE está a alterar muitas das metas para a redução de emissões e a acabar também com proibições de política industrial que apenas levam a Europa para a pobreza, enquanto a China, a Índia e as outras economias emergentes aumentam as emissões de carbono.
De novo seguindo o impulso político de Meloni e de Merz, no Conselho Europeu de Março, Von der Leyen vai apresentar um programa para aprofundar o mercado único, “One Europe, one market.” O programa será assente num ponto central: é fundamental reduzir as barreiras regulatórias que existem na União Europeia. Um mercado comum não se constrói apenas com a eliminação de barreiras comerciais. Em muitos casos, as barreiras regulatórias são piores.
Esperemos que a União Europeia perceba, finalmente, que a sua principal competência é eliminar barreiras regulatórias, não é impor mais leis e regulamento aos Estados membros. Para isso, a maioria dos governos nacionais chega e sobra. Por exemplo, é isso que Maria Luís Albuquerque quer fazer com o sector bancário. Os bancos europeus precisam de ganhar dimensão. A valorização bolsista dos seis maiores bancos norte-americanos é superior ao do maior banco europeu. O maior banco americano, JP Morgan, tem um valor bolsista superior em cerca de nove vezes ao maior da UE, o Santander. A Comissão Europeia iniciou uma consulta pública para introduzir legislação antes do fim do ano com o objectivo de aumentar a competitividade dos bancos europeus. A eliminação de barreiras regulatórias, como a necessidade de obedecer a vários reguladores nacionais em vez de uma autoridade europeia ou a obrigação de respeitar regras diferentes sobre os balanços dos bancos, será crucial para os bancos europeus crescerem com custos burocráticos significativamente menores. A expansão para outros mercados da União Europeia é essencial para os bancos europeus ganharem dimensão e competirem globalmente. A União Europeia deve facilitar essa expansão. A mesma ideia aplica-se a outros sectores.
Resta saber se a União Europeia acordou a tempo de emendar o rumo errado dos últimos anos. Se despertou a tempo, a Trump o deverá. Foi o melhor Presidente dos Estados Unidos para a Europa desde o fim da Guerra Fria. Thanks Dear Donald.