Uma das vantagens de Pedro Passos Coelho aparecer poucas vezes no espaço público é que, dessas poucas vezes que aparece, dá-se atenção ao que diz – muitas vezes para dizer mal do que diz, mas até isso tem impacto. Pena é que, também por regra, se ligue ao acessório, ao que pode dar especulação política e mediática, e pouco a tudo o resto.
Ainda esta semana, por exemplo, se discutiu imenso se estava ou não a criticar o actual governo a propósito de umas declarações sobre reforma do Estado e nomeações para Administração Pública, deixando passar em claro outras passagens da sua intervenção porventura mais importantes. Estas, por exemplo (que cito da notícia do Observador):
“[A reforma do Estado] não se faz num PowerPoint. Isto dá um certo trabalho, é preciso chamar as pessoas e, sobretudo, não é uma coisa que se estude quando se está no Governo. É uma coisa que se tem de levar estudada quando se chega ao Governo para depois fazer, ajustar, adaptar, mas fazer. (…) Quem vai para o Governo e chama as pessoas para preparar uma grande reforma, o que vai gerir é comunicação política. Reforma não fará nenhuma”.
O essencial desta frase não é referência ao PowerPoint – é a ideia de que para fazer reformas é necessário pensar nelas primeiro, e estudá-las, e depois trabalhar com os envolvidos. O resto é espuma do dias – ou “comunicação política”.
Isto não acontece apenas porque é importante os políticos que se propõem governar terem ideias e propostas para o país que não sejam apenas promessas – acontece também porque se queremos fazer reformas é necessário antes trabalhar para que, no país, exista uma maioria social que apoie essas reformas. Sim, porque não bastam as maiorias políticas circunstanciais – essas podem conseguir aprovar leis, mas por regra soçobram quando enfrentam os interesses organizados e vocais daqueles que são afectados pelas reformas.
E isso também acontece porque o país, a começar pelo país mediático, de facto aquilo que gosta é de PowerPoints, e de emoções. Sobretudo muitas emoções.
O que se passou nas últimas semanas com os temporais é um bom exemplo disso. Basicamente vivemos alimentados a emoções, a “empatias” e a “capacidades de comunicar”. Vivemos a procurar culpados e a defenestrá-los, não vivemos a identificar problemas estruturais nem a debater soluções de fundo.
Basta pensar como tudo foi amalgamado e tudo foi tratado como se de um só problema se tratasse, “os temporais”. Ora aquilo que o país enfrentou foram fenómenos estruturalmente diferentes que nunca poderiam, nem deveriam, ser tratados da mesma forma. Quem tiver acompanhado a vertigem das televisões e dos directos das televisões e dos comentários das televisões terá ficado com a imagem contrária. E quem tivesse tido energia para acompanhar a enésima aparição “discreta” do Presidente da República no teatro das operações até é capaz de pensar que é assim, com a omnipresença do mais alto responsável do país, que os problemas se resolvem.
Amalgamando tudo deixa de se perceber, por exemplo, que uma cheia como a do Mondego dá tempo para evacuar populações e pré-colocar os meios de socorro, mas ventos ciclónicos como os de Leiria não são antecipáveis na dimensão que atingiram, nem no território que vitimaram, e mesmo que fossem não haveria tempo para, por exemplo, desmontar a rede elétrica e de telecomunicações que veio abaixo, ou garantir que ela estaria de pé logo no dia seguinte.
Amalgamando tudo acabamos a culpar sempre entidades vagas – o “ordenamento do território”, as “alterações climáticas”, por exemplo – sem perceber que sempre houve cheias no Mondego (houve-as de resto em todos os rios portugueses e com muito mais frequência do que nos dias de hoje) e que se num local o problema é construir em leitos de cheia, noutros locais o que torna quase impossível termos infraestruturas resilientes é um povoamento disperso com casinhas por todo o lado.
Amalgamando tudo vai-se sempre ao mais fácil – o tempo que um ministro leva a deixar o seu gabinete e a aparecer nas TV’s com um colete da protecção civil – e raramente ao mais difícil – o tentar perceber se faz qualquer sentido que a organização territorial da nossa protecção civil não coincida com a organização territorial das nossas forças de segurança (PSP e GNR mantêm uma malha territorial por distritos, a protecção civil, no tempo em que o actual líder do PS era ministro da Administração Interna, passou a estar organizada por regiões e sub-regiões).
Por fim, amalgamando tudo e valorizando sempre mais a emoção e os dotes comunicacionais, valorizando sempre o que é instantâneo ao que é ponderado, acabamos a viver de ilusões e alimentando ilusões. As “capacidades comunicacionais” dos protagonistas políticos nos dias da Covid ainda hoje nos impedem de perceber que o balanço final foi negativo, com Portugal a ser um dos países europeus com mais excesso de mortalidade (directa e indirecta). E a valorização permanente das emoções leva a que os “especialistas da comunicação” nem sequer percebam depois que o grande mestre das emoções se chama André Ventura e que as soluções fáceis que ele propõe são afinal uma tradução política das análises igualmente fáceis e pouco informadas que enchem o espaço mediático.
É por isso que, e regressando a Pedro Passos Coelho, há para aí umas duas décadas que andamos a discutir reforma do Estado achando sempre que mais tecnologias e mais “simplexes” resolveriam o colapso dos serviços públicos (isto e salários mais elevados), e nunca somos sequer capazes de enunciar os problemas mais complexos – como o de saber se todas as funções que o Estado hoje desempenha devem continuar a ser desempenhadas pelo Estado – ou politicamente mais escaldantes – como o de conseguir que os trabalhadores da administração pública tenham um regime de trabalho mais parecido com os do sector privado, nomeadamente no que respeita à segurança no emprego.
Infelizmente querer falar destes assuntos nos dias de hoje é arriscar ser de imediato sujeito a bullying mediático porque, reconheço, as reformas difíceis “não comunicam bem”, e hoje só conta comunicar bem. Sobretudo em Portugal, onde todo o comentarista político é um aspirante a Marcelo.