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Séculos perdido, achado com um detetor de metais, comprado por 4 milhões. British Museum garante Coração Tudor no seu acervo

Rara testemunha da união de Henrique VIII e Catarina de Aragão, a joia do século XVI foi encontrada por um amador num terreno rural em 2019 e integra agora a coleção permanente do museu.

Maria Ramos Silva
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É um dos traços mais vezes citado na biografia e reinado de Henrique VIII. Entre 1509 e a data da sua morte, 1547, o Rei inglês foi casado por seis vezes. Com Catarina de Aragão, a sua primeira mulher, manteve a união mais duradoura (e uma das mais polémicas). Testemunha desse atribulado relacionamento de 24 anos, um acessório muito especial integra agora a coleção permanente do British Museum. Acredita-se que o acessório, conhecido pela sua forma como Coração Tudor, seja a única joia sobrevivente desse enlace. 3,5 milhões de libras (cerca de 4 milhões de euros) garantiram a sua compra e entrada no acervo.

Trata-se de um pingente de ouro de 24 quilates do começo do século XVI, acompanhado por uma corrente de ouro de 75 ligações e um fecho em forma de mão. Apresenta ainda uma rosa Tudor vermelha e branca, uma romã (símbolo de fertilidade e alusão à Espanha natal da consorte) e as iniciais “H” e “K” (Henry e Katherine, o par em causa). Na peça lê-se ainda “tousiors”, uma antiga palavra francesa para “sempre”.

“Essa frase é pungente, pois o coração estará agora para sempre numa coleção pública, salva por gerações por vir e tornada possível por um apoio extraordinário”, destacou Nicholas Cullinan, diretor do museu britânico, citado pelo The Times. “O sucesso da campanha mostra o poder da história para despertar a imaginação e por que objetos como o Coração Tudor devem estar num museu.”

Também nas suas redes sociais a instituição louvou a concretização da compra, o corolário de uma longa campanha de angariação de fundos que mobilizou nomes como o ator Damien Lewis, e que travou assim a ida desta joia para uma coleção particular. De acordo com a lei britânica, museus e galerias em toda a Inglaterra têm a oportunidade de comprar tesouros de importância histórica antes de serem vendidos em hasta pública.

A própria trajetória recente do artefacto vale por si só a preservação em museu. Desaparecido ao longo de séculos, o Coração foi descoberto em 2019 por Charlie Clarke. Dono de um café e detetor amador de metal, desenterrou o pingente numa área rural em Warwickshire, na região centro de Inglaterra. A situação pareceu demasiado caricata para convencer os peritos da autenticidade da peça mas, segundo a Smithsonian Magazine, depois de extensa avaliação os historiadores concluíram que não só era verdadeira como dataria algures de meados do período de casamento de Henrique e Catarina, entre 1509 e 1533.

Segundo a BBC, pesquisadores do British Museum admitem que o pingente pode ter sido feito em 1518, por ocasião de um torneio que celebrava o noivado de Mary, filha de dois anos do casal, com o herdeiro aparente do trono francês, de oito meses. A princesa viria a tornar-se a primeira rainha reinante, governando Inglaterra por direito próprio.

Foi já em outubro de 2025 que o British Museum lançou a campanha tendo em vista a obtenção de 3,5 milhões de libras para tentar adquirir o pingente, uma meta fixada até abril de 2026.

A campanha atingiu o seu objetivo a tempo do Dia dos Namorados, celebrado este sábado, 14 de fevereiro, graças aos 1,75 milhões de libras concedidos pelo Fundo Memorial do Património Nacional, um contributo particular que assinala também os 45 anos da instituição, que tem como objetivo salvar os tesouros históricos mais notáveis do Reino Unido em risco. Coube ao Julia Rausing Trust avançar com uma doação de meio milhão de libras, seguindo-se uma campanha pública. Mais de 45 mil pessoas associaram-se a esta missão e conseguiram 360.000. O resto do montante foi obtido através de contribuições institucionais, incluindo 400 mil libras do Fundo de Arte e 300 mil libras do American Friends of the British Museum.

O pingente já está em exposição no museu, na sala 2: Coleccionando o mundo, e espera-se que possa vir a fazer um périplo nacional. Quanto a Charlie Clarke e o proprietário da terra onde o artefacto foi encontrado, tornaram-se milionários instantâneos, graças a um hobbie que se tornou bastante lucrativo. Cada uma das partes irá receber 1,75 milhões de libras.

“As pessoas dizem que é como ganhar na lotaria; mas não é. As pessoas ganham a lotaria. Quando foi a última vez que uma joia da coroa foi desenterrada?“, aponta Clarke, citado pelo Birmingham Mail, jornal da sua região, recordando que pretende investir o montante na educação do filho. Recordando o dia em que encontrou o Coração, diz que estava quase a dar a jornada por infrutífera até o detetor começar a apitar de forma inesperada. Os historiadores desconhecem, pelo menos até à data, a razão para a joia se encontrar naquela localização, mas é conhecida a ligação, ainda que intermitente, do antigo Rei a Warwickshire, tendo visitado o castelo Warwick pelo menos em duas ocasiões, em 1511 e 1541. Depois do achado do pingente, em 2024 foi redescoberto no condado um retrato do século XVI de Henrique VIII encomendado pelo proprietário de terras local Ralph Sheldon.

O valor do Coração Tudor transcende o cunho sentimental. Do ponto de vista arqueológico, os especialistas confirmam a raridade do achado, até aqui admirável apenas através de representações como a pintura. Poucas joias pessoais das cortes Tudor do início do século XVI sobrevivem, em parte porque muitas foram reaproveitadas, fundidas ou destruídas por razões políticas. “Este é o primeiro exemplo deste tipo de corrente que sobrevive fora de um retrato”, referiu ao Art Newspaper Rachel King, curadora do Renascimento europeu no British Museum, quando a campanha de arrecadação de fundos foi lançada pela primeira vez. O desfecho do casal também ajuda a explicar a a ironia contida nas inscrições e a reforçar os níveis de raridade.

Filha mais nova dos Reis Católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, Catarina de Aragão tinha três anos quando ficou noiva de Artur, príncipe de Gales, herdeiro aparente do trono inglês. Casaram-se em 1501 mas o noivo morreu apenas cinco meses depois. Catarina casaria em segundas núpcias com Henrique VIII, recém ascendido ao trono, servindo como regente enquanto o marido esteve em França, período marcada pela Batalha de Flodden e pelo triunfo inglês. Sem um herdeiro masculino para subir ao trono, Henrique pediu a anulação do casamento, suscitando uma série de eventos que desaguariam num dos momentos mais decisivos da história, a colisão e rutura da coroa inglesa com a Igreja Católica, após a recusa do papa Clemente VII, que em última instância resultaria na criação da Igreja Anglicana. Nada que demovesse o monarca de cortar com a rainha e casar-se com a sua amante, Ana Bolena, um capítulo que terminaria com a execução da consorte, em 1536.