10 horas e 52 minutos. Manuel Augusto levanta o braço na rua e o autocarro da Câmara Municipal dá a volta à estrada para o apanhar à porta de casa, à frente da Gare Rodoviária de Alcácer do Sal. Meros 13 minutos depois, vai estar aqui mais uma vez, já entregue pelo autocarro, e com o voto depositado na urna. Esta passagem pela assembleia de voto já devia ter acontecido há precisamente uma semana – ao mesmo tempo que o resto do país saiu de casa para eleger António José Seguro – mas a tragédia que assolou esta região não o permitiu.
Quando saiu, nem sabia ao certo para onde tinha de se dirigir. Algumas das secções de voto originais, que receberam a primeira volta das presidenciais e deviam ter recebido também a segunda, estavam localizadas na zona ribeirinha da cidade, que ficou submersa assim que as águas do Sado começaram a subir.
Este domingo, isso já não se verifica, e muitos eleitores ficaram sem saber se deviam manter o local de voto. Não encontrando sinalização óbvia da autarquia, Manuel Augusto decidiu improvisar: saiu de casa e procurou um dos autocarros destinados a levar eleitores (geralmente idosos, a viver em aldeias isoladas) às urnas.
“Para ir votar é aonde?”, perguntou, assim que subiu o primeiro degrau. Foi ali que descobriu que tinha de se dirigir a uma secção diferente do habitual. Entrou, e seguiu caminho. Naquela hora, foi o único eleitor a aproveitar a boleia.




Ir votar quando o vencedor já está anunciado
O discurso de vitória já está feito, e o candidato derrotado já regressou ao papel (que nunca abandonou) de líder da oposição, mas ainda há pequenas triunfos por conquistar. António José Seguro já é o político mais votado de sempre numa eleição, e só pode aumentar esse recorde. André Ventura ainda pode vencer mais algum concelho, mas é pouco provável que isso aconteça em Alcácer do Sal.
À conversa com os eleitores na rua, é difícil perceber ao certo que efeito o adiamento das eleições teve no comportamento de voto. Tanto podem deixar de votar como reforçar a intenção de sair de casa. Podem querer dar força ao “underdog” – o candidato derrotado – ou juntar-se à onda de vitória, alinhando com quem já venceu. Nada disto é claro, e varia de pessoa para pessoa.
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Assim sendo, e já com os dados em cima da mesa, Manuel Augusto não vê problema em revelar em quem vai votar: António José Seguro. “Vou votar na pessoa ideal. Pronto, já ganhou, mas vou”. E pouco lhe interessa que o socialista já esteja eleito. “Nunca pensei não ir votar”, garante. “Mal ou bem, vou sempre votar”. Reconhece e prevê que muitos deixem de o fazer com um vencedor já anunciado, especialmente as que iam votar em André Ventura – “dizem que o outro já ganhou e não vale a pena” – mas reprova a ideia: “Eu não vou assim”.
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Para exercer esse direito, conta com um aliado precioso, ainda que só o tenha encontrado por coincidência: o primo Joaquim Rodrigues, motorista do autocarro em que segue. Mesmo que a afluência desça significativamente, a ele se deverá que esse número não tenha caído ainda mais. Ou só um bocadinho que seja. “Até esperava que viesse menos gente”, diz, enquanto segue de localidade em localidade, raramente encontrando interessados em seguir a bordo. Até perto do meio-dia, tinha dado boleia a seis eleitores.
Joaquim arrancou a manhã bem cedo. Nele, recaiu outra responsabilidade invisível neste dia de eleições adiadas. Em conjunto com outros colegas, recolheu os boletins de voto na Junta de Freguesia de Santa Maria e distribui-os pelas secções de voto de todo o concelho. Esperou depois pela abertura das urnas, foi um dos primeiros a votar, e seguiu para a estrada.
Pelo caminho, apanhou três amigas: entre Adozinda, Galiana e Sílivia, as idades vão dos 76 aos 94 anos, mas nenhuma abdicou do direito de voto. “Nós viemos na mesma”, diz uma delas, ignorando que o vencedor já esteja encontrado. Entre risos e conversas com conhecidos à saída da Escola Básica Pedro Nunes (local que acabou por receber grande parte dos eleitores originários das secções de voto que não abriram em Alcácer), um aspeto fica claro: além de uma questão de participação cívica, a ida às urnas também é um programa social, especialmente para os idosos.
Também elas rejeitam que o conhecimento prévio do vencedor seja impeditivo de exercerem o direito de voto. Até porque, como lembra Adozinda, as eleições são sobre muito mais do que escolher um vencedor. “Se estivéssemos sempre a ir pela cabeça dos outros, não fazíamos nada”. Tal como Manuel Augusto, descobriram no autocarro que iam votar noutro sítio, mas não se importam. A única excepção é Galiana, a mais velha do grupo. Já sabia que tinha de vir à escola. “Alguém lhe disse”, mas não se recorda quem.
O sentimento é generalizado entre quem vai aparecendo nesta assembleia de voto. “As pessoas queixam-se que não sabiam onde tinham de ir”, diz uma das responsáveis, que não acredita que isso tenha sido razão para alguém ter deixado de ir votar. Ou seja, só quem de facto está interessado em ir votar se pode chatear por não saber onde o pode fazer.

Tendo já largado Manuel Augusto e as amigas Adozinda, Galinda e Sílvia nas respetivas paragens, o autocarro de Joaquim Rodrigues segue de volta à estrada, sem um plano claro. Pelo caminho, o motorista passa pela zona ribeirinha, onde o cenário ainda é devastador.
A água já baixou, mas as ruas ainda se assemelham a uma zona de guerra. Ainda há sacos de areia plantados à porta das casas, destroços e pedaços de lixo espalhados pela rua e pelo passeio. A cada esquina que se vira, surge um militar ou um escuteiro equipado com um fato impermeável da cabeça aos pés.
Agora de autocarro vazio, Joaquim vai apontando os sítios que registaram mais estragos. O supermercado que alagou, o lar de idosos que teve de ser evacuado, a praça de touros que ficou com água até ao cimo da porta. O pior já passou, e até já dá para ir a votos, mas os trabalhos de limpeza e de recuperação de Alcácer ainda agora estão a começar.

“Ir votar? Eu?”
Uma das localidades escolhidas (aparentemente de cabeça) por Joaquim Rodrigues é a Barrosinha, outra localidade que beneficia deste serviço de transporte, mas sem grande sucesso. “Isto é um meio pequeno, toda a gente se conhece”, alerta, enquanto faz uma pausa obrigatória na paragem de autocarro destinada a esta carreira eleitoral. “Vamos ver se alguém aqui quer vir votar”.
Apenas dois homens se aproximam. Em vez de se dirigirem à porta dianteira, surgem pela esquerda e metem conversa com o motorista. São amigos de Joaquim, e querem saber se vai estar a trabalhar durante a semana. Perguntam pela família e pelo trabalho, só não se fala sobre eleições. “Então e não queres vir votar?”, pergunta o motorista. “Eu?!”, responde um deles, mostrando logo que a ideia nem passa pela cabeça de grande parte dos habitantes de Alcácer. Depois de semanas infernais, ir votar numa eleição já decidida chega a ser visto por alguns como uma autêntica “perda de tempo”.
É o que acontece na localidade de Arez, onde uma única secção de voto está destinada também aos eleitores de Vale de Guiso. Num dia normal, o percurso entre estas terras far-se-ia em pouco mais de 5 minutos de carro. Com a subida das águas, a estrada que as unia ficou debaixo de água (e assim permanece há mais de 15 dias), e o caminho de carro para contornar o problema sobe para quase uma hora.
A solução encontrada pela autarquia foi um pequeno barco a fazer de vaivém, como já acontece com os autocarros. À hora de almoço, os voluntários da mesa de voto de Arez não contavam mais de 4 pessoas a alinhar na iniciativa.
À tarde, com o passar das horas e a melhoria das condições meteorológicas, o nível da água baixou e tanto tratores como carros mais altos começaram a conseguir fazer a travessia. Quase todos se dirigiam a Vale de Guiso, e não o contrário. O que quer dizer que mesmo deixando de ser necessária a viagem de barco, poucos eleitores encontraram motivação para se deslocarem a Arez para ir votar.




Nas casas que rodeiam o Centro de Convívio onde a secção foi organizada, é possível encontrar quem o tenha feito. Almor tem 78 anos e votou por “dever cívico”. Depois de o fazer, passa a tarde a acompanhar os bombeiros enquanto tenta perceber se mais pessoas aparecem no barco para vir votar.
Um dos seus vizinhos garante que foi às urnas para influenciar o resultado final: “Quem ganhou já sabemos, mas isto agora o que interessa são as percentagens”, sublinha. “E as percentagens importam muito”. O que diz é verdade: na teoria, mesmo que ínfima, uma subida percentual de André Ventura dar-lhe-ia mais capital político para se afirmar como líder da direita, como tem feito desde a noite (regular) da segunda volta. Em sentido contrário, quanto mais votos tiver António José Seguro, mais “legitimidade reforçada” – a expressão tantas vezes usada pelo socialista na campanha – tem o Presidente eleito junto do Governo.
Sendo relevantes, estas contas não convencem toda a gente. Uns metros acima da mesa de voto em Arez, Miguel Matias, 32 anos, decidiu passar o dia de domingo com amigos a construir um balcão que vai servir de apoio a um campo de futebol aberto à população. Ao todo são quatro, e só um deles votou. E também o fez influenciado pelos resultados de domingo. “Votei no Ventura porque já sei que não ganha”, explica.
Miguel votou na primeira volta, e até aqui nunca tinha optado pela abstenção, mas desta vez quis tomar uma posição. Primeiro, porque não sente necessidade de ajudar a definir o que já está definido. “Não vale a pena, vou lá fazer o quê?”, questiona, garantindo que muitos dos que conhece adotaram a mesma lógica.
Mas há também uma outra componente: o sentimento de abandono da região ligado ao não adiamento das eleições pedido por Ventura dias antes da campanha terminar. “Não foi só Alcácer, houve outros sítios onde não se pôde ir votar. Devia ter sido um adiamento nacional”, conclui Miguel.
Sente que a tragédia retirou valor ao seu voto, quando devia ser ao contrário, e que o atraso das eleições deixaram os habitantes de Alcácer do Sal como uma espécie de “portugueses de segunda”. Para ele, e certamente para muitos dos que se abstiveram neste estranho dia de eleições, não votar não foi só uma questão pragmática – foi uma atitude de protesto.