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O discurso de Marco Rubio e as escolhas europeias

Hoje, o Ocidente encontra-se diante de um instante decisivo. Pode reencontrar a confiança na sua própria herança e agir como protagonista do futuro, ou continuar a procrastinar à sombra da bananeira.

José António Rodrigues do Carmo
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Há discursos que não são apenas um conjunto de palavras pronunciadas diante de uma audiência. Discursos que revelam aquilo que uma época pensa, aquilo que receia e, sobretudo, aquilo que já não pode continuar a ignorar. A recente Conferência de Segurança de Munique foi um desses momentos. Não porque Marco Rubio tenha dito algo absolutamente novo, mas porque disse em voz alta num tom amigável o que muitos preferem não enfrentar.

Há um ano, a Europa foi confrontada com as palavras desdenhosas de J.D. Vance. Este ano, levantou-se para aplaudir um homem do Partido Republicano que a Europa se habituou a respeitar. Não porque a substância tivesse mudado, mas porque o tom foi cordato e a consciência europeia começa a interiorizar que o tempo das ilusões terminou. A política internacional regressou ao seu estado natural, um campo de batalha onde sobrevivem aqueles que cultivam a vontade, a força e sobretudo a clareza moral. Onde Trump e Vance têm sido brutais, hostis e aparentemente erráticos, Rubio estabeleceu um fio de prumo.

Foi estratégia de choque? Se foi, parece ter resultado.

Rubio afirmou que os Estados Unidos querem continuar a contar com os seus aliados europeus, mas deixou igualmente claro que, na nova ordem que se desenha, a centralidade do Ocidente dependerá menos de proclamações e mais da capacidade real das nações que o compõem para defender os seus interesses e a sua civilização. Esta frase encerra uma advertência decisiva: nenhuma civilização permanece se deixar de acreditar em si própria.

Durante décadas, a Europa habituou-se a viver num estado de segurança quase etéreo, como se a estabilidade fosse uma dádiva divina e não o resultado de decisões difíceis, sacrifícios e coragem política. A vitória na Guerra Fria criou a ilusão de que a história havia terminado, de que bastaria administrar regras, tratados e instituições internacionais para garantir a ordem global. Mas aquilo que se julgava ser um sistema permanente revelou-se apenas um interlúdio histórico.

As organizações internacionais que deveriam assegurar a estabilidade do mundo transformaram-se, em fóruns de paralisia, quando não em instrumentos de legitimação de regimes que desprezam abertamente os princípios que essas mesmas instituições afirmam defender. A incapacidade ou deliberada recusa de actuar em conflitos decisivos, a complacência perante actores agressivos e a exploração sistemática das lacunas do direito internacional por parte de ditaduras e organizações hostis, demonstram que a desfaçatez burocrática não substitui a responsabilidade política. Quando a inépcia se combina com a cumplicidade, as instituições deixam de proteger a ordem e passam a fragilizá-la. Guterres, Francesca Albanese, Volker Turk, Navi Pillay, etc, são apenas alguns de uma extensa plêiade de personalidades cínicas ou naïves, que ajudaram a levar as organizações internacionais para esse vórtice de entropia.

Mas o problema do Ocidente não é apenas externo. É, sobretudo, interior. Nenhum inimigo externo enfraqueceu tanto o Ocidente quanto o seu próprio hábito recente de duvidar de si mesmo. As civilizações não desaparecem apenas quando são conquistadas; desaparecem quando deixam de acreditar que merecem continuar. A história mostra-nos repetidamente que o declínio começa no momento em que a vontade se dissolve, muito antes de qualquer derrota militar.

Nas últimas décadas, instalou-se em amplos sectores das sociedades ocidentais uma espécie de cansaço de si próprias. Civilizações que durante séculos expandiram conhecimento, tecnologia e instituições políticas únicas começaram a desenvolver uma estranha tendência para desconsiderar a sua própria herança, enquanto observavam, com passividade e resignação, adversários estratégicos a reforçar o seu poder económico, militar e tecnológico.

Este fenómeno manifesta-se de múltiplas formas. Surge no medo persistente da guerra, não o legítimo horror ao conflito, que sempre existiu, mas a convicção ingénua de que a recusa psicológica da força é suficiente para impedir que outros a utilizem. Aparece também na dependência energética criada por escolhas políticas assentes na “culpa” que, sob o pretexto de virtude climática, fragilizaram economias inteiras sem produzir qualquer efeito equivalente sobre potências que continuam a expandir o uso de combustíveis fósseis enquanto acumulam vantagem estratégica. Um destrutivo auto-desarmamento moral e material. Quando uma civilização faz escolhas que reduzem a sua autonomia energética, industrial e militar, enquanto os seus adversários fazem exactamente o contrário, deixa de agir como actor histórico e passa a comportar-se como espectador ingénuo de um jogo que continua a ser jogado.

Outro sintoma deste mesmo declínio de confiança é a dificuldade de discutir racionalmente o problema da imigração descontrolada. Nenhuma sociedade pode sobreviver sem fronteiras efectivas, não por hostilidade ao estrangeiro, mas porque toda a comunidade política necessita de limites que tornem possível a integração, a coesão social e a continuidade cultural. Transformar o controlo das fronteiras num tabu moral é, em última análise, negar o direito de qualquer sociedade a preservar a sua própria forma de vida. A civilização que deixa de acreditar na legitimidade de se preservar está a preparar a sua própria dissolução.

Rubio falou disso tudo e quando recordou que americanos e europeus partilham uma herança civilizacional comum, desde as grandes tradições culturais até aos campos de batalha onde combateram lado a lado, não estava a invocar sentimentalismos, mas a sublinhar uma realidade estratégica: alianças sólidas nascem de identidades partilhadas. E essas identidades só sobrevivem enquanto houver quem as considere dignas de defesa.

A Europa encontra-se hoje diante de uma escolha histórica que não pode ser evitada com discursos diplomáticos. Pode continuar a refugiar-se na ideia confortável de que a ordem internacional criada após 1945 continuará a existir independentemente da sua própria vontade política. Ou pode reconhecer que essa ordem só persistirá se as nações ocidentais estiverem dispostas a agir como centros de poder, de cultura e de decisão.

Talvez por isso, o aplauso de pé em Munique foi mais que um gesto protocolar. Foi o reconhecimento instintivo de que o tempo das hesitações está a terminar. O mundo que se forma não será determinado por conferências, mas por decisões sobre defesa, energia, fronteiras, tecnologia e identidade civilizacional.

A Europa ainda possui todos os recursos necessários para permanecer um dos pólos decisivos do sistema internacional, desde conhecimento, a capital humano, passando por tradição institucional, cultura e capacidade económica. O que tem faltado não é poder potencial; é a convicção de que esse poder deve ser exercido.

E a História ensina que, quando chega o momento da escolha, as civilizações que hesitam demasiado acabam por descobrir que alguém escolheu por elas.

Hoje, o Ocidente encontra-se diante desse instante decisivo. Pode reencontrar a confiança na sua própria herança e agir como protagonista do futuro, ou continuar a procrastinar à sombra da bananeira.

Mas a História é feita por aqueles que acreditam que vale a pena permanecer de pé e é cruel com os passivos e indolentes.

Por isso também aplaudo de pé o discurso de Marco Rubio.