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(A) :: Há sempre um capitão a resgatar a equipa dos soldados feridos (a crónica do Nacional-FC Porto)

Há sempre um capitão a resgatar a equipa dos soldados feridos (a crónica do Nacional-FC Porto)

Entre várias ausências e a quebra competitiva de Froholdt e Mora, FC Porto regressou aos triunfos no Campeonato assente numa dupla de centrais imperial e um Diogo Costa decisivo na hora certa (0-1).

Bruno Roseiro
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Quando terminou a primeira volta da Liga com 49 em 51 pontos possíveis, apenas quatro golos consentidos em 1.530 minutos e uma vantagem de sete e dez pontos para os rivais diretos, o FC Porto não só batia vários recordes históricos do melhor arranque de sempre como entrava numa zona onde haveria mais demérito se não fosse campeão do que mérito dos adversários. Não que o futuro campeão não trabalhe e jogue para isso (pelo contrário), até tendo em conta que recentemente os dragões já ganharam e perderam títulos partindo exatamente dessa fasquia dos sete pontos na era Sérgio Conceição, mas porque parecia impossível haver uma quebra tão grande que permitisse dar nova vida a Sporting e Benfica. Nos melhores jogos, os azuis e brancos ganhavam e convenciam; nos encontros menos conseguidos, marcavam e conservavam a vantagem, até pela muralha quase intransponível reforçada com Thiago Silva. Numa semana, esses alicerces “abanaram”.

https://observador.pt/liveblogs/nacional-fc-porto-dragoes-procuram-regresso-as-vitorias-para-manterem-distancia-no-topo-da-liga/

Depois da primeira derrota no Campeonato em Rio Maior frente ao Casa Pia, na sequência de uma primeira parte onde “tudo o que podia correr mal, correu ainda pior”, o FC Porto esteve a um minuto de fazer o xeque quase mate ao título no clássico frente ao Sporting mas uma grande penalidade no último capítulo do tempo de compensação manteve tudo na mesma – com o Benfica a ganhar cinco pontos em duas jornadas. E como um mal raramente vem só, Samu sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito e terá de ser operado (falhando assim o resto da época), ao passo que Martim Fernandes e Kiwior tiveram problemas físicos que colocavam a dupla de fora do próximo jogo a par do castigado Moura. A deslocação à Madeira era um momento chave para equilibrar a equipa a nível de resultados mas as baixas causavam mossa.

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“Os últimos dias foram muito difíceis para todos nós. São notícias que trazem grande choque no balneário e em toda a gente que ama futebol mas o Samu é um homem forte. No dia a seguir esteve connosco aqui com um grande sorriso, sempre preocupado com a equipa. Aquilo que ele disse a mim e aos companheiros diz muito sobre ele. A única coisa que podemos fazer é estar com ele, desejar-lhe uma ótima recuperação. Claro que vai conseguir tornar este momento difícil em força para recuperar. Perdemos um jogador chave mas acho que já mostrei que tenho confiança nas qualidades do Deniz [Gül]. Já mostrou nas oportunidades que teve que é capaz de desempenhar a função. É um monstro fisicamente e agora é encontrar a continuidade. Tem o apoio de toda a gente no clube e espero ouvir muitas vezes a música dele [cantada pelos adeptos], que gosto muito”, apontara Farioli na antecâmara de uma partida onde voltou a passar ao lado de todas as polémicas que se passaram no último clássico e garantiu que tudo isso não entrava no balneário portista.

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“Claro que os jogadores olham às vezes para os tweets e essas coisas mas todo o ruído, a poluição e a polémica que tentam construir não afeta a dinâmica do grupo. Não conseguimos o resultado que queríamos mas fizemos uma boa exibição. Há muitas maneiras de analisar o jogo e claro que toda a gente olha para o jogo com os seus óculos e perspetivas. Penso que merecíamos ganhar e, depois de analisar a frio, repito a mesma coisa. Jogámos com a mentalidade certa e a exibição foi muito positiva, sem o resultado que queríamos. Mas a realidade é que, devido ao vosso trabalho, a atenção ainda está no passado… O nosso futuro é o Nacional. Quando vieram ao Dragão, criaram dificuldades. Foi uma das equipas que nos deixou mais vídeos na primeira fase de construção porque pressionavam muito o guarda-redes, os laterais… E espero novamente isso, uma equipa capaz de gerir os vários momentos do jogo”, apontara o técnico italiano.

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Em paralelo, entre críticas que ia deixando nas entrelinhas às análises feitas a todas as polémicos no último clássico e não tanto à parte jogada nas quatro linhas, Farioli manteve os elogios aos insulares (que no Dragão perderam pela margem mínima com um golo de penálti de Samu) e minimizou uma “pressão extra” por ter o Sporting e o Benfica a quatro pontos à condição, com os encarnados a terem mais uma partida na vitória nos Açores frente ao Santa Clara. “Estamos sempre a falar daquilo que falta mas nunca vejo comentários acerca do que estamos a fazer. Estamos contentes pelo processo, pelo momento em que estamos, com uma equipa que, até ao momento, não perdeu com os rivais. Sofreu um golo [na recarga] de penálti no último minuto e um autogolo… Há coisas de que deveríamos falar mais. Pressão? Vamos jogo a jogo. Espero que sejamos capazes de conseguir os resultados que queremos mas vamos enfrentar alguns desafios. A viagem, o relvado, a maneira como o Nacional joga, a qualidade que têm na frente… Vai ser difícil”, frisara.

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Foi mesmo. Foi porque as baixas de nomes como Samu, Kiwior ou Martim Fernandes fizeram-se sentir, foi porque figuras como Froholdt ou Rodrigo Mora voltaram a ter um jogo em subrendimento, foi porque as aposta como Pietuszewski ou Deniz Gül trabalharam muito mas não conseguiram fazer a diferença. Contudo, e no final de um dia de homenagens a Pinto da Costa que começou de madrugada no Dragão, imperaram aqueles que são os principais capitães com ou sem braçadeira para resgatarem um conjunto com vários soldados feridos: Bednarek foi providencial marcando o único golo do encontro, Thiago Silva voltou a ser imperial nos duelos aéreos, Diogo Costa voltou a ter uma intervenção decisiva no momento chave a impedir o golo inaugural dos madeirenses e o FC Porto regressou aos triunfos… pela margem mínima.

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Ficha de jogo

Nacional-FC Porto, 0-1

22.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Madeira, no Funchal

Árbitro: José Bessa (AF Porto)

Nacional: Kaique; Alan Núñez, Zé Vítor, Chico Gonçalves, José Gomes; Matheus Dias, Joel Silva (Miguel Baeza, 46′), Liziero (Laabidi, 85′); Witi (Pablo Ruan, 71′), Paulinho Bóia (Daniel Júnior, 85′) e Chuchu Ramírez

Suplentes não utilizados: Kevyn, Lucas João, Martim Watts, Deivison e Pablo Cardozo

Treinador: Tiago Margarido

FC Porto: Diogo Costa; Alberto Costa, Thiago Silva, Bednarek, Zaidu; Alan Varela, Froholdt (Fofana, 74′), Rodrigo Mora (Gabri Veiga, 59′); Oskar Pietuszewski (Borja Sainz, 59′), Pepê (William Gomes, 89′) e Deniz Gül (Moffi, 74′)

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Pablo Rosario, Prpic e Gabriel Brás

Treinador: Francesco Farioli

Golo: Bednarek (59′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Chico Gonçalves (45+1′), Liziero (84′), Kaique (87′) e Vallier (90+3′)

À semelhança do que tem acontecido com várias equipas que defrontaram o FC Porto nos últimos encontros, o Nacional não demorou a mostrar ao que vinha com e sem bola, procurando sempre na frente a velocidade dos alas ou os movimentos de Chuchu Ramírez e criando zonas de pressão sem bola que deixavam os centrais soltos para congestionarem a área da primeira fase de construção. Os dragões procuravam outras formas de saída, numa equipa que apresentava Zaidu, Thiago Silva, Rodrigo Mora, Oskar Pietuszewski e Deniz Gül de início perante as várias baixas na deslocação à Choupana, mas eram os insulares que se mostravam bem mais confortáveis na partida que tinhas apenas um remate de meia distância de Alan Varela ao lado (3′), tendo até mais períodos de posse no meio-campo contrário do que seria expectável. Só a agitação de Pietuszewski a partir da esquerda conseguia trazer algo de novo aos azuis e brancos, com o polaco a ter o primeiro remate enquadrado para defesa de Kaique (11′) e a ganhar um canto para Deniz Gül desviar sem perigo (13′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Nacional-FC Porto em vídeo]

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A bola parada também era uma arma forte dos dragões, com o Nacional a ter uma especial atenção a esse momento no aquecimento mas o FC Porto a continuar a criar ocasiões como aconteceu num desvio de cabeça de Thiago Silva à figura de Kaique (18′), algo que aumentava os níveis de confiança da equipa e tinha o condão de “retrair” as investidas insulares nas transições. Houve ainda uma grande oportunidade anulada por fora de jogo, com Kaique a impedir o golo de Gül isolado na área após passe de Rodrigo Mora (19′), mas os minutos iam passando sem golos apesar de haver mais Pepê e Mora no jogo entre muitas recuperações nos 20 minutos iniciais (12) e de José Gomes estar a conseguir mais incursões pelo flanco esquerdo do ataque do Nacional. A meia hora chegava com os azuis e brancos em crescendo mas sem argumentos no último terço frente a uma formação insular bem organizada e a perceber os momentos diferentes que o jogo apresentava.

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Estava a chegar o grande momento do Nacional na primeira parte: Chuchu Ramírez deixou-se ficar em baixo como se quisesse passar escondido pelo acampamento de jogadores na área à espera de um canto, enganou a marcação de Froholdt e apareceu sozinho em posição privilegiada para desviar de cabeça para grande defesa de Diogo Costa para novo canto (33′). Só mesmo quando Rodrigo Mora conseguia encontrar o espaço para pensar de frente para o jogo havia algo de diferente no ataque dos azuis e brancos, com o Nacional de forma invariável a impedir que todos os cruzamentos de bola corrida chegassem à finalização. O intervalo chegaria mesmo sem golos, com o FC Porto a terminar com mais remates, posse mas longe dos níveis que apresentara esta época entre elementos chave apagados tendo Froholdt como exemplo paradigmático.

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Tiago Margarido aproveitou o intervalo para mexer na equipa apesar das boas indicações deixadas durante a primeira parte, com Miguel Baeza a reassumir lugar no meio-campo em vez de Joel Silva. Do outro lado, a aposta de Farioli passou por mexer em dinâmicas com os mesmos nomes, numa entrada mais autoritária do FC Porto a assentar arraiais no terreno contrário e a fazer derivar os médios interiores para zonas laterais em busca de superioridades numéricas que permitissem outra qualidade no passe final para finalização. Apesar do domínio territorial, que secou por completo os momentos de saída dos visitados, Kaique continuava a ser pouco mais do que um espectador mas bastou uma dupla substituição para mudar por completo aquilo que estava a ser o cariz do jogo: Gabri Veiga, que entrou com Borja Sainz para os lugares de Mora e Pietuszewski, marcou um canto à esquerda na primeira vez que tocou na bola e assistiu o gigante Jan Bednarek na pequena área para o 1-0, com um desvio de cabeça sem hipóteses com dedicatória especial para Samu (59′). 

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O mais difícil na ótica do FC Porto estava conseguido, o mais difícil para o Nacional estava a chegar, com a desvantagem a obrigar os madeirenses a adotarem outro tipo de risco para terem mais unidades na frente e criarem oportunidades para o empate, como aconteceu em dois cruzamentos que criaram aproximações com perigo sem remate resolvidas na área pela defesa azul e branca. Fofana e o estreante Moffi também foram a jogo mas, dentro das tentativas de transição que Gabri Veiga procurava ir lançando, era na vertente física que os portistas apostavam para manterem a preciosa vantagem mínima e quebrarem a série de jogos seguidos sem ganhar na Liga. Objetivo cumprido: à exceção de um remate de fora da área de Baeza que saiu por cima da trave da baliza de Diogo Costa (90+6′), não houve mais oportunidades e o 1-0 manteve-se até ao final.

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