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À nora

E Seguro vai resolver algum dos problemas do país? Não, mas não seria um obstáculo sério a que uma solução aparecesse lá onde se governa.

José Meireles Graça
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Num artigo neste jornal, dizia em Agosto de 2023 um prestigiado autor:
E não conheço ninguém que no PSD ou na IL deixasse de votar nestes partidos por causa do alegado perigo de um entendimento com o partido dos fascistas. Porque um sócio minoritário que traga capital não vai definir a política da empresa – isso é o que fazem os sócios maioritários. No Chega sabem bem disso, que fazem teoricamente exigências (de pastas ministeriais, por exemplo) que sabem não poder ser cumpridas. O que quer dizer que entendem, e bem, que para continuarem a crescer o melhor é a chamada direita agir como se fosse de esquerda.

Em Março do ano seguinte o mesmo teimoso voltava à carga:
Só isto? Não, há mais e de índole prática: Governar é escolher e escolher é desagradar a alguns no imediato. Ou, se não for assim, desagradar à maioria a prazo. A segregação irracional do Chega deixa-o livre para acentuar a sua pulsão de cavalgar todo o descontentamento, resolver todo o imbróglio, ultrapassar toda a dificuldade a golpes de simplismo – e crescer.

Em Maio constatava melancolicamente que o Chega, “livre de peias, tem asneirado com abundância”. E acrescentava que
Se acordos discretos com o Chega já eram difíceis agora ficaram-no mais. De modo que de reformas (as quais, por definição, desagradam sempre a uma parte do eleitorado) estamos conversados.

Pelo meio ficaram muitos textos por aqui e por ali que verberavam comportamentos de personagens cheganas detestáveis, que há por lá avonde, incluindo o líder, que se esforça por agradar aos indignados no tasco falando como eles. Sem porém perturbar o essencial, que é isto:

As linhas vermelhas antes das legislativas foram um claríssimo erro, e não ter feito um acordo de incidência parlamentar depois delas outro. Porque o Chega associado à governação seria um e é pouco provável que comesse por dentro a aliada AD; e por fora é outro, que vai cavalgando todos os descontentamentos, e a mediocridade dos resultados da governação, a ver se acapara o Poder.

É a esta luz que se deve ver a candidatura de Ventura à Presidência: um degrau na procissão até à ermida que fica lá no alto do monte.

Cidadão que respeite as instituições e não ache que mergulhá-las na confusão a benefício de um projecto que tem o defeito de ser contra uma quantidade de coisas que precisam de tratamento sem que se perceba o que são exactamente os medicamentos, não podia votar Ventura. E por isso, tendo excluído cada um dos outros por razões que a cada um cabiam, defendi o voto em Seguro.

Aos meus numerosos amigos que colam Seguro ao PS e à esquerda e aproveitam para associar à comandita os apoiantes oriundos da direita tenho um esclarecimento a fazer, e uma mensagem pedagógica a transmitir:

O esclarecimento: Seguro respeita a Constituição e esta, no que toca à organização do Estado (que era o que estava em jogo) não é de esquerda nem de direita, é o que temos; Ventura ameaçava destruir as mesas do Palácio de Belém com murros furibundos e as bancadas do de S. Bento aos pontapés – o país não tem nada a ganhar com mobiliário danificado.

A mensagem: Não há uma direita, há várias, e não reconheço, nem ninguém dono do seu nariz reconhece, autoridade a próceres da opinião para reclamar marcas registadas e distribuir etiquetas.

E agora? Temos um líder, Montenegro, que nem o módico de reformas que pretenderia fazer consegue levar a bom termo porque precisa ou do PS, que não é parceiro para reformar coisa alguma, ou do Chega, que para crescer não quer desagradar a nenhum grupo suficientemente numeroso de eleitores que possa sair prejudicado; um Presidente que, se puder e dentro dos limites da Constituição e das circunstâncias, favorecerá o PS na versão centro-esquerda, do que só pode vir marasmo; e um Chega que talvez não esteja longe do seu tecto, ou esteja fadado para o ultrapassar sem que porém se perceba o que é que, fora da revisão do Código Penal, do reforço dos poderes das magistraturas e das polícias, mais umas quantas violências e gesticulações no domínio da corrupção e imigração, defende. Como não se percebe (ou melhor, do que se conhece a gente preferia ignorar) o que defende como polítca económica, a menos que seja para levar a sério aquela ideia de baixar impostos, subir salários manu militari e outras frescuras estatistas. Há por lá gente com mais senso e menos demagogia? Há, mas ainda não se lhe vê a marca.

Ficaríamos melhor com Ventura como Presidente? Não, para o regime deixar de ser semipresidencialista é preciso alterar a Constituição, não pôr em Belém um arrebatado com os olhos postos noutro palácio. E Seguro vai resolver algum dos problemas do país? Não, mas não seria um obstáculo sério a que uma solução aparecesse lá onde se governa.

Essa solução, vai aparecer? Há um Ventura genuinamente reformista, que é Passos. Está, porém, posto em sossego, deve achar que por aqui é só malucos que não está para aturar.