Devo ter sido dos que mais escreveram sobre Marcelo nos últimos dez anos. Se não, pelo menos, quem mais consistentemente o criticou. A forma como o país se deliciava com as selfies e os abraços de Marcelo só aumentava a minha vontade em lhe apontar o dedo. Quando o deslumbramento nacional abrandou refreei eu também nas críticas até que pus termo aos textos sobre o ainda Presidente da República. É tempo, pois, de regressar a ele. Pela última vez e em jeito de balanço.
Marcelo Rebelo de Sousa é um homem perspicaz e inteligente que não conseguiu ser um bom presidente da República. Apesar da sagacidade e da inteligência leu mal os sinais, falhou quando apostou e perdeu-se no fim do segundo mandato. Leu mal os sinais ao achar que a festa e a proximidade bastavam para que a maioria dos portugueses esquecesse os sacrifícios do período da troika. Ignorou (ou não deu importância ao facto) que a jogada de António Costa para ser primeiro-ministro, apesar de constitucionalmente legítima, deixou feridas profundas e comportou um custo que o sistema partidário ainda hoje está a pagar. Durante oito anos, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa desvalorizaram o trabalho invisível que dá resultados a longo prazo, privilegiaram o imediato e o agora numa altura em que o país precisava (e precisa) de mudanças que requerem tempo. Quando Portugal necessitava de equilíbrio e de serenidade, Marcelo e Costa deram-nos festa, exaltação e azáfama. Confundiram agitação com acção e, como geralmente acontece nessas situações, pouco ou nada se fez.
Mas Marcelo falhou também quando, em finais de 2021, apostou que o fim da geringonça (em 2019) ditava um governo minoritário de António Costa subordinado a Belém. Na altura, boa parte dos comentadores não compreenderam por que motivo Marcelo fez depender a continuidade do governo da aprovação do orçamento de Estado para 2022. Alertaram que isso tornava a votação dos orçamentos em verdadeiras moções de confiança ou de censura, o que conduziria a governos a prazo, dada a divisão no parlamento. Sucede que a razão era precisamente essa: ao convocar eleições, Marcelo esperava que um futuro governo minoritário do PS dependesse dele para se manter. No fundo, não antecipou que António Costa conseguisse uma maioria absoluta, depois de seis anos como primeiro-ministro. A inusitada vitória do PS, a 30 de Janeiro de 2022, colocou um ponto final nas aspirações de Marcelo que há décadas sonhava governar o país. Se não como primeiro-ministro, ao menos como um presidente popular que se sobrepunha a um chefe de governo debilitado nas urnas.
Foi neste momento que o segundo mandato de Marcelo se perdeu. De um presidente omnipresente e tutelar, Marcelo viu-se transformado num chefe de estado sem propósito. As selfies e os afectos (feitos para ganhar popularidade e se tornar imprescindível ao governo) perderam razão de ser e, sem brilho, banalizaram-se. Reduzido às armas políticas que foram as suas desde sempre, os boatos, os mexericos, o disse que disse, a pretensa fonte incógnita de Belém, os recados cada vez mais inócuos e inofensivos, Marcelo passou a ser um presidente velhote de quem sorrimos com compaixão.
Nem sequer as vitórias de Luís Montenegro sem maioria absoluta lhe serviram de alento. Com experiência suficiente para saber ao que ia, o novo primeiro-ministro teve o cuidado de se proteger do presidente e de o afastar das decisões mais importantes. Tão assim foi que, pela primeira vez na sua vida, Marcelo deve ter sabido pelos jornais o que se decidia em São Bento. Uma ironia com graça que nos faz sorrir com a mesma complacência com que o vemos partir.