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O meu nome nos Files

É tentador para muitos cristãos embandeirar em arco como quem mostra aos descrentes a javardice de que os livrámos. Eu não sou imune a ela, mas depois acabo por procurar melhor caminho.

Tiago de Oliveira Cavaco
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Fui ao site dos Epstein Files e no motor de busca escrevi: “Tiago Cavaco”. “No results found. Please try a different search.” Pelo que a internet me diz, não estive envolvido. Mas o meu não-envolvimento nos Epstein Files tem uma história.

História é a palavra certa porque muitos que se dedicam a ela têm notado que há dois mil anos os Epstein Files não seriam notícia para ninguém. Pelo contrário, o mundo de então tinha rotina em Epstein Files. À boleia do Substack do jornalista e escritor americano Rod Dreher, li uma observação explicativa de Paul Anleitner: “antes do Cristianismo, as elites civilizadas gregas e romanas exibiam abertamente escravos sexuais menores. O Imperador Adriano construiu uma cidade inteira em honra do seu rapaz preferido. Ouvimos durante décadas que o Cristianismo é um obstáculo ao progresso moral mas [sem ele] a cultura regressa às normas pagãs”.

É depois tentador para muitos cristãos embandeirar em arco como quem mostra aos descrentes a javardice de que os livrámos. Eu não sou de todo imune a essa tentação. Também tenho os momentos em que me parece irresistível dar calduços morais a ateus sem percepção histórica. E, sinceramente, acho que volta e meia se adequa, tendo em conta o déficit de charme público que o cristianismo enfrenta entre os nossos mais privilegiados. Mas depois acabo por procurar um melhor caminho.

O melhor caminho do cristão não me parece ser o da superioridade moral, mesmo quando ela é evidente. Afinal, a superioridade cristã sempre dependeu da afirmação do seu contrário. Explico: sem o paradoxo de o cristão prescindir de se achar moralmente melhor do que o seu próximo, o cristianismo não teria melhorado nada nem ninguém. Simplificando ainda mais, é preciso afirmar que o cristianismo só melhora os piores. Se os cristãos se acharem bons, não precisarão do que afirmam ser essencial para eles: Cristo.

Voltando aos Epstein Files, o assunto é, de facto, nojento. Mas para tirarmos a conclusão do seu nojo foi preciso um grande caminho pela história. Foi preciso que os poderosos fossem colocados em causa a partir de um fraco: Jesus, um judeu esquisito condenado à morte e alegadamente ressuscitado, passou a ser um modelo alternativo ao antigo “quero, posso e mando”. É todo um novo programa espiritual, teológico, político, social, you name it. A partir daí, nem a tranquilidade com que as elites exploravam sexualmente quem quisessem ficou na mesma.

Até quando a sociedade mais influenciada pelo cristianismo rejeita Cristo, algumas das preferências dele são guardadas. Se hoje continuamos a cultivar a preferência de evitar algumas porcarias, não a tenhamos como garantida. Quase de certeza que a maioria dos nomes que pode ser encontrado incriminatoriamente nos Epstein Files não acordou um dia e optou de peito feito pela peçonha moral. Foi uma história até lá chegar. Para que sejamos mais do que a facilidade com que abusamos do nosso poder, só precisamos de a assumir. São os nomes de quem confessa o pior que há em si que estarão no livro da vida: é nestes files que quero ser encontrado.