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Plano Nocional de Leitura (XLIII)

Porque roubaria alguém um objecto tão grande?  A ária de loucura que os esclarece delicia o público dos sonetos.

Miguel Tamen
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Nem todos os escritores são grandes escritores; alguns, como disse alguém, puseram todo o génio na vida e só algum talento na obra; outros passaram a vida inteira a pensar que estavam a fazer uma obra importante, e são lembrados por obras a que não tinham dado nenhuma importância; e a maioria, como os cantores, os santos e os heróis, são conhecidos por uma única coisa que fizeram: são as chamadas maravilhas de um só êxito.

Parece um pouco difícil de acreditar que um escritor possa ser estimado por um único poema ou por um verso: a situação impugna a ideia de que os escritores são membros convincentes das classes trabalhadoras.   O facto é que a alguns dos mais esforçados o público nunca comprou o produto dos seus trabalhos; enquanto outros, muito estouvados, continuam a ser convidados para cantar o seu único êxito nos festivais de Verão.

Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811) é a principal maravilha de um só êxito do século XVIII português.   É verdade que conseguiu aos sessenta anos que o erário público lhe publicasse as obras completas; mas são obras quase banais: requisitórios, requerimentos, e elogios das pessoas que lhe interessavam, e que só elas leram.  O seu grande êxito é um único soneto, publicado como Soneto 55, mas conhecido por outras razões.

Trata-se do soneto em que se revela que o penteado de uma filha respondona escondia um colchão desaparecido.   A revelação dá-se porque a sua mãe lhe atirou umas chaves à cabeça.  Já se mostraram anteriormente as vantagens deste sistema de educação.  Menos observado foi o erro fatal que conduziu àquela revelação.  É da falta de um colchão que nasce a tragédia doméstica; e por isso, logo no primeiro verso, a mãe irrompe pela casa em desarranjo, “Chaves na mão, melena desgrenhada.”

O objecto da omissão que causou a tragédia aparece no terceiro verso do soneto.  Este verso mostra o talento de Tolentino: é o verso “Que o furtado colchão, fofo, e de pena.”   As penas de que que é feito o colchão aludido serão a seguir objecto de um trocadilho clássico, atribuído à filha (“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena”); e a aliteração, ou seja a repetição de barulhos, é também muito antiga em poesia.   O êxito especial do soneto está realmente nas três palavras “o furtado colchão.”

Um furtado colchão não é um colchão furtado. ‘Colchão furtado’ é só uma maneira de falar de polícia, ou de nos referirmos a um membro honorário da família Furtado.  A expressão “O furtado colchão,” com o seu adjectivo fora do lugar, promete pelo contrário os mistérios irresistíveis da tragédia:  será o título de uma ópera italiana?  Porque roubaria alguém um objecto tão grande?  A ária de loucura que os esclarece delicia o público dos sonetos.  É por tudo isso que a fama de Nicolau Tolentino dura há tantos Verões.