Nem todos os escritores são grandes escritores; alguns, como disse alguém, puseram todo o génio na vida e só algum talento na obra; outros passaram a vida inteira a pensar que estavam a fazer uma obra importante, e são lembrados por obras a que não tinham dado nenhuma importância; e a maioria, como os cantores, os santos e os heróis, são conhecidos por uma única coisa que fizeram: são as chamadas maravilhas de um só êxito.
Parece um pouco difícil de acreditar que um escritor possa ser estimado por um único poema ou por um verso: a situação impugna a ideia de que os escritores são membros convincentes das classes trabalhadoras. O facto é que a alguns dos mais esforçados o público nunca comprou o produto dos seus trabalhos; enquanto outros, muito estouvados, continuam a ser convidados para cantar o seu único êxito nos festivais de Verão.
Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811) é a principal maravilha de um só êxito do século XVIII português. É verdade que conseguiu aos sessenta anos que o erário público lhe publicasse as obras completas; mas são obras quase banais: requisitórios, requerimentos, e elogios das pessoas que lhe interessavam, e que só elas leram. O seu grande êxito é um único soneto, publicado como Soneto 55, mas conhecido por outras razões.
Trata-se do soneto em que se revela que o penteado de uma filha respondona escondia um colchão desaparecido. A revelação dá-se porque a sua mãe lhe atirou umas chaves à cabeça. Já se mostraram anteriormente as vantagens deste sistema de educação. Menos observado foi o erro fatal que conduziu àquela revelação. É da falta de um colchão que nasce a tragédia doméstica; e por isso, logo no primeiro verso, a mãe irrompe pela casa em desarranjo, “Chaves na mão, melena desgrenhada.”
O objecto da omissão que causou a tragédia aparece no terceiro verso do soneto. Este verso mostra o talento de Tolentino: é o verso “Que o furtado colchão, fofo, e de pena.” As penas de que que é feito o colchão aludido serão a seguir objecto de um trocadilho clássico, atribuído à filha (“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena”); e a aliteração, ou seja a repetição de barulhos, é também muito antiga em poesia. O êxito especial do soneto está realmente nas três palavras “o furtado colchão.”
Um furtado colchão não é um colchão furtado. ‘Colchão furtado’ é só uma maneira de falar de polícia, ou de nos referirmos a um membro honorário da família Furtado. A expressão “O furtado colchão,” com o seu adjectivo fora do lugar, promete pelo contrário os mistérios irresistíveis da tragédia: será o título de uma ópera italiana? Porque roubaria alguém um objecto tão grande? A ária de loucura que os esclarece delicia o público dos sonetos. É por tudo isso que a fama de Nicolau Tolentino dura há tantos Verões.