Bebeu vinho, ofereceu garrafa a autarca, comprou um boné, falou de madrugada com António Costa, pressionou as seguradoras, propôs a criação de um Fundo de Calamidade, elogiou Montenegro, substitui-se ao Governo, previu o sucesso de Seguro e garantiu que será, quando sair de Belém, igual ao que sempre foi. Marcelo Rebelo de Sousa era para ter feito, alegadamente, várias visitas-fantasma (sem comunicação social) a zonas afetadas pelo mau tempo mas, em menos de 24 horas, passou várias dessas horas a falar em modo free-style em vários diretos televisivos. “Incógnito“, como prometeu, só mesmo numa passagem noturna por Leiria.
O Presidente da República acabou por estar assim, entre o final da tarde de sexta e o início da tarde de sábado, com pelos menos três presidentes das autarquias mais afetadas: Ana Abrunhosa (Coimbra), Gonçalo Lopes (Leiria) e Clarisse Campos (Alcácer do Sal). Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou a exposição mediática para revelar a grande proximidade que tem com autarcas, para fazer propostas (como o tal Fundo de Calamidade avultado inspirado em Espanha e França) e, sem deixar de colocar pressão no Governo, elogiar o papel de Luís Montenegro como ministro da Administração Interna (uma forma velada de criticar a antecessora, Maria Lúcia Amaral). Como foi afinal, este périplo (nada) discreto de Marcelo pelas zonas afetadas?
A proximidade com autarcas: telefonemas a desoras e os elogios à “coimbrinha”
Marcelo quis ir às escondidas visitar os locais afetados pelo mau tempo e começou por passar por Coimbra. “Vim pela chuva, incógnito, até que aparece-me uma menina“, contou, já rodeado de jornalistas. Ao contrário do dia anterior, quando ali esteve de forma institucional com Luís Montenegro, Marcelo jurou que o encontro foi casual e que até ia à chapelaria centenária da Baixa de Coimbra “comprar um boné”.
Na informalidade, Marcelo acabaria por estar em direto nas televisões mais de 40 minutos e a distribuir recados para todos os lados. E também fez elogios à autarca que entretanto o acompanhou. A tal “menina” que lhe apareceu era Ana Abrunhosa, presidente da câmara de Coimbra. Marcelo disse que a autarca é excecional, que “esteve sempre tesa, muito tesa“, acrescentando que um dia à noite lhe tinha prometido ligar à uma “mas depois foi mais a caminho das duas da manhã, e ela estava acordada”. É, garantiu Marcelo, uma mulher “resistente”, mesmo que “agora se use mais” a palavra “resiliente”.
O Presidente quis mostrar que esteve sempre presente. Acabaria por fazer outra revelação que mostra o seu lado preocupado e notívago quando — já este sábado, em Alcácer do Sal — acabou por revelar que também ligou a “desoras” à presidente Clarisse Campos. Que também elogiou.
Mas nada se compara às loas a Ana Abrunhosa, autarca que, quando era ministra da Coesão, Marcelo chegou a pressionar publicamente de uma forma considerada “deselegante” por vários membros do então Governo. “Este é um dia superfeliz, mas há dias superinfelizes. E verdadeiramente superinfeliz para si será o dia em que eu descubra que a taxa de execução dos fundos europeus não é aquela que eu acho que deve ser. Nesse caso não lhe perdoo”, disse em tom de aviso em novembro de 2022. Agora, o timbre foi outro.
Marcelo disse mesmo que Ana Abrunhosa “comunica como praticamente ninguém consegue comunicar”. O elogio serviu ao mesmo tempo como uma crítica velada a quem é inábil a comunicar. Numa alusão a falhas como as da ministra Maria Lúcia Amaral, Marcelo acabou por dizer que “há momentos em que é preciso ter, de facto, a noção exatamente do que se está a passar. Nem sempre é fácil. É preciso ter calma, tranquilidade, nobreza de espírito e capacidade da comunicação da decisão. De vez em quando é difícil. As pessoas são humanas, não são divinas.”
Ainda em Coimbra, o Presidente da República chegou a protagonizar um momento insólito com Ana Abrunhosa. “Isto é de um ex-aluno meu”, disse a autarca ao passar pela vitrine de um “wine bar”. Marcelo nem pensou duas vezes e entrou. Os dois acabaram por fazer um brinde. E foi aí que Marcelo não dispensou fazer uma pequena maldade das suas. Apesar de saber, naturalmente, qual é o gentílico da cidade, perguntou à autarca: “Quero fazer um brinde, como é que se diz? Aos coimbrinhas?” Ana Abrunhosa arregalou os olhos e corrigiu. Diz-se “conimbricenses”. Marcelo sorriu, farto de o saber. “Coimbrinhas” é um termo utilizado, por vezes, de forma perjorativa para se referir a um certo complexo de quem nasce e vive na cidade (por oposição aos que para ali vão estudar de outras zonas do país). Marcelo, até pela histórica luta entre o Direito de Lisboa e o Direito Coimbra, sabia-o bem. Mas não resistiu.
Antes de sair de Coimbra, Marcelo também provocou os jornalistas. “Vou continuar incógnito aí por outros sítios. Não digo onde“, atirou. O Presidente já teria revelado a alguns jornalistas que iria estar no dia seguinte (este sábado) em Alcácer do Sal, mas conseguiu ir, efetivamente, incógnito a uma outra autarquia afetada ainda na sexta-feira. Ao passar por Leiria encontrou-se com o presidente da câmara da cidade, Gonçalo Lopes, nessa mesma noite enquanto descia para Lisboa. Aí, de facto, não havia câmaras de televisão por perto.
Luís, o bom ministro da Administração Interna, e a eterna relação com Costa
Ainda neste périplo de 24 horas, Marcelo reiterou, como o Observador escreveu na quarta-feira, que apoiou a decisão de Luís Montenegro de acumular as funções de primeiro-ministro com as de ministro da Administração Interna. “Foi uma decisão muito inteligente“, defendeu.
Depois de uma trapalhada de Augusto Santos Silva — que obrigou o antigo presidente da AR a retratar-se — o Presidente aproveitou a oportunidade para abordar esse tema, ao contar que pediu uns minutos a Montenegro para operacionalizar a decisão. “Eu disse: ‘Espere aí um bocadinho que preciso de ter a certeza que a lei orgânica do Governo dá. E deu porquê? Porque no tempo do primeiro-ministro António Costa foi preciso ele a certa altura substituir o ministro dos Negócios Estrangeiros, não pôde e foi uma complicação”, contou Marcelo. Ora, era precisamente este episódio que Santos Silva tinha criticado.
Marcelo fez ainda uma boa avaliação do ministro da Administração Interna,Luís Montenegro, dizendo que “o Governo fez o que pôde e o que não pôde.” Mas deixou de fora os elogios a Maria Lúcia Amaral, deixando claro que essa avaliação positiva se dirige “em particular ao primeiro-ministro, que agora é ministro da Administração Interna, que está a fazer o que pode e não pode para comunicar bem e criar confiança. E isso é o fundamental.”
O Presidente deu até dois exemplos dessa atuação de Montenegro. Um deles é ter “acompanhado” a decisão da autarquia e da Proteção Civil de fechar aquela zona da A1 após a rutura do dique junto ao viaduto. Além disso, elogiou Marcelo, o primeiro-ministro “cancelou compromissos importantes, como uma reunião importante na Europa”, numa alusão ao retiro informal de líderes da UE organizado por António Costa.
E foi aí que voltaram as travessuras de Marcelo. Sabendo que a presença em reuniões informais é uma missão do primeiro-ministro, o Presidente da República revelou que se inteirou, já madrugada fora, com o presidente do Conselho Europeu sobre o conteúdo da reunião. “Eu falava às tantas da noite com o presidente António Costa sobre isso, que me estava a contar a reunião, e ele [Montenegro] não foi porque era mais importante o que se passava no país.” Esta era, naturalmente, uma responsabilidade do primeiro-ministro.
A pressão de Marcelo: um Fundo de Calamidade e outras garantias
Apesar dos elogios ao primeiro-ministro, Marcelo Rebelo de Sousa não tem abdicado de manter uma pressão alta sobre o Governo. Se é verdade que na quarta-feira andou ao lado de Luís Montenegro, passou depois para dois dias de várias visitas-fantasma que se tornaram eventos mediáticos.
O Presidente tomou até a iniciativa de pressionar diretamente as seguradoras, o que também seria, no mínimo, um papel do poder Executivo. “Vinha a caminho de cá e falei com o presidente da Associação de Seguradoras, diz-me que receberam qualquer coisa como 100 mil participações, das quais despacharam até agora 12 mil e avançaram 5 mil”, revelou Marcelo. O Presidente sabe que o ministro das Finanças já tinha falado com o mesmo dirigente, mas quis fazê-lo por cima do governante.
O Presidente da República pressionou ainda o Governo a criar um Fundo de Calamidade português à semelhança do que existe noutros países. “Não temos fundo de calamidade. A União Europeia tem. Outros países têm. É preciso uma fórmula. Em França é de 200 mil milhões. Em Espanha de 50 mil milhões. Esse fundo é constituído ao longo do tempo. Existe para fazer face a situações de maior envergadura. Essa é uma ideia a discutir”, defendeu. Marcelo não deixou assim de anunciar (e cunhar) uma medida que estaria num eventual plano do Governo, ao mesmo tempo que acabou por confessar: “O primeiro-ministro tem essa ideia também”.
O Presidente da República deixou ainda outras garantias que, em alguns casos, são um auxílio que dá ao Governo, já noutros, são pressão adicional. Relativamente, por exemplo, à intervenção do Estado em terrenos privados para resolver problemas imediatos, Marcelo diz que vem a caminho um diploma que “tem de ir ao Parlamento” e as “leis têm de ser aprovadas e ser rapidíssimas.” Neste caso, está a ajudar o Governo.
No entanto, Marcelo também defendeu a não obrigação de os cidadãos terem a situação fiscal e na Segurança Social regularizada para receberem apoios na reconstrução. Para o Presidente “essas pessoas têm de ser protegidas” e por isso “têm de se encontrar medidas, como a suspensão de obrigações fiscais e depois tem de se ver como as pessoas recuperam de forma a poderem pagar impostos.” E acrescentou: “Sobretudo devem ser ajudados por aquilo que lhes aconteceu, não só não serem penalizados, mas terem um regime mais favorável por causa disso”. Neste caso, o chefe de Estado exige ao Governo que crie estas exceções.
Marcelo será Presidente até ao fim, vê “sucesso” de Seguro e rejeita voltar a ser político
O Presidente da República recusa-se a ter o entendimento que está fragilizado pela circunstância de faltar menos de um mês para o fim do mandato e já existir um Presidente-eleito. “Os mandatos têm sempre mais coisas difíceis do que fáceis. Este é até ao último dia“, revelou em jeito de aviso.
Reconhecendo que tem, por vezes, métodos pouco ortodoxos, Marcelo disse que vai ser “sempre igual“. O Presidente disse que tinha a sua “maneira de ser” em Belém, mas que a chefia de Estado é uma comissão de serviço, logo vai “continuar a fazer o que fiz toda a vida, que foi ensinar, trabalhar no domínio cultural e social. Social com mais velhinhos; na educação e na cultura, com mais novinhos.”
Desafiado a dizer se vai voltar a ser comentador, Marcelo reiterou — como já fez inúmeras vezes — que descarta essa hipótese: “Como comentador isso acabou”. E, depois, sem que ninguém lhe perguntasse, complementou: “Como político, isso acabou.”
Questionado sobre se toda a situação de calamidade vai perturbar a transição de pastas, Marcelo Rebelo de Sousa recusou essa ideia e revelou que tem falado todos os dias com António José Seguro: “[Não atrapalha] nada. O senhor Presidente eleito está a trabalhar. Temos falado, ou tenho-o contactado todos os dias. E está a preparar naturalmente um mandato que será, penso eu, um grande sucesso.”