Os bilhetes para assistir ao ponto alto da temporada há muito esgotaram. Esta quinta-feira, em vésperas de quarta-feira de cinzas, como é costume, o Baile da Ópera de Viena regressou ao seu estilo à Ópera Estatal. Cerca de 5.500 convidados dos meios da política, cultura e negócios reuniram-se sob o mesmo teto para participar naquele que é um dos mais prestigiados eventos de beneficência da Áustria. O evento, que ao longo da sua história foi apenas interrompido em 1991, por causa da guerra e pelos anos da pandemia de covid-19, conta com o patrocínio de Alexander Van der Bellen, que assume a presidência do país desde 2017.
Com um programa musical que vai de Leonard Bernstein a Giuseppe Verdi, o serão foi inaugurado com debutantes a dançarem a Fächer-Polonaise de Carl Michael Ziehrer, seguindo-se o Ballet da Ópera Estatal. Um dos detalhes mais marcantes, contudo, recaiu sobre os figurinos do corpo de baile. Foram desenhados por Giorgio Armani, numa das derradeiras missões cumpridas pelo criador italiano antes da sua morte.
“Os dezasseis pares de dançarinos do Wiener Staatsballett realizaram uma peça coral inaugurando a noite, vestindo trajes sob medida projetados pelo Sr. Armani. Um dos últimos projetos pessoalmente curados por ele, a colaboração decorre de sua ligação com a famosa dançarina Alessandra Ferri, diretora artística da empresa a partir deste ano, reafirmando o diálogo da Casa com as artes cénicas e a sua associação com a excelência cultural internacional.”, escreve a marca nas suas redes sociais, partilhando ainda alguns vídeos e imagens desta colaboração. O guarda-roupa para este momento especial contou com vestidos de tule etéreo com linhas suaves, flares e macacões sob medida fluída que “interpretaram a estética Armani com leveza e precisão”. Não faltaram também lantejoulas de ouro e bordados de cristal, para reforçar o brilho da ocasião.
O balet, coreografado por Jessica Lang, apresentou “Carousel Waltz”, uma melodia puramente instrumental da produção Rodgers e Hammerstein de 1945, uma cena originalmente coreografada por Agnes de Mille. Para esta edição, a Orquestra Estatal de Ópera de Viena tocou ob a direção musical do maestro Pablo Heras-Casado, contando com as vozes de estrelas da ópera como Pretty Yende e Benjamin Bernheim.

Também Alessandra Ferri, a prima ballerina milanesa de 62 anos com uma longa carreira na dança, surgiu com um longo vestido de tule de seda azul-pó com detalhes delicados bordados da coleção Armani, adianta a casa de moda italiana. Nos últimos anos, Ferri dedicou-se a ensinar e ensaiar os principais dançarinos do Royal Ballet, La Scala e do American Ballet Theatre. A partir da temporada 2025/26, lidera a direção do Ballet Estatal de Viena.

Entre os convidados internacionais nesta 68.ª edição do baile, num encontro de gerações que encerrou com o icónico “Alles Walzer!”, incluiu-se a presença das atrizes norte-americanas Fran Drescher e Sharon Stone. Não foi apenas o conjunto Valentino que elegeu para esta noite que mereceu destaque — também as lágrimas de Stone, emocionada durante o espectáculo, chamaram a atenção.
Stone surgiu acompanhada por Karl Guschlbauer, o empresário de 63 anos, que uns dias antes convidara a estrela de Hollywood para visitar a sua fábrica de confeitaria na província austríaca de St. Willibald. A aparição conjunta é apontada como prelúdio do seu papel como auto-nomeado sucessor de Richard “Mörtel” Lugner. “Eu sou o novo Lugner, mas diferente”, confessou Guschlbauer à agência de notícias DPA. O socialite Lugner, que morreu em 2024, foi ao longo de anos figura destacada do Baile da Ópera por surgir sempre com companhias vistosas, de Jane Fonda a Kim Kardashian, usando também as celebridades para promover os seus negócios.
Ao leque de convidados juntaram-se as irmãs e manequins Eliza Spencer e Amelia Spencer (sobrinhas de Diana), a modelo e atriz inglesa Iris Law, a influencer alemã Leonie Hanne, e a modelo Nadine Leopold. Last but not least, também a “portuguese girlie” VickyMontanary se juntou à lista de convidados. “Provavelmente o mais chique que alguma vez me verão. Baile da ópera de Viena”, escreveu na sua publicação a influencer, que soma mais de um milhão e 300 mil seguidores.
Transmitido em direto, com parte das receitas a reverter para instituições de solidariedade locais, o evento continua a ser um dos momentos mais marcantes da temporada de bailes na Áustria, a par do concerto de Ano Novo. A tradição destes encontros remonta a 1814 e à busca por diversão num contexto marcado pelas Guerras Napoleónicas. O primeiro baile com as principais cabeças coroadas da Europa e aristocracia aconteceu em 1877 como uma soirée. Seguir-se-iam bailes em modo redoute, um termo francês para estes convívios de máscaras e festas de fantasia, com as senhoras a usarem estes acessórios até às baladas da meia noite. Até 1899, ter-se-ão realizado duas a três vezes por ano no calendário da capital austríaca. Em 1921 registou-se o primeiro baile desta natureza após a I Guerra Mundial. A definição Baile da Ópera surgiu pela primeira vez em 1935, mas as danças haveriam de ficar em suspenso devido à II Guerra Mundial. Depois do conflito, tem mantido a sua regularidade anual, salvo duas exceções mais recentes. Primeiro, em 1991, quando o entusiasmo foi travado pela guerra no Golfo Pérsico. E ainda nos anos marcados pela pandemia de COVID-19, até 2022.

Escusado será dizer que a tradição se estende também, ou antes de mais, ao código de vestuário, que cultiva um formalíssimo white tie. No masculino, o traje a rigor ou de gala implica casaca preta, gravata borboleta branca (laço branco) e colete branco, habitualmente reservado para eventos como jantares de Estado, bailes de gala ou casamentos reais. Entre as senhoras, os vestidos longos são obrigatórios, e o branco deve ser reservado para as debutantes da noite, que deverão ainda usar luvas compridas no mesmo tom.