O resultado da eleição tinha sido profusamente divulgado por sondagens e comentadores (70% para o irrepreensível candidato do “campo democrático”, 30% para a diabólica encarnação da “ameaça à democracia”), mas foi com grande surpresa e alívio que o país mediático recebeu a inesperada boa nova: a “estrondosa derrota” de André Ventura. Aparentemente, a coisa estava renhida, temia-se mesmo que o líder de “um partido sem ideias”, um “poço de contradições”, um “pobre diabo” de “extrema-direita”, seguido por eleitores “de baixa escolaridade” que só podiam ser “atrasados mentais”, levasse a melhor. Para conquistar o centro para Seguro, Ventura já fora passando de “perigoso fascista” a criatura mal-educada, irrequieta e “sem pose de Estado”, defeitos altamente contrastantes com as ponderadas qualidades de estadista de António José Seguro, só superadas pela sua maior qualidade para efeitos daquela eleição: a qualidade de não ser Ventura.
E foi assim que um socialista de sempre, defenestrado pela direcção de António Costa e pouco estimado na classe política, mas providencialmente moderado, correcto e ponderado, se converteu no homem providencial, no salvador da democracia e do humanismo. Perante o desconcertante “fascismo” de Ventura, ameaça existencial à democracia, ou à ordem estabelecida, a Esquerda toda, dos liberais chiques aos maoistas teimosos, cerrou nostálgicas fileiras e, seguindo o velho conselho do Dr. Cunhal, lá foi votar contra Ventura. E se, agora, a Esquerda já não podia ganhar sozinha, valia-lhe ainda o lastro da sua prolongada “magistratura de influência” junto do Centrão e da direita da Esquerda, prontos a responder à chamada à correcção, à não-transposição de linhas vermelhas, à “moderação”, enfim, ao combate ao “fascismo”, ao “atraso mental” e à “incultura” (pecados em que incorreriam caso não respondessem à chamada).
Daí a vitória larga de Seguro, correspondendo inteiramente à projecção da Pitagórica à boca das urnas: entre 67,0% e 71,4% para Seguro, e entre 28,6% e 33,0% para Ventura… Ou quase inteiramente, já que Seguro ficou ligeiramente abaixo do mínimo previsto e Ventura ligeiramente acima do máximo. Mas pouco importa. Também, assim que a taxa de abstenção – que começou por ser muito louvada como inferior à da primeira volta e atribuída à proverbial “sabedoria do povo português” que, vencendo a intempérie, se mobilizou para votar a favor do sistema (democrático) e contra o caos (iliberal) – se revelou maior do que na primeira volta (49,91%), deixou rapidamente de fazer manchetes. Era, de resto, compreensível, já que, para apresentadores, jornalistas e comentadores, nunca passaria de uma minudência perante a surpreendente e inesperada derrota de Ventura.
Porém, além do vencedor, evidentemente, os grandes protagonistas do dia e da noite acabaram por ser André Ventura e o Chega, mais uma vez atirados para centro do debate político. Afinal, tinha sido contra eles que se fizera a mais extraordinária coligação da História da Terceira República – uma coligação negativa que ia de dois ex-presidentes da República, Ramalho Eanes e Cavaco Silva, considerados conservadores, a António Filipe do PCP e Catarina Martins do BE, e incluía toda uma vasta gama de notáveis do PSD, do CDS e da IL.
Pensar que o político e o partido contra os quais se reuniam tão contraditórias personalidades e ideologias não existiam há sete anos, talvez seja o melhor e mais pedagógico ponto de partida de qualquer análise eleitoral que se pretenda objectiva. Se levarmos em conta as campanhas de não-esclarecimento e o empenho dos noticiários contra Ventura, não deixa de ser extraordinário que, em sete anos, o partido tenha passado dos 70.000 votos para mais de 1700 000 a 8 de Fevereiro de 2026, ou seja, que tenha multiplicado por 25 vezes os seus votantes.
A liderança da Direita
É também curioso que gente que fugiu toda a vida de se afirmar de Direita, como a grande maioria dos quadros do PSD e da IL, venha agora contestar a André Ventura e ao Chega a liderança desse repudiado espaço político. Entretanto, conviria também saber e discutir o que é isso da Direita e das direitas, num país governado pelo Centrão há meio século que entregou a cultura oficial e os mecanismos do poder académico e mediático à Esquerda, mas isso é outra história.
Manuel Maria Múrias, várias vezes preso político depois de Abril, escolheu como divisa do seu semanário A Rua “o único jornal de Direita que não é do Centro”. Muitos dos que, agora, se ressentem com a reivindicação de Ventura de liderar uma direita que, pelos vistos, também passaram a reivindicar, sempre se disseram do centro, mesmo quando, ou sobretudo quando, eram “acusados” pela Esquerda de ser de Direita. Os dirigentes dos partidos da AD, por exemplo, com raras e conhecidas excepções, tiveram sempre grande cuidado em afastar-se da etiqueta direitista.
Mas eis senão quando, na excitação da noite eleitoral, um comentador descobre que foi “a direita” que elegeu António José Seguro e que Seguro também teria de se lembrar disso… só para concluir que Ventura, com mais de 1700 000 votos, não poderia arrogar-se de chefiar o espaço da Direita. Outros, mais sofisticados, até o disseram “de esquerda”, por estar a crescer à custa de ex-eleitores comunistas e socialistas, no Alentejo e no Algarve.
De Aragão ao Japão
Ora, caso alguns ainda não tenham reparado, três décadas e meia depois do fim da Guerra Fria o panorama mudou. A nação, o nacionalismo e as reivindicações territoriais causaram e causam guerras – na Ucrânia, na Palestina, um pouco por toda a África e no Médio Oriente –, mas a desindustrialização da Euro-América, a falsa meritocracia daquilo a que Michael Sandel chama “the rethoric of rising”, desarrumaram o mundo, criando abismos de renda e condição em sociedades ditas e consideradas democráticas e liberais. Sandel, professor nas universidades da Ivy League, sabe do que fala quando fala de “mobilidade social” na América de hoje, ou da falta dela, lembrando que “os americanos nascidos de pais pobres tendem a ficar pobres em adultos”.
Sandel é um crítico dessa ilusão meritocrática que, para ele, explica a revolta dos “deixados para trás” (aqueles a que, na América, alguns iluminados chamam “deploráveis” e a que aqui alguns iluminados chamam “atrasados mentais”), considerados responsáveis pelo próprio fracasso.
A verdade é que a “ilusão globalista”, uma utopia dos oligarcas de Davos, deixou muita miséria e caos pelo caminho. E continua a deixar. Foi a resistência a esta situação que a Esquerda deixou à direita nacional-popular ou populista quando abandonou as causas sociais e se concentrou nas causas importadas das universidades americanas, ali chegadas há 50 anos a partir de Frankfurt e Paris e devidamente buriladas.
Assim, no mesmo Domingo em que Ventura e o Chega atingiam 1/3 do eleitorado votante, na vizinha Espanha, em Aragão, nas eleições regionais, o Partido Popular (direita moderada) vencia, mas perdia dois lugares; o PSOE (partido socialista), que governa em Madrid, perdia cinco, e o Vox (direita nacional) dobrava o número de deputados. O Podemos (o correspondente espanhol do Bloco de Esquerda) eclipsava-se.
Também no Japão, o partido no poder, o Partido Liberal Democrata de Sanae Takaichi, teve uma vitória retumbante e inédita, ganhando 316 dos 465 lugares da Câmara Baixa japonesa. Os analistas atribuem a esmagadora vitória à popularidade de Takaichi, a “Thatcher japonesa”, que se declarou trumpista e passou a ter maioria absoluta e quase 50% do voto popular. Não vimos muitas notícias sobre estas eleições nos nossos media.
O mundo está assim e os partidos da Direita, uns mais conservadores, outros mais populares, mas todos nacionalistas, estão a crescer em toda a parte por via do voto popular.
Aqui também, para quem o quiser ver. Objectivamente, é difícil não concluir que, nestas eleições, ambos os contendores ganharam – António José Seguro ganhou Belém, numa votação que foi para ele mas que foi sobretudo contra o seu adversário e em que contou com o apoio renitente da Esquerda radical, da ala esquerda do próprio PS e do centro e centro-direita; e André Ventura, com um terço dos votantes, definiu um espaço à Direita que dificilmente lhe será tirado.
O que é tudo menos uma derrota, e tudo menos uma surpresa.