Catei por aí incontáveis referências elogiosas ao espectáculo que Bad Bunny apresentou no intervalo do Super Bowl. Tinha uma ideia de que o Super Bowl é a final do campeonato de futebol americano. Não tinha ideia de quem, ou do quê, é Bad Bunny. Dado que as referências falavam do tal espectáculo como um “momento histórico”, uma “revolução” e quiçá o ápice da humanidade desde a invenção do chiclete, resolvi investigar.
Primeiro, apurei que o Bad Bunny é um cançonetista porto-riquenho de enorme sucesso entre os jovens e as crianças de hoje. Mau prenúncio. Depois vi fotografias da criatura. Péssimo prenúncio: o espécime assemelha-se a um excluído do circuito de narco-tráfico de Ciudad Juarez por excesso de bijuteria. De seguida, arrisquei ouvir a música. Aguentei 15 segundos. Não se pode dizer que a música seja má. O problema é que não se pode dizer que seja música, e sim o tipo de calamidade sonora que, à revelia de diversos tratados internacionais, se imagina útil para forçar prisioneiros a confessar o que calha. Parece que o “estilo” se designa por “reggaeton”, palavra que em sânscrito significa “Que o chão se rasgue para que as maleitas do inferno corrompam a Terra e aleijem as almas”. Acho estranhíssimo que os inúmeros argumentos para impedir o acesso de menores de idade às “redes sociais” não incluam a necessidade imperiosa de os proteger do “reggaeton”.
Por exclusão de partes, convenci-me de que o tal carácter “histórico” e “revolucionário” do cançonetista só podia estar nas letras. Com certeza, por baixo dos escombros alegadamente “musicais” e do AutoTune que filtra uma voz tão maviosa quanto o aspirador Roomba em modo esfregona, o Bad Bunny seria um poeta da canção. E, a julgar pela veneração da crítica especializada, que se especializa em reproduzir clichés ideológicos, um poeta da canção de “protesto”. Apesar de ser curioso protestar-se quando se aufere dezenas de milhões por ano, tudo bem. Por razões que escapam à psicanálise, gosto de “songwriters” de esquerda, contanto que não escrevam como o Padre Fanhais. Com Yip Harburg (procurai, ímpios) no pedestal, gosto muito do Bob Dylan dos primórdios, gosto um bocadinho menos do Phil Ochs de sempre e, nas Américas exóticas, suporto Chico Buarque e, raramente, Sílvio Rodriguez. Talvez o Bad Bunny fosse o genuíno herdeiro de uma vaga tradição.
Não é. No máximo, o Bad Bunny é herdeiro de outras coisas: a falência do sistema educativo; pais desleixados; misoginia ancestral; efeitos de drogas; consanguinidade; etc. As letras dele não protestam nada, excepto os direitos da mulher. A internet jura que as letras do Bad Bunny também tratam de “identidade queer”, “colonialismo” e, apropriadamente, saúde mental. Porém, a minha curiosidade e resistência têm limites. Com a devida vénia, ou náusea, transcrevo um excerto traduzido pelo Grok de “Safaera”, uma das “obras”, na acepção escatológica do termo, interpretadas no Super Bowl:
“Que falta de respeito, mami/Como você ousa vir sem calcinha?/Hoje você saiu pronta pra mim/Desce pra casa que eu lambo você toda/(Segue!) Mami, eu lambo você toda (Segue!)/Diz, safada (Papi, segue!)/Se você fuma erva (Papi, pa-papi!)// Hoje se bebe, hoje se gasta/Hoje se fuma como rasta/Se Deus permitir (Se Deus permitir!)/Hoje se bebe, hoje se gasta/Hoje se fuma como rasta/Se Deus permitir// Mami, o que você quer?/Aqui chegou o seu tubarão/Quero rebolar em você e fumar um charro/Ver o que esse calção esconde/Quero rebolar em você e rebolar e rebolar”.
E é isto. E isto é uma canção na exacta medida em que o lixo de Cabrita Reis é arte. Nas letras, na “música”, nos arranjos e na estética geral, as “canções” do Bad Bunny são esterco, e esterco tão depurado que ali não cabe um pingo redentor, um pormenor ínfimo capaz de aproveitamento. Estamos – salvo seja: ele e os seus desatinados ouvintes estão – no reino da imundície imaculada. E não porque fale de sexo (não é Serge Gainsbourg quem quer, e sobretudo quem não quer e quem não sabe quem Serge Gainsbourg é), mas porque o faz sob a perspectiva a jusante do sistema digestivo. O Bad Bunny é o paciente zero da evolução.
Se não é inédito o êxito de um “artista” radicalmente desprovido de talento, é provavelmente sem precedentes a reverência que se presta e a relevância que se atribui a tamanha fancaria. O que explica a discrepância? Escusam de procurar nos compêndios, que a explicação é simples: o Bad Bunny é um ruidoso crítico de Trump. E, hoje, criticar Trump é um passe VIP para a respeitabilidade social, que aumenta em função directa à virulência das críticas. Na adaptação contemporânea do princípio cartesiano, “Insulto Trump, logo sou um tipo fabulosamente apreciável”. Não importa se o insulto é justificado ou se o autor possui sequer um vestígio de legitimidade. Se uma ETAR falasse e descarregasse feios impropérios sobre Trump, a ETAR mereceria estrondosos aplausos, profundas análises sociológicas e a elevação a um pedestal. Com sorte, a ETAR acabaria a cantar no intervalo do Super Bowl. E não se notaria a diferença.