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Almada. Antes que a terra deslize nos Formozinhos, corre-se contra o tempo para salvar o que se pode

Pelo terceiro dia, habitantes da Azinhaga dos Formozinhos fazem romaria às casas para resgatar pertences antes que a terra deslize. Cerca de 500 pessoas estão deslocadas em Porto Brandão.

Agência Lusa
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Numa corrida contra o tempo, de lágrimas nos olhos e uma incerteza no coração, os moradores da Azinhaga dos Formozinhos, em Almada, procuram retirar os seus bens, antes que a terra deslize e lhes leve toda uma vida.

Pelo terceiro dia consecutivo, estes moradores fazem uma romaria àquela que foi a sua morada durante décadas para, com a ajuda de amigos e familiares, levarem tudo o que podem.

E nesta azáfama há sempre um que carrega a mobília do outro ou dá um abraço de conforto mesmo quando também é visível o seu sofrimento e desespero face à força da natureza.

É toda uma vida que está ali“, disse Teresa Carvalho, uma das moradoras do bairro, em declarações à agência Lusa, enquanto uma afilhada a abraça e lhe diz “este é só mais um obstáculo na vida, já tiveste tantos”.

A Azinhaga dos Formozinhos fica nas arribas entre o Monte da Caparica e Porto Brandão, no concelho de Almada. Tem o Tejo ao seu lado e o acesso faz-se por um caminho de terra batida que “desagua” num largo onde hoje há um corrupio de carros e carrinhas de caixa aberta para carregar o máximo que podem porque, um pouco mais à frente, na rua das suas casas, o chão já deixou de ser seguro e desliza encosta abaixo como se estivesse a derreter.

Teresa Carvalho mora naquele bairro há 48 anos. Natural de Castelo Branco, casou com 19, e o seu filho, Carlos Carvalho, também morador na Azinhaga dos Formozinhos, cresceu já neste território de Almada.

“É aqui que temos a nossa vida e, de um momento para o outro…”, disse com a voz embargada por uma profunda tristeza que não a deixou terminar a frase.

Teresa e Carlos, além de moradores, são também proprietários de outras tantas casas que têm arrendadas e, apesar do desespero sobre o seu próprio futuro, ambos emocionam-se de preocupação com os seus inquilinos.

“São 48 anos de investimento, tudo o que ganhei está aqui. Investi aqui para ter um futuro na minha velhice. E os meus inquilinos, preocupo-me tanto com eles. Tenho ali quatro inquilinos, um deles uma senhora com 70 e tal anos que paga 108 euros de renda, onde é que esta pessoa vai arranjar onde viver?”, sublinhou Teresa Carvalho.

Carlos Carvalho, por seu turno, confidencia que nos últimos dias a sua maior preocupação foi ajudar os vizinhos e os inquilinos a levar os seus pertences porque naquele bairrosão todos família“.

A uns escassos quilómetros da entrada para a Azinhaga dos Formozinhos, quase ao pé da Faculdade Egas Moniz, estavam outros quantos vizinhos de Teresa e Carlos, alguns até seus inquilinos, a aguardar que as autoridades permitissem descer ao bairro para resgatarem as suas coisas.

Maria Júlia, 69 anos, que há 30 anos mora no bairro onde o marido nasceu e cresceu, assegura que nunca tal aconteceu.

Com ordem para sair, diz que agora a sua maior angustia é saber onde vai viver e pede que as autoridades não se esqueçam desta população, alguns já de muita idade.

“Os meus filhos nasceram aqui. É toda uma vida e agora temos as nossas coisas destroçadas“, disse em declarações à agência Lusa.

Na verdade não é uma vida, são muitas vidas vividas naquele território, algumas de várias gerações e que agora dizem ter o seu futuro em suspenso.

Teresa Carvalho encontrou acolhimento junto de familiares, mas Maria Júlia, o marido e o pai, de 91 anos, foram acolhidos temporariamente pela autarquia de Almada no Inatel, na Costa da Caparica.

A incerteza da palavra “temporário” assusta-os e o que agora pedem é que ninguém se esqueça que há gente nos Formozinhos, na terra com vista para o Tejo, que precisa de um lar para que as intempéries não levem mesmo tudo.

Desde o início das tempestades que assolaram o território português, o concelho de Almada tem registado vários deslizamentos de terras nas arribas da Costa da Caparica e de Porto Brandão.

Cerca de 500 pessoas da zona de Porto Brandão estão deslocadas.

Segundo a presidente da Câmara Municipal, pelo menos 160 pessoas já foram acolhidas pela autarquia, só de Porto Brandão.

Dezasseis pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.

As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.

O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.

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