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PSP. Falsos funcionários do Estado e chamadas suspeitas em tentativas de burla nas regiões afetadas — mas criminalidade baixou 30%

A PSP está atenta ao crime de oportunidade: há indivíduos suspeitos de se aproveitarem da tempestade para burlar ou vender produtos falsos. Ainda assim, a criminalidade baixou.

Miguel Pinheiro Correia
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Com milhares de pessoas afetadas pelas tempestades e a precisar de ajuda, têm surgido também burlões que se aproveitam das condições frágeis destes lesados. O crime de oportunidade, que aparece em catástrofes deste género, está a ser combatido pela PSP que, com uma forte presença no terreno, conseguiu conter estas práticas.

De facto, esse trabalho terá surtido efeitos práticos. Entre 28 de janeiro (dia em que a depressão Kristin chegou a Portugal) e 12 de fevereiro, a criminalidade baixou 29% a nível nacional quando comparado com igual período do ano anterior, segundo dados revelados pela PSP ao Observador. No mesmo período, também os crimes contra património baixaram 28%.

“No caso das regiões mais afetadas pelas depressões e tempestades, a PSP, na sua área de responsabilidade, continua a registar uma baixa significativa da criminalidade, pelo menos ao nível da que tem sido denunciada, fruto do trabalho persistente e da forte dissuasão policial no terreno. A atuação policial nas ruas tem ajudado a conter e afastar práticas criminosas presenciais, reduzindo significativamente as tentativas de burlas presenciais, que vinham a preocupar muitas famílias e empresas neste período de maior vulnerabilidade”, descreveu a polícia num comunicado.

https://observador.pt/especiais/leiria-autoridades-nao-tem-registo-de-pilhagens-mas-alertam-para-risco-de-burlas-e-furtos-psp-ficou-sem-comunicacoes-durante-varias-horas/

A polícia sabe que o “célebre conto do vigário continua a ser uma forma eficaz” de roubar, o que continua a acontecer, apesar da maior sensibilização pública. Se os idosos são as vítimas preferenciais dos burlões que atuam presencialmente, os suspeitos têm-se adaptado tanto à maior presença de polícias no terreno como à maior presença digital de potenciais alvos.

“Nos últimos anos, e acompanhando a evolução tecnológica e as potencialidades do mundo digital, os suspeitos têm atingido também vítimas cujas idades são transversais a todas as faixas etárias”. Deste modo, e quando já se verifica um restabelecimento gradual das redes de telecomunicações, a PSP tem recebido relatos de burlas através de chamadas telefónicas.

“Algumas pessoas estão a ser contactadas por indivíduos que se fazem passar por prestadores de serviços essenciais, como funcionários da água ou da eletricidade”. Estes burlões podem pedir para medir o caudal ou a qualidade da água, verificar ligações elétricas ou agendar visitas às casas. Tudo com o objetivo de “obter dados pessoais e confidenciais, recolher informação de relevo para a prática delituosa, criando condições para uma eventual abordagem a posteriori”.

Ao Observador, fonte oficial da PSP garantiu que recebeu vários relatos de ações semelhantes, mas não foi feita nenhuma detenção. Nas zonas afetadas, o Observador recolheu vários relatos de tentativas de furto de bens destinados a ações de solidariedade e tentativas de recolher, em pontos destinados à entrega gratuita de bens, quantidades maiores do que as permitidas.

PSP intercetou vendedores de geradores falsos e alerta para supostos funcionários do Estado a realizar alegados “censos”

Nestas regiões, a PSP teve conhecimento de um grupo de burlões que se fazem passar por “funcionários do Ministério dos Assuntos Internos”. Estes suspeitos vão de porta em porta e, com aparência credível, exibem documentos confirmando a suposta pertença ao alegado ministério. “Alegam estar a verificar se os cidadãos possuem um documento de identificação válido para um suposto ‘próximo censo’.”

Nesse contacto com as pessoas, pedem para tirar fotografias, recolher impressões digitais, confirmar informações constantes numa lista de nomes e utilizar equipamentos como computadores portáteis e dispositivos biométricos. A PSP responde peremptoriamente: “não existe qualquer iniciativa oficial com este propósito”. É, por isso, uma burla. “O objetivo será igualmente obter dados pessoais e, eventualmente, praticar furtos ou outros crimes a posteriori”.

Assim, a polícia pede que não se forneçam dados pessoais por telefone, não se recebam visitas ou “ajudas” fora dos canais oficiais — da polícia ou dos serviços municipais. E, em caso de dúvida, devem contactar sempre a PSP.

A forma mais eficaz para se evitar ser vítima de um crime de burla é apostar na prevenção, suspeitando e duvidando de pessoas que não conhecemos, bem como de negócios que tragam dividendos demasiado avultados e de forma rápida. Além disso, a denúncia de todas as burlas às autoridades policiais ou judiciárias, tanto na qualidade de vítima como de testemunha, é crucial.

Mas há mais burlas na mira das autoridades e que não envolvem necessariamente um suspeito que se faz passar por alguém que não é. A 4 de fevereiro, a PSP de Leiria detetou três pessoas, pai e dois filhos, que venderam “uma réplica de gerador” como se fosse uma ferramenta funcional.

“Intercetámos três cidadãos na posse de uma réplica de um gerador, ou seja, um equipamento incapaz de produzir energia”, disse à Lusa o comandante distrital, Domingos Urbanos Antunes. Os suspeitos “foram identificados” e foi apreendido o equipamento, bem como 200 euros em dinheiro. “Já tinham vendido o alegado gerador por 800 euros”.

“Num período em que tantas pessoas vivem em fragilidade e incerteza, há quem tente aproveitar-se sem qualquer escrúpulo. Este momento regista a interceção, por parte da PSP, de indivíduos suspeitos de realizarem vendas coercivas de geradores, explorando a vulnerabilidade de quem já perdeu tanto. A PSP tem alertado repetidamente para este tipo de esquemas abusivos. Vamos continuar atentos no terreno. Este comportamento não passa impune. A PSP está alerta, atua com firmeza e não perdoa o aproveitamento da tragédia e da fragilidade das pessoas. Proteger também é impedir que alguém se aproveite da dor dos outros”, escreveu o Comando Distrital de Leiria, numa publicação de Facebook que acompanha o vídeo em que se assiste a essa ação policial.

A PSP de Leiria reforça que continua com o policiamento reforçado, especialmente durante a noite. Os agentes estão especialmente atentos aos idosos, com uma intensificação das visitas às casas, com ações que incidem nos idosos já sinalizados pela PSP, mas também pela segurança social e serviços municipais.

“Apesar de não existirem ocorrências registadas, apelamos à máxima cautela face a abordagens suspeitas, como falsas peritagens de seguros, ofertas de trabalho para reconstrução ou contactos de alegados familiares”, escrevia a PSP apenas três dias depois da passagem da depressão Kristin.

GNR também registou descida de crimes

Nas zonas afetadas pela depressão Kristin sob a ação da GNR, também esta força de segurança notou uma diminuição dos crimes contra o património, segundo dados revelados à agência Lusa. Na semana seguinte à passagem da depressão Kristin, registaram-se 165 crimes contra o património, incluindo furtos e burlas, nos três distritos mais afetados pela tempestade, menos do que em 2025.

Entre 28 de janeiro e 5 de fevereiro de 2025, a GNR registou 304 crimes contra o património nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém. No mesmo período de 2026 foram contabilizados 165. O distrito mais devastado pela tempestade foi também o que registou uma maior descida (de 59% — passou de 118 para 49), segundo os dados fornecidos pela GNR à Lusa.

Em 2026, a GNR registou seis casos de furtos de geradores — dois em Leiria, um em Coimbra e outro em Santarém. PSP e GNR registaram ainda cinco situações de furto de cobre até 5 de fevereiro, valor também inferior ao de períodos homólogos.

https://observador.pt/2026/02/09/distritos-afetados-pela-depressao-kristin-registaram-165-crimes-contra-patrimonio/

A PSP alerta que continua atenta e a acompanhar os fenómenos criminosos nos locais afetados, sobretudo as burlas. A polícia lança também várias indicações sobre estas burlas informáticas ou por telefone:

  • Não faça transferências de dinheiro para pessoas suspeitas que anunciam na Internet;
  • Guarde todas as conversas, caso o eventual negócio não termine, denuncie de imediato;
  • Não aceda a endereços enviados através de e-mails de outras plataformas;
  • Solicite referências ou dados adicionais sobre os produtos à venda;
  • Pesquise os dados e contactos do anunciante;
  • Desconfie dos anúncios em que os preços são claramente abaixo do valor de mercado;
  • Desconfie dos proprietários que não disponibilizam um contacto telefónico;
  • Desconfie quando o anúncio é mal redigido, ou na troca de e-mails existam erros gramaticais, de pontuação ou tempos verbais incorretos, indicativos de que foram utilizados tradutores;
  • Não efetue transferências para contas bancárias estrangeiras.

No que diz respeito às burlas presenciais, avisam:

  • Se detetar algum movimento estranho no seu prédio ou bairro, contacte de imediato a PSP;
  • Fale com os polícias do policiamento de proximidade e transmita-lhes todos os pormenores que possam parecer suspeitos, como pessoas e viaturas “novas” na sua rua;
  • Se baterem à sua porta para pedir informações, não a abra. Oiça o recado e registe em papel. Se abrir a porta, mantenha sempre a corrente de segurança;
  • Não faculte os seus dados pessoais, nem responda a questionários sobre si, sem saber se é fidedigno;
  • Não receba nenhuma encomenda que não tenha solicitado ou que não venha em seu nome;
  • Não diga a ninguém se possuir objetos valiosos na sua casa e não comente hábitos ou rotinas da família com outras pessoas.
  • Não tenha grandes quantias de dinheiro em casa e guarde os objetos de valor em cofres;
  • Não se deixe enganar com a presença de crianças.