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(A) :: A tempestade Escolástica

A tempestade Escolástica

“Aquela mulher tinha mais poder do que ele: (…) é razoável sentença que tenha tido mais poder aquela que mais amou.”

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Dantes, as tempestades eram anónimas, mas agora têm nome: tivemos a Kristin, que depois deu lugar ao Leonardo, veio depois a Marta, a que sucedeu o Nils e a que se seguiu a Oriana: a esta velocidade, o alfabeto vai-se esgotar antes do fim do inverno! Os modernos vendavais também já não são, como antigamente, a preto e branco, porque agora são coloridos, como os respectivos alertas: vermelhos, cor-de-laranja, amarelos, etc.

Sem desvalorizar estas ocorrências, nem esquecer as vítimas, sempre presentes nas nossas orações – como nas do Papa Leão XIV, que as recordou no passado domingo – e na solicitude das instituições eclesiais socio-caritativas, vem a propósito recordar que, em meados do século VI, houve uma tempestade que também merecia ser designada por um nome pessoal que, neste caso, seria o de quem a provocou: Escolástica. Era ela irmã de São Bento de Núrsia, o fundador da ordem que recebeu o seu nome e que foi, depois da invasão dos bárbaros e da queda de Roma, o principal foco de irradiação da cultura: já então sabedoria e Cristianismo eram sinónimos, assim como paganismo e obscurantismo.

Bento e Escolástica consagraram-se a Deus na vida monástica, vivendo cada qual no seu convento, em Montecassino, em Itália. Uma vez por ano, por um especial privilégio, encontravam-se num lugar intermédio, não só para porem a conversa em dia, mas sobretudo para juntos rezarem e louvarem a Deus.

São Gregório Magno (Livro 2, 33; PL 66, 194-196) relata as circunstâncias em que ocorreu o último encontro dos dois irmãos. Bento apresentou-se com alguns dos seus discípulos e o seu diálogo com Escolástica foi muito enriquecedor em termos espirituais, pois “passaram todo o dia no louvor a Deus e em santa conversação, de tal modo que já se aproximavam as trevas da noite quando se sentaram à mesa para comer.” 

Não obstante o tempo decorrido, a Escolástica pareceu-lhe pouco, talvez porque pressagiava que aquela era a última vez que os dois irmãos, nesta vida, se iriam encontrar. Foi por isso que lhe fez um pedido surpreendente:

“- Peço-te, irmão, que não me deixes esta noite, para que possamos continuar até de manhã a falar sobre as alegrias da vida celeste.” 

Embora o propósito fosse muito santo, parecia disparatado, o que explica a forma aparentemente desabrida da resposta de Bento:

“- Que dizes tu, irmã?! De maneira nenhuma posso passar a noite fora da minha cela!”

A resposta parecia definitiva, porque decidido estava Bento a regressar, quanto antes, ao seu mosteiro, mas Escolástica, pelos vistos, não era mulher que facilmente desistisse de um propósito. Esgotados os recursos humanos, não lhe restava outro meio que não fosse o de recorrer a Deus.

Se assim pensou a irmã de São Bento, melhor o fez, segundo São Gregório Magno: “Então Escolástica, ouvindo a recusa do irmão, poisou sobre a mesa as mãos com os dedos entrelaçados, inclinou a cabeça sobre elas e implorou o Senhor Omnipotente. Quando levantou a cabeça da mesa, rebentou uma grande tempestade, com tão fortes relâmpagos, trovões e aguaceiros, que nem o venerável Bento nem os irmãos que com ele se encontravam podiam pensar em sair do lugar onde estavam reunidos.”

O irmão, contrariado por aquele temporal, que impedia o regresso ao seu mosteiro, percebeu que Escolástica não era inocente e disse-lhe:

“– Deus te perdoe, irmã! Que foste fazer? 

Ao que ela respondeu:

– Eu pedi-te, mas tu não me quiseste ouvir. Pedi ao meu Deus e Ele ouviu-me.”

Como era mulher de génio, Escolástica não perdeu a oportunidade para gracejar com o irmão:

“– Agora, se podes, vai-te embora; despede-te de mim e volta para o teu mosteiro!”

Escusado será dizer que, não podendo regressar, ficou aquela noite na companhia da sua irmã: “E Bento, que não quisera ficar ali espontaneamente, teve de ficar contra vontade. E assim passaram toda a noite em vigília, animando-se um ao outro com santos colóquios sobre a vida espiritual.”

Gregório Magno, que quis assim exemplificar a eficácia da oração de uma mulher santa, como era Escolástica, explica nestes termos o milagre ocorrido: “Não nos admiremos que aquela mulher tenha tido mais poder do que ele: se na verdade, como diz João, Deus é amor, é razoável sentença que tenha tido mais poder aquela que mais amou.” De facto, a eficácia da oração cristã não se mede pela sua eloquência, nem pela sua duração, mas pela caridade de quem reza, pelo que São Gregório explica o surpreendente resultado do pedido da irmã pela grandeza do seu amor.

Depois da tempestade veio, como costuma acontecer, a bonança, que impôs a separação dos dois irmãos, regressando cada qual ao seu convento. Mas, “três dias mais tarde, encontrando-se o homem de Deus na sua cela com os olhos levantados ao céu, viu a alma da sua irmã, liberta do corpo, em figura de pomba, dar entrada no interior da morada celeste. Então, contente com a glória tão grande que a ela tinha sido concedida, deu graças ao Deus Omnipotente com hinos e cânticos de louvor, e enviou alguns irmãos a buscar o corpo e trazê-lo para o mosteiro, onde ficou depositado no túmulo que ele tinha preparado para si.”

Há tempestades que tudo destroem e, por isso, constituem verdadeiras desgraças, a que apenas a caridade cristã e o engenho humano logram remediar. Mas também há as tempestades do amor de Deus, o vento impetuoso da caridade. Foi esse sopro do Espírito que uniu aqueles dois irmãos, que o eram pelo sangue e pelo comum amor a Deus na profissão dos conselhos evangélicos segundo a regra beneditina, ao ponto de Gregório Magno poder dizer, em jeito de epitáfio da sepultura dele, que o foi dela: “Nem o túmulo separou aqueles que sempre tinham estado unidos em Deus.”