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(A) :: "Compromisso de Long Island": anatomia de um trauma

"Compromisso de Long Island": anatomia de um trauma

As citações elogiosas da capa não são publicidade enganosa. Da primeira à última página, "Compromisso de Long Island", de Taffy Brodesser-Akner, impressiona pela coesão.

Ana Bárbara Pedrosa
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De amplitude e detalhe é feito este livro. A prosa é exuberante, o enredo também e as transições entre personagens e outros elementos são suaves e compõem os cenários, as relações. O leitor dá por si arrastado para uma prosa com sabor de vertigem – é uma queda que voa de página em página, comendo tudo com os olhos num movimento voraz.

Publicado agora em Portugal pela Asa, com tradução de Elsa T. S. Vieira, o livro atira o nome de Taffy Brodesser-Akner para cima do público português com a certeza de que esta é uma autora a ter em conta, capaz de soluções difíceis, de ficção de largo fôlego e de uma exigência assinalável — ela que escreveu Fleishman is in Trouble, também transformada em série, disponível da Disney+.

O romance abre de forma abrupta, mergulhando o leitor directamente na acção: em 1983, Carl Fletcher, empresário milionário, é raptado à porta de casa, num bairro de Long Island. Ao criar-se o mistério, agarra-se logo o leitor, e a sequência inicial mostra o choque controlado: os vizinhos espantam-se, a família dá em doida, o pedido de resgate acontece, o FBI intervém e, em menos de uma semana, pago o valor, Carl está de volta a casa. A família tenta superar, fazer do crime uma verruga, e a vida tenta voltar aos eixos.

Durante quatro décadas, a família tenta tratar o rapto como uma nota de rodapé, ainda que a autoria do crime permaneça desconhecida e faça mossa. Ruth, a esposa de Carl, passa esse tempo a proteger o marido. Os filhos lidam com o trauma: Nathan vive atormentado por um medo crónico; Beamer descontrola-se com comida e drogas; Jenny, nascida depois do rapto, passa tanto tempo a tentar viver em oposição ao trauma da família que se afunda nele. Tudo isto é atirado ao leitor numa formulação palavrosa, detalhada, imagética. O livro respira de vida e movimento. Pormenores avançam na constituição do enredo ao mesmo tempo que interrompem parte da narrativa, o que mantém o suspense e o interesse do leitor, impelido a continuar. Há momentos de stress que são emoção pura, com a autora a exibir particular talento para manusear o ritmo e a tensão. Nisto, o leitor é um fantoche a ser manipulado a seu bel-prazer.

Título: “Compromisso de Long Island”
Autora: Taffy Brodesser-Akner
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Editora: Asa

Páginas: 464

Ora, quarenta anos após o rapto, a família reúne-se no funeral da matriarca, e os conflitos chutados para canto durante tanto tempo voltam à tona. É aqui que se vê que as tentativas de apagar o trauma se revelaram infrutífera, tendo o acontecimento moldado a estrutura íntima da família. A metáfora recorrente do dybbuk – figura da tradição judaica que designa uma alma inquieta que permanece entre os vivos –, que aparece logo no primeiro capítulo, funciona como chave para o entendimento do romance, como coisa viva que, ao não ser resolvida, habita os espaços íntimos e familiares e, com isso, molda as gerações seguintes. Nada disto aparece como oferta ao leitor, mas como elemento subjectivo que vai ligando as personagens, as tensões.

Um dos grandes méritos deste romance, que é exuberante, está na forma equilibrada como articula o drama íntimo com uma panorama amplo em que se questionam riquezas, heranças e identidades judaico-americanas, uma vez que a autora mostra que a segurança material, ao contrário de um cenário em que se vive com a busca da segurança numa luta quotidiana, ocupando grande parte do espaço mental e das preocupações, pode produzir uma incapacidade de lidar com a realidade. Além disso, ao dedicar secções às diferentes personagens, a autora mostra a sua ambição formal, bem conseguida, que ainda traz densidade psíquica, já que, mesmo focada no enredo, Brodesser-Akner não se abstém de mergulhar nos conflitos internos e nas sombras de cada membro da família.

Pelo meio, há intervenções de um narrador não-participante que dialoga directamente com o leitor e que sublinha os arcos das personagens, que, além de não contarem com grande evolução, não contam com redenção nenhuma, o que faz com que a história saiba à lassidão da vida real e não à ideia edificante romântica que tantas vezes respira na ficção. E o leitor observa a vida, sem sentir uma empatia redentora. Em vez disso, entende as personagens, mas não cria uma relação estreita, porque as vê incapazes de verem a vida além do seu umbigo, das suas neuroses, dos seus vícios, presas a um modelo de vida em que o desenvolvimento emocional teve percalços: afectos foram substituídos por transacções e as relações entre elas pareceram ficar deformadas por uma fortuna.

Poderá julgar-se que, ao longo da narrativa, a repetição de padrões comportamentais dilui o impacto dramático, ou que o regresso da estrutura ao mesmo momento sob perspectivas semânticas atrasa o impulso narrativo, mas é nessa riqueza que está grande parte da força do livro: há detalhe, há densidade, há pormenor, e isto numa escrita que corre, produzindo uma leitura escorreita, viciada, viciante. Os tantos pormenores que aparecem na página, ao invés de adornos, são instrumentos de caracterização, e por isso há tensão permanente e um mundo a construir-se.

Com tudo pesado, Compromisso de Long Island é um livro de fulgor, estrutura e ambição assinaláveis. A prosa é depurada, o enredo é complexo, exigente, e a autora não se ofereceu atalhos. O romance é efervescente de vida e pormenores. Ainda que a leitura não ofereça esforço ou resistência, estando a prosa trabalhada para criar esse efeito de texto a fluir, fica claro que a vontade é provocar baques e surpresas do outro lado da página.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.