O chanceler alemão começou o discurso com uma “verdade inconveniente”: “Abriu-se uma brecha entre a Europa e os Estados Unidos da América”. Esta sexta-feira, no primeiro dia da edição de 2026 da Conferência de Segurança de Munique, Friedrich Merz refletiu sobre a relação transatlântica e afirmou que esta se alterou profundamente com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, desta vez acompanhado de aliados mais leais e que veem a Europa não só como um fardo, mas também como um palco onde podem expandir a sua ideologia.
Na passada edição, os líderes europeus ficaram em choque com o discurso do vice-presidente JD Vance, um convicto isolacionista. O número dois da administração Trump atacou duramente as políticas adotadas pela Europa — da imigração à regulação das plataformas digitais — e tem procurado que as bandeiras do movimento Make America Great Again (MAGA) vinguem no outro lado do Atlântico.
https://observador.pt/2025/02/14/em-vez-da-ucrania-jd-vance-criticou-a-europa-pela-perda-de-valores-fundamentais-censura-e-altos-niveis-de-imigracao/
Passado um ano, Friedrich Merz concluiu que a “batalha cultural do MAGA é norte-americana” e não europeia. “A liberdade de expressão acaba quando as palavras são dirigidas diretamente contra a dignidade humana e a nossa Constituição. Não acreditamos em tarifas e no protecionismo, mas no comércio livre. E apoiamos os acordos climáticos e a Organização Mundial da Saúde porque estamos convencidos de que só em conjunto podemos resolver os desafios globais”, declarou o chanceler alemão.
Diante de uns Estados Unidos da América (EUA) menos amigáveis e com outras prioridades, o chanceler germânico reuniu-se, esta sexta-feira, com o Presidente francês, Emmanuel Macron. Ora, o chefe de Estado de França tem defendido que a Europa deve tornar-se menos dependente do outro lado do Atlântico, criticando em público muitas das políticas norte-americanas. Neste contexto, os dois líderes discutiram algo que pode mudar o paradigma da defesa do continente: um arsenal nuclear exclusivamente europeu e que não dependa diretamente de Washington.
Neste momento, na União Europeia, apenas França possui ogivas nucleares. Por motivos históricos relacionados com a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nunca desenvolveu qualquer armamento do género. Antes do Brexit, a UE também contava com as armas britânicas, mas, na sequência da saída do país do bloco comunitário, perdeu esse arsenal. Paris e Berlim querem agora, em conjunto, desenvolver um guarda-chuva nuclear que proteja a Europa sem a intervenção de terceiros.
A Conferência de Segurança de Munique marcou o pontapé de saída. “Tive as primeiras conversas com o Presidente francês sobre dissuasão europeia nuclear”, anunciou Friedrich Merz, clarificando que os dois países “vão cumprir totalmente as obrigações legais” a que estão sujeitos. “Isto será totalmente incorporado na partilha nuclear dentro da NATO e não haverá quaisquer níveis de segurança distintos na Europa”, frisou. Ou seja: a cooperação com os Estados Unidos permanece, mas há um reforço da autonomia do velho continente.
Ficar sem defesa numa ordem internacional sem “regras”. Os receios dos europeus
Entre os líderes na Europa, sempre que Donald Trump fala com o Presidente russo ao telefone, ativa-se o modo crise. Vladimir Putin parece conseguir condicionar o líder norte‑americano em vários assuntos e parece ainda ter algum tipo de ascendente sobre o homólogo. Esta complexa e até um certo ponto amigável relação entre o Kremlin e a Casa Branca desagrada aos europeus, que veem na Rússia uma potência imperialista e encaram-na como a sua principal inimiga.
No discurso, Friedrich Merz garantiu que a Alemanha continuará a apoiar a Ucrânia — um tópico que divide as capitais europeias e Washington —, demonstrando ceticismo sobre as atuais negociações com a Rússia. O país liderado por Vladimir Putin, acusou o chanceler, não está “interessado em ter negociações sérias para terminar a guerra na Ucrânia”. “Esta guerra apenas vai terminar quando a Rússia estiver, pelo menos, económica e militarmente exausta”, acredita o líder germânico, numa posição que contraria a defendida pela Casa Branca.

Os Estados Unidos já não contribuem para o esforço de guerra ucraniano de livre vontade. É a NATO, através do mecanismo da Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia (PURL, sigla em inglês), que gere a ajuda enviada para a Ucrânia: os norte-americanos produzem e os europeus pagam. Tendo em conta o afastamento de Kiev, muitos Estados-membros da aliança transatlântica receiam que os EUA não protejam um Aliado caso a Rússia o invada. Na campanha eleitoral para as presidenciais de 2024, Donald Trump até sugeriu que “incentivaria Moscovo a atacar” um país que não contribuísse suficientemente para as despesas da NATO.
Como também ficou patente nas ameaças à integridade territorial e soberania da Gronelândia (um território autónomo de um Estado fundador da NATO, a Dinamarca), os Estados Unidos perderam o estatuto de aliado totalmente confiável. Na cena internacional, realçou Friedrich Merz, a ordem internacional “baseada em direitos e regras já não existe como antes”. “A reivindicação de liderança dos EUA está a ser desafiada e talvez já se tenha perdido”, prosseguiu o chanceler.
Na opinião do líder germânico, vive-se numa “era de grandes potências” em que a liberdade não está “garantida” — está, em vez disso, “sob ameaça”. “Durante três gerações, a confiança entre aliados, parceiros e amigos converteu a NATO na aliança mais forte de todos os tempos. A Europa sabe o quão precioso isso é. Numa era dos grandes poderes e rivalidades, nem os Estados Unidos serão suficientemente poderosos para estar sozinhos”, salientou Friedrich Merz.
A História da Alemanha também foi mencionada pelo chanceler durante o discurso na Conferência de Segurança de Munique. “Nós, alemães, sabemos que um mundo em que a força prevalece seria um lugar sombrio. O nosso país trilhou esse caminho no século XX até um amargo e terrível fim”, descreveu, numa alusão aos dois conflitos mundiais.
O guarda-chuva nuclear como resposta a um aliado imprevisível
Apesar de a Europa desejar reforçar a autonomia face aos Estados Unidos, existe um problema estrutural: fruto do desinvestimento na área da Defesa ao longo do tempo, os países europeus vão demorar décadas até serem totalmente independentes de Washington. Através da NATO, os norte-americanos asseguram a defesa da Europa e promovem uma postura de dissuasão, principalmente no que diz respeito às ameaças nucleares.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos competiram com a União Soviética (URSS) no que concerne ao número de ogivas e armas nucleares que cada país tinha. A Europa ficou para trás neste clima de bipolarização que marcou a comunidade internacional desde o final da Segunda Guerra Mundial até 1989, apenas com duas exceções: França e o Reino Unido. Ainda assim, os arsenais nucleares dos dois países estão também dependentes dos EUA — especialmente o britânico.

Os países europeus (entre eles Alemanha, Bélgica, Itália e Países Baixos) acolhem, no seu território, ogivas nucleares norte-americanas. A lógica de competição com a União Soviética assim o requeria, já que a Europa estava geograficamente mais perto do principal rival durante a Guerra Fria. A queda do Muro de Berlim não eliminou o paradigma de dissuasão nuclear, mas levou a uma desescalada. Ao mesmo tempo, após 1989, muitos Estados europeus reduziram significativamente a despesa em Defesa.
Ainda que tenha havido alguns sinais no passado de que a ordem internacional estava a ficar “sem ordem”, a invasão da Ucrânia marcou uma mudança de paradigma na Europa, que se acentuou com a vitória de Donald Trump em 2025. A Europa podia ficar sem proteção num conflito entre potências — e sem capacidade para se defender, mesmo que o Presidente norte-americano até tenha prometido manter-se fiel à NATO.
Nesta lógica, o chanceler alemão e o Presidente francês pretendem desenvolver um guarda-chuva nuclear exclusivamente europeu. Os norte-americanos não seriam excluídos deste processo — seria uma espécie de colaboração —, mas haveria uma certa independência, também à luz da União Europeia. “Devemos detalhar como queremos organizar isto de forma europeia”, sublinhou o chanceler alemão.

Friedrich Merz aludiu ainda ao artigo 42 do Tratado da União Europeia, que define a Política Comum de Segurança e Defesa que estipula que os Estados-membros se devem auxiliar em caso de ataque armado contra um deles. Em todo o caso, o chanceler alemão deixou bem claro que este guarda-chuva nuclear nunca seria um “substituto da NATO”, mas um “apoio autossuficiente e forte dentro da Aliança”.
Uma vez que é o único país da União Europeia com armas nucleares, caberia a França assumir o papel charneira com o apoio logístico da Alemanha. Este guarda-chuva serviria de proteção aos países da Europa e como importante dissuasor de um eventual ataque de alguma potência.
O Presidente francês sempre se manifestou a favor desta ideia. Emmanuel Macron já demonstrou por várias vezes abertura para discutir a questão com os aliados europeus e ofereceu o escudo nuclear a outros países. “Os norte-americanos têm bombas em aviões na Bélgica, Alemanha, Itália e Turquia. Estamos prontos para abrir a discussão. Vou definir o quadro de uma forma muito específica nos próximos meses”, afirmou, em maio de 2025, o líder de França.
O eixo franco-alemão parece estar alinhado neste propósito. Mas terá pernas para andar? A construção de um guarda-chuva nuclear somente europeu terá custos elevados e não é claro se existe um consenso nacional para que isso aconteça. Por exemplo, na Alemanha, o ministro da Defesa e membro dos sociais-democratas alemães, Boris Pistorius, não acredita que os países europeus teriam capacidade para elaborar este escudo nos próximos anos. “A nossa abordagem deve ser manter os americanos na NATO.”
A ideia ainda está numa fase muito prematura. E há já quem lhe aponte problemas. À Bloomberg, o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, referiu que o assunto “é complicado”: “A dissuasão francesa não é um guarda-chuva nuclear como o da NATO. Quando se fala em armas nucleares, fala-se em gastar muito dinheiro”. Muitos países europeus poderão não se comprometer com esse tipo de investimentos, dado que estão já pressionados pelos EUA para aumentarem as despesas militares no quadro da Aliança transatlântica, com a meta dos 5% do PIB em gastos relacionados com a Defesa.
Na comunidade internacional, também surgiriam problemas de credibilidade para a Europa. Por exemplo, a União Europeia manifesta-se contra o desenvolvimento de um programa nuclear iraniano, podendo perder a legitimidade para tecer essas críticas. E seria também difícil operacionalizar este guarda-chuva nuclear, como adverte ao Politico Darya Dolzikova, membro do think tank Royal United Services Institute: “Nem a dissuasão francesa nem a britânica estão fundamentalmente desenhadas para que haja uma extensão”.

O Presidente francês deverá anunciar em breve mais detalhes sobre como pretende colocar em prática este escudo nuclear europeu, não sendo ainda claro quando é que os vai anunciar. Porém, persiste um problema em relação a França: o país vai a votos no ano que vem. E não é líquido que o sucessor de Emmanuel Macron tenha como prioridade contribuir para este guarda-chuva nuclear — por exemplo, a União Nacional (seja com Marine Le Pen ou Jordan Bardella) opõe-se à ideia.
Por agora, este guarda-chuva nuclear não passa de um plano a ser desenhado pelo eixo franco-alemão. Se Emmanuel Macron quiser avançar, Friedrich Merz já demonstrou disponibilidade para o seguir, diante de uns Estados Unidos imprevisíveis que nutrem alguma simpatia pelo regime de Vladimir Putin. Contudo, permanecem várias dúvidas sobre a viabilidade deste escudo e também sobre os custos que poderia acarretar para os países europeus.
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