“O Estado não tem meios próprios. Tudo o que dá a uns, primeiro retirou a outros.”
Ludwig von Mises
No passado mês de janeiro, o país acordou com mais um anúncio daqueles a que o Estado já nos tem habituado nos últimos 50 anos… Mais um “apoio extraordinário”, desta vez ao setor da restauração:
“Os restaurantes que têm dívidas ao Turismo de Portugal de linhas disponibilizadas na pandemia, vão ter mais tempo para pagar esses financiamentos. Para quem tem dívidas à banca, o Turismo de Portugal vai assumir a responsabilidade pelo empréstimo, passando os restaurantes a pagar a esta entidade, mas com um prazo mais dilatado. Será um apoio até 60 mil euros, sendo que 70% são reembolsáveis e 30% podem ser a fundo perdido se as empresas atingirem os resultados”.
A narrativa é a de sempre – proteger empregos, estabilizar o setor, evitar insolvências. Será que o Estado nunca aprende? Por detrás desta retórica de “salvador da pátria” está um padrão que se tornou quase num reflexo automático do nosso Estado: a incapacidade de aceitar que, numa economia de mercado, empresas que não criam valor devem, pura e simplesmente, desaparecer.
Não há crueldade nisto, apenas uma simples lógica económica.
O lucro não é um capricho capitalista, é um sinal. É um indicador de que uma empresa transforma recursos escassos em algo que os consumidores valorizam mais do que aquilo que foi necessário para os produzir, ou seja, um sinal de que uma empresa acrescenta valor à sociedade. Quando o lucro é substituído pelo prejuízo, o mercado está a dizer algo muito simples: os recursos que ali estão a ser usados teriam melhor destino noutros setores, noutras ideias e, talvez, noutros empreendedores.
Ignorar este sinal é como desligar o alarme de incêndio e fingir que o fumo não existe.
Mas o nosso Governo insiste em fazê-lo, sempre! E fá-lo com o orgulho de quem está a tomar uma decisão paternalmente responsável e a corrigir um problema, neste caso, uma “falha de mercado”. Mas gostava de deixar uma novidade ao nosso Ministro da Economia: o mercado não falha, o mercado revela falhas. E fá-lo com uma precisão que nenhum ministro, nenhum gabinete técnico, nenhum comité de especialistas consegue replicar.
O que falha constantemente é a arrogância política de achar que se pode substituir a informação dinâmica e espontânea do mercado por decisões centralizadas, financiadas por impostos que todos pagamos (de forma coerciva), incluindo aqueles que gerem os seus negócios com competência e prudência.
Cada euro entregue a uma empresa incapaz de gerar valor é um euro retirado coercivamente a quem o criou – uma transferência forçada de recursos dos eficientes para os ineficientes, dos produtivos para os não produtivos. É absolutamente contraproducente. Não é justo.
O mais irónico é que, ao tentar “proteger” o setor, o governo acaba por fragilizá-lo pois quanto mais se habitua uma parte da economia a viver de apoios ou subsídios, mais ela perde a capacidade de se adaptar às circunstâncias, de inovar e de competir. No fundo, criam-se maus hábitos e retira-se resiliência às empresas, pois tornam-se dependentes do Estado.
Se um restaurante não consegue sobreviver sem transferências estatais, então o problema não é o mercado, é o modelo de negócio. E prolongar artificialmente a sua existência, para além de não resolver nada, apenas adia o inevitável às custas de recursos que poderiam estar a alimentar novos projetos e ideias.
A verdadeira crueldade não está em deixar uma empresa falir. Está em condenar um país inteiro a carregar às costas as consequências de políticas que recusam aceitar a realidade económica.