Durante décadas, o percurso parecia traçado: estudar, começar a trabalhar, comprar casa, construir família. Ter casa própria era mais do que um objetivo — era um marco de independência, segurança e realização pessoal. E durante muito tempo, esse caminho foi possível para a maioria. Hoje, já não é. E isso não é apenas um efeito colateral da crise, da inflação ou das taxas de juro — é o reflexo de uma mudança estrutural, silenciosa, mas profunda.
Pela primeira vez, Portugal está a formar uma geração que quer comprar, mas não consegue. Uma geração que trabalha, que poupa, que procura — mas que esbarra num mercado que deixou de falar a sua língua. Os rendimentos não acompanham os preços. A oferta escasseia ou surge fora dos centros onde estão os empregos e as oportunidades. Os apoios públicos, mesmo quando bem-intencionados, chegam tarde ou não chegam a quem mais precisa. E o resultado é um sentimento crescente de frustração, de bloqueio, de desilusão.
Mais do que estatísticas, esta é uma realidade que se vê nas histórias concretas: jovens adultos que continuam a viver em casa dos pais muito depois de quererem sair. Casais que adiam filhos porque não têm onde os criar. Pessoas que trabalham a tempo inteiro, mas não conseguem garantir um teto digno numa zona que conhecem. Isto não é uma conjuntura — é uma nova condição social.
E, no entanto, continuamos a tratar o problema como se fosse transitório. Como se bastasse esperar que o mercado se reajuste ou que as taxas baixem. Mas o que está a acontecer é mais profundo: estamos a assistir ao fim de uma era em que a casa própria era um horizonte natural para a maioria. E ainda não construímos — política, economicamente, culturalmente — alternativas sólidas para dar resposta a esse novo cenário.
Não é apenas o acesso à compra que mudou — é a própria ideia de habitar que está em transformação. As rotinas tornaram-se mais fluidas, o teletrabalho alterou os centros de gravidade urbana, e as famílias são hoje mais diversas, mais pequenas e mais móveis. A posse, que durante décadas foi sinónimo de estabilidade, começa a dar lugar à procura de flexibilidade.
Contudo, essa mudança não está a ser acompanhada pelas estruturas que deveriam sustentá-la. O parque habitacional mantém-se envelhecido. A legislação do arrendamento continua desatualizada e frágil. E o investimento em soluções alternativas — como programas de build to rent, arrendamento acessível ou modelos cooperativos inspirados em experiências europeias, como no Reino Unido — ainda é residual.
O resultado é um paradoxo: temos uma geração que está disposta a viver de forma diferente, mas que não encontra espaço para o fazer com dignidade. E um país que continua a pensar a habitação como se ainda estivesse nos anos 90. Falta-nos um novo modelo — não para substituir o sonho da casa própria, mas para o contextualizar, para o reequilibrar, para o tornar de novo viável para quem quiser alcançá-lo, e garantir alternativas reais e estáveis para quem não conseguir.
Esta não é apenas uma questão de mercado — é uma questão de futuro. Porque quando impedimos uma geração de aceder à habitação, não estamos apenas a adiar projetos individuais. Estamos a comprometer a coesão social, a mobilidade económica e a própria capacidade de retenção de talento no país. Não se constrói uma sociedade sustentável quando uma fatia crescente da população sente que não há lugar para si.
Reconhecer esta realidade é o primeiro passo. O segundo é ter coragem política e visão estrutural. O mercado precisa de soluções plurais e realistas — que vão desde incentivos à construção para arrendamento de longo prazo, até modelos de uso sem propriedade plena, como as cooperativas habitacionais. Medidas com impacto real só se concretizam quando são pensadas a 10 ou 20 anos — e não para o ciclo seguinte.
A geração sem casa própria não é um acidente. É o retrato de um país em mudança. E o futuro só será viável se deixarmos de ver esta geração como exceção — e começarmos a construir políticas e soluções com ela no centro.