(c) 2023 am|dev

(A) :: CHEGA: um Balanço

CHEGA: um Balanço

Ventura é o líder do Chega, e o Chega é verdadeiramente o único partido de direita em terras lusas.

Paulo Pinto
text

Após quase sete anos de existência e depois de várias eleições entretanto decorridas é já possível observar o skyline e fazer um balanço sobre o partido Chega. Se falamos do Chega falamos obviamente de André Ventura, seu fundador e único líder até à data, o candidato que no passado domingo perdeu as eleições para a Presidência da República. Pelas reações que provocou, o resultado revela também a importância que o partido e o homem detêm no atual espectro político nacional. Analisando-o sem nos determos nos pormenores, é justo afirmar que – por agora – Ventura não é o líder da direita em Portugal; esta negativa tem a sua razão de ser: no Portugal pós 25 de Abril, apenas um partido se assumiu como de direita – de direita sem adjetivos, de direita tout court. O CDS-PP, de centro, o PSD de centro-esquerda e de centro-direita, ou melhor, de um lado até ao outro, a IL, que não se decide em que lado pousar, são entidades partidárias respeitáveis, sem dúvida, mas que jamais se afirmaram de direita, pelo menos de uma forma pura e sem contrapartidas ou atenuantes.

Corolário, Ventura é o líder do Chega, e o Chega é verdadeiramente o único partido de direita em terras lusas. Claro que naqueles partidos há militantes e dirigentes que se dizem de direita; contudo, a posição oficial, programática e identitária daqueles afirma e sempre afirmou o contrário.

A tarefa de Ventura é então inglória e vã: num universo em que não existem partidos de direita – além do que lidera – não tem cabimento afirmar-se como a vanguarda desse lado da bancada. Ou, pelo anverso da medalha, Ventura é já o líder da direita – da direita possível e histórica simultaneamente, da direita chegana. O seu grande desafio é paralelo e encontra-se a montante: construir e moldar um eleitorado que se reveja efetivamente na direita de forma não preconceituosa e de até de maneira orgulhosa.

Nesta meia-dúzia de anos, o Chega evoluiu de 1,29% em 2019 para 22,76% em 2025 em votação, alcançando 60 deputados no Parlamento. Ultrapassou o histórico PS e praticamente dizimou a extrema-esquerda – a histórica, o PC, e a pós-moderna, o Bloco de Esquerda. Esta mudança não foi de pouca monta. O partido desmontou e colocou à vista de todos os eleitores o excessivo peso da extrema-esquerda na comunicação social, nas universidades e no seio dos bem-pensantes; desconstruiu o seu discurso, um discurso maximalista apoiado em fações minoritárias. Deu a ver, enfim, o real desprezo que ali havia pelos trabalhadores e pelas suas ideias e preconceitos.

Ainda me lembro, nos primeiros anos do século XXI, na faculdade, de um professor comunista me ter dito que Paulo Portas era perigoso. Curiosamente, agora soa como moderado na sua boca e, de resto, toda a pseudodireita passou, com a chegada do Chega, de fascista e reacionária a moderada. Foram necessários cinquenta anos depois de Abril para se anunciar a existência de uma direita moderada em Portugal; continuando a insistir em classificá-la como direita, tornou-se imperativo distingui-la, de modo a fazer o cerco sanitário, da extrema-direita. Os fascistas de ontem são os moderados de hoje. Esses partidos, o PSD e o CDS-PP, não mudaram essencialmente o seu padrão; o que se transformou foi o apuramento e a filtragem drásticos desse hemisfério político por parte da esquerda. Esta esquerda deseja passar uma esponja na sua adjetivação tradicional daqueles partidos e dos seus dirigentes (veja-se o caso da 2.ª volta das presidenciais de 1986 com o fascista Freitas do Amaral).

Chegados aqui deve colocar-se a pergunta: afinal, o que defende e acredita a direita, esta nova direita que, sem pudor e com descaramento (que não poucas vezes se confunde com desfaçatez e má-educação), exibe a sua juba e exalta de rampante a nossa História e assume o nosso passado, confere e compagina o saldo positivo com o passivo, que se diz patriota e nacionalista, anti-woke e anti-globalista? A réplica está ainda em construção, em progresso e processo, ou seja, é um work-in-progress. Dos teóricos conservadores e reacionários, dos partidos-irmãos europeus, da América trumpista, dos anseios e receios dos portugueses, ou pelo menos, de uma parte deles, tudo se junta no caldeirão.

Talvez o mais notório em todo o cenário seja a facilidade com que o caldeirão continua a encher.