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Portugal: perante o novo regime climático, o que correu mal?

A história mostra que Portugal sempre enfrentou cheias e tempestades. A diferença, hoje, é que dispomos de ciência, tecnologia e instrumentos financeiros que os nossos antepassados não tinham.

Antero Carvalho
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Os eventos meteorológicos extremos que atingiram Portugal Continental entre o final de janeiro e meados de fevereiro de 2026 não foram um episódio isolado de mau tempo invernal. Foram um teste sistémico ao Estado, às infraestruturas e à capacidade de governação num contexto de agravamento climático. E, nesse teste, ficaram expostas fragilidades que não podem ser ignoradas pelos decisores políticos.

A sucessão de depressões extratropicais profundas, alimentadas por rios atmosféricos, configurou aquilo que a comunidade científica descreveu como um “comboio de tempestades”. O comportamento anómalo do Anticiclone dos Açores, com deslocação persistente para sul e enquadramento numa fase negativa da Oscilação do Atlântico Norte, abriu um corredor direto para a entrada sucessiva de sistemas depressionários na Península Ibérica. Tempestades como Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta encontraram solos já saturados, linhas de água no limite e infraestruturas envelhecidas.

Os registos falam por si. Rajadas de 209 km/h em Soure, associadas à tempestade Kristin, superaram anteriores máximos registados no país. A precipitação acumulada em janeiro atingiu 233,4 mm, cerca do dobro da média 1991-2020. A intensidade horária de precipitação ultrapassou, em vários locais, valores médios mensais em poucas horas. O oceano, com temperaturas médias próximas dos 21°C em pleno inverno, forneceu a energia latente necessária para episódios de ciclogénese explosiva, incluindo fenómenos como o sting jet.

Não se trata apenas de meteorologia. Trata-se de um novo regime climático que torna obsoletas muitas das normas de projeção baseadas em períodos de retorno de 50 ou 100 anos.

Infraestruturas, entre o cíclico e o crítico

É essencial distinguir danos expectáveis, ainda que onerosos, de falhas em infraestruturas críticas com potencial de colapso sistémico.

Há infraestruturas cuja exposição a eventos invernais é recorrente. Sistemas de drenagem urbana de pequena escala, vias secundárias em encosta, mobiliário urbano e estruturas ligeiras sofrem desgaste cíclico. Aluimentos pontuais, inundações de caves ou cortes temporários de estradas locais podem enquadrar-se num regime de risco conhecido. O Despacho n.º 1776-A/2026 introduziu, aliás, uma mudança relevante ao proibir a simples reposição do estado anterior, exigindo adaptação e melhoria estrutural.

Contudo, o que se verificou, agora em 2026, ultrapassa o domínio do desgaste expectável.

A rede elétrica deixou 76 mil pessoas sem energia após a passagem da tempestade Kristin, maioritariamente devido à queda de árvores sobre linhas de média e alta tensão. A falha energética comprometeu estações base de telecomunicações, interrompendo comunicações em zonas críticas. Esta interdependência entre energia e comunicações digitais revelou um risco sistémico pouco mitigado.

Na rede ferroviária e rodoviária estruturante, a estabilidade de taludes na Linha do Norte e em várias autoestradas exigiu avaliações técnicas urgentes pelo LNEC. Pontes, túneis e viadutos foram sujeitos a inspeções extraordinárias. Os diques do Baixo Mondego e do rio Arunca apresentaram fissuras críticas, expondo milhares de hectares agrícolas e zonas habitacionais a risco elevado. Não se trata de incidentes periféricos, mas de ativos estratégicos que sustentam a economia e a segurança alimentar.

Na gestão de recursos hídricos, a saturação absoluta dos solos e o enchimento máximo das albufeiras colocaram as barragens numa posição paradoxal. Estruturas concebidas para mitigar cheias tornaram-se potenciais fontes de risco quando foi necessário proceder a descargas controladas num contexto de rios já galgando margens. Ficou evidente a ausência de um sistema hidrológico integrado, que deveria funcionar em tempo real, entre a Agência Portuguesa do Ambiente e a Proteção Civil.

Estes exemplos configuram falhas em infraestruturas críticas, cuja vulnerabilidade não pode ser tratada como mero efeito colateral de um inverno mais rigoroso.

O hiato entre aviso e ação

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera emitiu avisos vermelhos. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil registou 11.213 ocorrências. Ainda assim, a perceção pública e a preparação operacional revelaram um hiato entre aviso técnico e ação concreta.

Críticas públicas apontaram falhas no planeamento, no aviso antecipado, nos alertas e na comunicação prática. A tradução de informação técnica em instruções claras e operacionais para a população revelou-se insuficiente. A chamada “última milha” da comunicação falhou em vários territórios.

Planos municipais de emergência encontravam-se desatualizados, em alguns casos há vários anos. A inexistência ou fragilidade de coordenadores municipais de proteção civil criou vazios de comando local. A dependência energética das redes de telecomunicações conduziu à interrupção de alertas SMS em zonas onde mais eram necessários.

Mais preocupante do que a crítica conjuntural é o diagnóstico estrutural. Um sistema excessivamente partidarizado, com nomeações não baseadas em critérios técnicos robustos, enfrenta dificuldades acrescidas na gestão de crises complexas que exigem liderança especializada, cultura de missão e decisão rápida.

A necessidade de uma Infraestrutura Pública Digital para o clima

Perante este cenário, a resposta não pode limitar-se ao reforço físico de infraestruturas. É necessária uma transformação na governação climática, centrada numa Infraestrutura Pública Digital nacional dedicada à ação climática.

Uma DPI climática não é um portal informativo. É uma espinha dorsal tecnológica, baseada em interoperabilidade de dados, inteligência artificial e sistemas geoespaciais, que integra informação meteorológica, hidrológica, estrutural e social em tempo real.

Uma vertical de resiliência infraestrutural permitiria criar um gémeo digital do território nacional, integrando o estado estrutural de pontes, estradas, barragens e taludes com dados meteorológicos e de saturação de solos. A previsão de risco deixaria de ser apenas probabilística para se tornar operacional, identificando, por exemplo, a probabilidade de falha estrutural de uma ponte, horas antes, do pico de cheia.

Uma vertical de prevenção e diagnóstico, alimentada por dados Copernicus e sensores terrestres, poderia mapear fragilidades geológicas e urbanas, emitindo ordens de evacuação preventiva fundamentadas. Em 2026, mais de 1.200 pessoas foram deslocadas intempestivamente. Muitas destas situações poderiam ter sido mitigadas com informação integrada e antecipada.

Uma vertical de alertas de nova geração, baseada em cell broadcast e integração com aplicações de mobilidade, permitiria ultrapassar a dependência de SMS e a congestão das redes móveis, fornecendo instruções de sobrevivência em tempo real.

Finalmente, uma vertical de gestão de financiamento e monitorização permitiria quantificar, em tempo real, o impacto dos investimentos financiados pelo PRR, Portugal 2030 ou Fundo Ambiental na redução efetiva do risco. Esta capacidade de medição é decisiva para reforçar a posição negocial de Portugal junto da Comissão Europeia e de instrumentos como o Fundo de Solidariedade ou o Fundo Social para o Clima.

O papel estratégico da Agência para o Clima

A recém-criada Agência para o Clima, instituída pelo Decreto-Lei n.º 122/2024, reúne competências que a posicionam como entidade gestora natural de uma DPI climática. A sua missão de agregação de serviços dispersos deve evoluir para uma liderança tecnológica, assegurando que dados climáticos, infraestruturais e financeiros não permanecem em silos ministeriais.

A Agência deve tornar-se o braço tecnológico do Estado na ação climática, articulando-se com a APA, IPMA, LNEC, Infraestruturas de Portugal e autoridades locais, criando uma cultura de decisão baseada em dados integrados.

Custos, retorno e competitividade

A implementação de uma DPI nacional exige investimento relevante. Contudo, os custos da inação são exponencialmente superiores.

A escala de investimento climático necessário na Europa para infraestruturas de transporte, sob cenários de aquecimento de 3°C, é estimada em mais de mil milhões de euros anuais. Portugal dispõe de uma janela de oportunidade única através do PRR, onde 41,2 por cento do investimento está direcionado para a transição climática.

A diferença entre despesa e investimento reside na capacidade de medir resultados. Se o país conseguir demonstrar que um investimento de 500 milhões de euros em reforço de taludes, sensores e digitalização reduziu perdas económicas em 2 mil milhões num ciclo de tempestades, terá argumentos técnicos sólidos para aceder a financiamento adicional europeu.

A DPI é, assim, também um instrumento de soberania financeira e competitividade económica.

Proteger os mais vulneráveis

A dimensão social é central. Uma infraestrutura digital climática permite identificar idosos isolados, bairros com habitações precárias, explorações agrícolas vulneráveis ou áreas com maior incidência de doenças pós-cheia. A integração de dados climáticos com dados de saúde pública, numa lógica de resiliência sanitária, abre uma nova fronteira de proteção social baseada em evidência.

Num país envelhecido e com fortes assimetrias territoriais, a proteção dos mais vulneráveis não pode depender apenas de reatividade local, mas de uma arquitetura nacional de informação e ação coordenada.

Imperativos políticos

Os eventos de 2026 não foram uma anomalia estatística. Foram um ensaio geral do que um clima mais quente e instável pode impor de forma recorrente.

Há três imperativos claros para os decisores políticos:

Primeiro, reformar a política de infraestruturas, passando da lógica de reparação cíclica para a adaptação crítica, onde a resiliência climática seja critério prioritário de investimento.

Segundo, refundar a proteção civil numa base técnica, despolitizada e orientada por dados, com liderança capacitada para gerir sistemas complexos e comunicar risco de forma prática e empática.

Terceiro, lançar uma Infraestrutura Pública Digital nacional para o clima, sob coordenação da Agência para o Clima, como eixo estruturante da governação climática portuguesa.

A história mostra que Portugal sempre enfrentou cheias e tempestades. A diferença, hoje, é que dispomos de ciência, tecnologia e instrumentos financeiros que os nossos antepassados não tinham. Ignorá-los seria não apenas uma falha técnica, mas uma falha política.

A resiliência não é um estado alcançado de uma só vez. É um processo contínuo de adaptação, onde a informação integrada se torna o ativo estratégico mais valioso para proteger vidas, património e competitividade nacional.