Ontem à noite, numa daquelas insónias modernas curadas com luz azul, o algoritmo do Instagram decidiu que eu precisava de reparação. Mostrou-me um anúncio a um curso que prometia “eliminar a ansiedade e otimizar o foco em 21 dias”. O preço? Uns módicos 97 euros.
A curiosidade, esse vício antigo, venceu-me. Cliquei. Para meu espanto (ou talvez não), descobri que a solução revolucionária consistia em… meditar cinco minutos, beber mais água e fazer listas de tarefas. Ou seja: exatamente o mesmo que a minha avó me dizia de graça, mas agora empacotado num funil de vendas, com uma estética minimalista e uma batida lo-fi por cima.
E nós, herdeiros do Iluminismo, leitores de Kant e Camus, caímos nisto. Porquê?
Porque nos venderam a mentira mais perigosa do século XXI: a de que somos máquinas avariadas. Convenceram-nos de que a angústia é um bug, que a tristeza é uma falha de software e que a vida é um problema de engenharia que se resolve com a app certa.
Estamos a viver a maior traição alguma vez feita ao espírito humano. Numa tentativa desesperada de competir com a Inteligência Artificial, começámos a imitar a máquina. Queremos ser eficientes, previsíveis, otimizados. Mas esquecemos o essencial: a máquina processa dados; nós processamos sentido.
Kant, na sua rigidez prussiana, já o intuía: a Razão Pura organiza o mundo, explica como os planetas giram e como as pontes se aguentam, mas fica muda quando lhe perguntamos para que serve acordar de manhã. A lógica não chora. A lógica não se comove.
Foi preciso vir Schopenhauer, esse pessimista genial, para nos lembrar a crueldade da nossa condição: por baixo do verniz da civilização, somos “Vontade”. Somos desejo cego, somos fome de viver. Tentar extirpar essa vontade com “hacks de produtividade” ou estoicismo de vão de escada não é progresso, é castração. É lobotomia espiritual.
O que nos distingue do ChatGPTe similares ou do algoritmo mais avançado da Google não é a capacidade de cálculo. Nisso, já perdemos. A eles, o tabuleiro de xadrez; a nós, a vertigem do jogo.
A nossa soberania reside naquilo a que chamo a Razão Apaixonada. É a inteligência que não se divorcia do sangue. É a capacidade de olhar para os factos frios e, ainda assim, escolher o caminho ilógico por amor, por honra ou por fé. A máquina prevê probabilidades; o ser humano espera contra toda a esperança.
Um algoritmo pode analisar todas as frequências sonoras, a métrica e a altura das notas de um fado. Mas nunca, por mais que aprenda, compreenderá o que é ouvir Amália a cantar “Estranha Forma de Vida” às três da manhã e sentir que aquela música não é som, é biografia. A máquina não entende que, por vezes, choramos não porque estamos tristes, mas pela insuportável beleza de estarmos vivos. Essa “estranha forma de vida” é um erro de sistema para um computador; para nós, é a própria essência.
O drama contemporâneo é que estamos a criar uma geração esterilizada. Fugimos do sofrimento como o diabo da cruz, sem perceber que quem não sabe habitar a sua própria tristeza também nunca saberá visitar a alegria profunda. Queremos uma felicidade de plástico, assética, de sorriso pronto para a fotografia, esquecendo que as catedrais se constroem tanto com pedra como com sombra.
Tornámo-nos burocratas da existência. Preenchemos formulários de felicidade, fazemos check-in em experiências, mas a alma, essa, ficou algures na sala de espera, a ganhar pó.
É urgente um manifesto de resistência. Não contra a tecnologia, que é uma ferramenta admirável, mas contra a submissão a ela. Precisamos de reivindicar o direito à ineficiência, à dúvida e ao mistério.
Num tempo que nos quer transformar em código binário e previsível, o último ato revolucionário, a verdadeira rebeldia, é esta: continuar a fazer coisas completamente inúteis, absurdas e gloriosamente humanas.
É apaixonar-nos pela pessoa errada e sofrer com gosto. É rezar sem saber exatamente a quem. É escrever poemas que ninguém vai ler. É perder tempo a olhar para o mar sem tirar uma fotografia. É morrer sem nunca ter percebido inteiramente para que serviu tudo isto, mas ter sentido cada milímetro da viagem.
Enquanto formos capazes disto, de abraçar o caos da nossa condição com uma Razão Apaixonada, o algoritmo perdeu. Não somos código. Somos o mistério que o código nunca conseguirá decifrar.