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Bruno Pernadas ainda não chegou onde quer estar, mas já sabe para onde quer ir: "Unlikely, Maybe" é o caminho

Quando ouviu o quarto e novo álbum, depois de terminado, o músico nem sempre o reconheceu como sendo obra sua. A surpresa é um dos elementos chave de um disco que é apresentado ao vivo esta semana.

António Moura dos Santos
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Unlikely, Maybe não era, à partida, o álbum que Bruno Pernadas queria fazer. Essa é a primeira coisa que o compositor lisboeta nos revela, um exemplo de honestidade e integridade artística que contrasta com uma certa tendência instintiva de apresentar cada novo lançamento como a melhor coisa feita até à data. Lançado esta sexta-feira, 13 de fevereiro, o quarto disco do projeto que lidera é por si definido como “transitório”.

“Foi uma tentativa de ir para outro sítio, para onde quero ir e eventualmente hei de chegar, mas ainda não foi desta vez, porque não estavam reunidas as condições necessárias para isso acontecer”, assume ao Observador. Pernadas marcou o nosso panorama musical ao mostrar que era possível aliar o virtuosismo e a desenvoltura instrumental de uma big band com sensibilidade pop, dando-nos três discos amplamente elogiados: How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge (2014), Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them (2016) e Private Reasons (2021).

No entanto, todos os ciclos têm um fim, e já mesmo no rescaldo do lançamento de Private Reasons, o músico tinha apontado que queria experimentar outras coisas. Agora, confirmou-o. “Acho que tive com esse som tempo de mais, porque embora seja confortável e ao qual é sempre bom regressar, eu não posso nem quero estar a fazer sempre a mesma coisa”, realça, numa conversa que decorreu nos estúdios onde tem estado a ensaiar com o ensemble que reuniu para apresentar Unlikely, Maybe esta semana, dias 19 e 20 na Culturgest, em Lisboa, e dia 21 no Auditório de Espinho.

[ouça o álbum “Unlikely, Maybe” na íntegra através do Spotify:]

Guitarrista desde muito jovem, Pernadas fez-se músico profissional na Escola Superior de Música de Lisboa e no Hot Clube de Portugal, e foi essa formação — “menos escrita, mais plural, mais coletiva”, como define — que quis explorar artisticamente. No entanto, isso implicou manter os músicos com quem queria colaborar em regime de residência artística, algo difícil pelo facto de terem agendas preenchidas e por serem altamente requisitados.

“Não foi possível e o tempo foi passando. Por outro lado, fui também compondo — porque estou sempre a fazer músicas, para mim ou para outras pessoas — e fiquei apaixonado por algumas delas. Foi então que comecei a abraçar a ideia de que essas músicas iam fazer parte de um disco”, afirma. A estas juntaram-se outras que já apontam nesse caminho, fazendo deste um álbum de duas faces. É daí, aliás, que vem o título enigmático deste quarto disco. É “unlikely” porque “é improvável que seja este o álbum a fazer a transição”, mas segue-se o “maybe” porque “também há momentos em que isso acontece”, revela.

Além do mais, este álbum soaria sempre diferente dos antecessores, já que duas das três vozes que fizeram parte do projeto desde o início — Afonso Cabral e Francisca Cortesão — não participaram neste disco e a terceira, Margarida Campelo, surge como convidada em dois temas. A ela juntam-se a cantora de jazz Leonor Arnaut, a vocalista de soul luso-britânica Maya Blandy, a soprano brasileira Lívia Nestrovski e o saxofonista José Soares no rol de colaborações externas.

Outro exemplo dessa diferenciação está na duração do álbum, que não só é mais curto, como também mais direto; as suas canções mantém a exploração musical, mas detém-se menos tempo em digressões. Quando se encontrava a misturar Private Reasons, Bruno Pernadas sentira que algumas canções eram demasiado longas, mas “não quis desrespeitar a ideia original”, pelo que as manteve “como estavam”. Desta vez, foi bastante mais implacável no processo. “Tudo o que me pareceu que eu fosse passar à frente quando fosse ouvir, no futuro, cortei. Foi assim que tirei partes da música.” Tudo isto culminou num produto final por si caracterizado como “mais surpreendente e fresco”. “Estou a ouvir a música e às vezes parece que não é minha, e isso é muito bom”, comenta.

Álbum de experiências e “desobediências”

Seguidor da escola de composição de Les Baxter e Quincy Jones, Bruno Pernadas mostrou na sua trilogia inicial uma capacidade prodigiosa de calcorrear vastos terrenos musicais sem perder o norte, indo da folk ao space pop, do psicadelismo ao indie rock mais imediato, tendo sempre em vista a noção de canção. Essa mesma ordem harmoniosa manifestava-se no trabalho gráfico dos seus discos, elegante e cuidado, atributos que não podiam estar mais afastados da capa de Unlikely, Maybe: um espaço de trabalho desarrumado, exemplificando o fenómeno entrópico da criação, signos de um artista em trânsito; a próprio facto de surgirem uma fotografia e um fragmento de outra é reminiscente de uma sequência de frames interrompida, sugerindo essa ideia de um percurso não terminado.

Porque, lá está, não é que o músico tenha abandonado por completo o tipo de estética que o caracterizou — Untitled (raindrops) a abrir e Song in MT-65 a fechar têm aquele cariz lúdico e caleidoscópico que cativou quem ouviu Ahhhhh pela primeira vez e se apaixonou. Mas His World, Spiritual Spaceman e Leo Minor (que, não por acaso, surgem todas de seguida) pautam-se por um cariz bastante mais devedor ao jazz e à black music, seja pelo solo à Funkadelic da primeira, pela contemplação que desemboca num monumento de sopros apontado aos céus da segunda ou pela delicada quietude da terceira.

Nas tais pistas que já tinha dado ainda na fase de Private Reasons, Bruno Pernadas dissera como queria ir beber ao espírito colaborativo de grupos como o Art Ensemble of Chicago ou os Last Poets ou à cena do jazz espiritual dos anos 60 preconizada por figuras como John e Alice Coltrane ou Pharoah Sanders, que já ouvia desde a adolescência. “É música que não tem muito a ver comigo enquanto mote da espiritualidade, porque não sou uma pessoa espiritual naquele sentido; identifico-me sobretudo com o sentido plural e coletivo destes grupos que a fazem. Diz-me muito, cada vez mais”, afirma. De resto, logo a seguir a editar o primeiro disco, foi convidado a integrar um ensemble de Sun Ra por conta da celebração do seu centenário, pelo que “os astros já estavam alinhados nesse sentido”. Como resultado de seguir esse ethos, o artista revela que este foi o álbum mais colaborativo que assinou até à data neste projeto. “Teve menos diretrizes e também mais desobediências, o que levou a coisas giras. Aquelas músicas mais próximas do jazz foram tocadas de forma bastante livre, na verdade”, conta.

Unlikely, Maybe, porém, move-se por mais coordenadas musicais ainda, como o jazz-rap que termina Juro que vi túlipas pela voz de Maya Blandy, que Pernadas conheceu enquanto estava a dar formação na Madeira, vendo no seu sotaque de Manchester o complemento perfeito aos versos que já tinha escritos. Ou a MPB enérgica que dá lugar a um ritmo quase house de Já não tem mais encanto, cantada por Lívia Nestrovski, cuja vinda a Portugal foi aproveitada para gravar esta canção.

Outro dos exemplos, à partida, mais surpreendentes, é o dance hall e o dub evocados por Steady Grace, um dos singles de avanço do disco. É, todavia, aqui que Bruno Pernadas nos revela que, como Walt Whitman, contém multidões, nós é que se calhar não sabíamos. “Eu tenho um disco só de dub que gravei quando tinha 21 anos e que só ofereci aos amigos próximos em CD-ROM, fiz a capa e tudo. Alguns ainda o têm. Portanto, não é um terreno novo para mim, de todo, só que lá está, nunca tinha posto em nenhum disco”, afirma.

https://www.youtube.com/watch?v=-BONnPWTt2w&list=RD-BONnPWTt2w&start_radio=1

A sua versatilidade já estava bem patente para quem estivesse atento: por um lado, pelas suas passagens por grupos como Montanhas Azuis, Julie & The Carjackers, Minta & The Brook Trout e Real Combo Lisbonense; por outro, pelos trabalhos que tem realizado em bandas sonoras para filmes, séries e peças de teatro, mais caracterizados mais próximos da composição orquestral, do desenho de som ou da música dissonante. “Tenho músicas que fiz para orquestra e coisas mais contemporâneas que podia pôr aqui a tocar e não ias saber que fui eu que fiz”, desafia.

“Gosto das coisas que são muito opostas, porque gosto de composição à séria, tipo música contemporânea, e também no jazz para orquestras, mas depois gosto da total liberdade”, continua. Bruno Pernadas, portanto, vai a todas, menos se isso implicar entrar numa fórmula repetitiva, especialmente se tratar-se de tocar a mesma música todas as noites como um autómato. “Pode ser para outras pessoas, mas não para mim. Seria incapaz de ir numa turnê mundial de 50 concertos a tocar exatamente a mesma coisa, com o mesmo som. Se é para fazer trabalho de mão de obra especializada, vou fazer outra coisa que dê mais dinheiro”, declara.

A incerteza do mundo

Dentro da pluralidade de sentidos que sugere, Unlikely, Maybe é uma expressão que também traduz um possível sentimento de incerteza, o que se manifesta numa certa melancolia que perpassa o álbum. “Spaceman wants to take us / Into his spaceship / We’ll save the planet /See you in outer space”, ouvimos em Spiritual Spaceman, ao passo que Maya Blandy menciona em Juro que vi túlipas “the end of the world as we know”.

O exemplo mais pungente, porém, ocorre em Campus on Fire, tema central do álbum, que em que Pernadas diz ter-se inspirado no filme Fahrenheit 451 de François Truffaut (adaptado do livro do mesmo nome de Ray Bradbury) e da série Station Eleven (vinda de um romance de Emily St. John Mandel). Em ambos os casos, a perda material de referências culturais coletivas (forçada ou não) obriga as pessoas a ter de decorar histórias e peças de teatro de cabeça. No caso da canção, “é um campus de universidade que está a arder e as pessoas perdem a lógica de existir, indo parar a esse sítio já próximo do fim do mundo em que tens de decorar as coisas para as poderes partilhar porque a tecnologia toda desapareceu”, explica.

De acordo com o artista, é por essa razão também que o álbum começa com uma amiga sua a dizer “I thought that I was gonna miss things like TV and telephones, but surprisingly enough I didn’t” (“Pensei que ia sentir falta de coisas como televisão e telefone, mas, surpreendentemente, não senti”). É como uma prova da nossa capacidade de adaptação, mas também uma espécie de luto antecipado para um desastre que se avizinha pela tecnologização desenfreada das nossas vidas.

“A humanidade neste momento ainda estava a tempo de parar com tudo isto e a criar um sítio melhor. Ou seja, mandar tudo abaixo, parar com os telefones, com as apps, com a inteligência artificial. Ainda estávamos a tempo, mas como não querem parar, porque economicamente não interessa, o que vai acontecer é que vai haver uma catástrofe tecnológica que se vai traduzir na vida das pessoas. Pronto, e também há um bocadinho essa reflexão nessa música, no His World e no Spaceman”, afirma.

Pernadas frisa não tratar-se de um ludista, apontando para como os avanços tecnológicos na saúde têm permitido salvar vidas de outra forma perdidas. Mas ainda assim, considera que ficámos a perder. “A nova internet trouxe muito mais estragos, por exemplo, na saúde mental da geração Z. É um descalabro a quantidade de doenças mentais que foram exacerbadas, que se calhar já lá estavam, mas se não fosse isto, o impacto não teria sido tão grande. Acho que é muito, muito grave, porque mudou muito o mundo e não era necessário porque as coisas poderiam funcionar com alguma tecnologia, mas sem este desespero”, lamenta, acrescentando com alguma ironia: “Vamos ver sempre pessoas numa comunidade auto-sustentável não sei onde à volta de uma fogueira a tocar Fleetwood Mac com a guitarra, mas também o resto vai existir”.

Além dessas incertezas existenciais, há outras bem mais imediatas a desafiar Bruno Pernadas, a começar pela composição da sua banda nos tempos vindouros. Se é difícil manter intérpretes de excelência numa residência artística dada a frequência com que são requisitados, não é muito mais fácil mantê-los durante uma sequência de concertos ao longo do ano.

Mesmo que admitindo que é um bom problema, resultante de trabalhar com os melhores, não deixa de ser “um problema muito grande”. “Substituir uma pessoa, dá; substituir três ou quatro, não. Também já acontecia com o grupo antigo, mas o que acontecia é que havia sempre já um substituto escalado para aquela pessoa. Ao longo dos anos, conseguimos encontrar uma forma de gerir isto até com as outras empresas, com as outras agências, com os outros managers, em que se fazia X concertos com o meu grupo e depois iam tocar com outros grupos. Isso até era organizado internamente. Agora, como este também é um grupo novo e são mais pessoas da área do jazz, que estão sempre a viajar, faz com que não seja tão fácil”, admite.

Há muito que Pernadas se debate com esta questão — de garantir todos os músicos que precisa numa big band, cuja dimensão pode inviabilizar muitas oportunidades para tocar fora do país. No entanto, não se arrepende de ter prescindido de outros voos para não sacrificar a qualidade das atuações por facilitismos, apontando para uma cultura em que muitas bandas passaram a depender de ter vozes ou instrumentação a sair disparada do PA em vez de tocada ao vivo.

“Nunca percebi como é que isso aconteceu. Vi um concerto no Primavera Sound há dois anos que era música folk e não havia baixista a tocar. Depois reparei que era o baterista que fazia a parte do baixo. Como é uma música simples, de quatro ou cinco acordes, ele estava a tocar o click track. Eu pensei ‘“eia, aqui?!’”, desabafa. É por isso que, no seu entender, “no futuro, é melhor tocar jazz”. “É uma música que foi pouco contaminada nesse sentido, porque nenhum programador de um festival de jazz vai dizer “olha não tragas o contrabaixista e dispara [do PA]”. “Isso não vai acontecer, porque continua a ser uma música acústica, como a música clássica ou contemporânea”, termina, declarando: “Não compactuo com esta negligência que se tem ao nível dos concertos ao vivo”.