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(A) :: "A comunidade foi mais forte que o vento.” Em Leiria, todos se juntaram para consertar as escolas destruídas e dão-se aulas na igreja

"A comunidade foi mais forte que o vento.” Em Leiria, todos se juntaram para consertar as escolas destruídas e dão-se aulas na igreja

Antigos alunos, pais e jovens entregaram-se às limpezas e arrumações de salas de aulas que se transformaram em lagos. "Gostava que tivesse sido mais fácil", diz um diretor.

Madalena Guinote Ramos
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Vasco Coelho
photography

Na sala A-8 da Escola Secundária Henrique Sommer, a aula é sobre a tempestade Kristin. “Só nos mostra que a Natureza é totalmente imprevisível”. Ao meio-dia e meia já passou metade da aula de Geografia e, dentro da sala, os alunos e a professora trocam relatos da madrugada da tempestade como histórias de guerra. “A minha mãe teve de ir buscar o portão ao meio da estrada”. “Eu fiquei sem chaminé”. “O mais assustador é que nunca mais acabava.”

Dentro de uma das poucas salas que resistiu incólume ao mau tempo, estão alunos cujos pais perderam o trabalho, com os negócios destruídos pela tempestade, uns que continuam sem luz duas semanas depois, e outros que ficaram com as casas arrasadas. Esta turma do 12º ano de Ciências Socioeconómicas foi uma das que recomeçou as aulas esta quarta-feira na Escola Secundária Henrique Sommer, na Maceira, em Leiria, uma das mais devastadas pela tempestade Kristin e uma das últimas do concelho a reabrir.

Na manhã de 28 de janeiro, quando a vila acordou depois de uma madrugada interminável, Eugénia Domingues chegou à porta da escola, voltou a entrar no carro, foi direta aos bombeiros e sentou-se, em choque, durante uns minutos. Depois, disse: “A minha escola está destruída, por favor, ajudem-me”. É professora na Henrique Sommer há 36 anos, mas só em julho se tornou diretora de todo o agrupamento, que integra mais 11 escolas além desta.

Depois de o vento levar os telhados, veio a chuva que inundou as salas

O cenário que tinha encontrado era devastador: telhas arrancadas, vidros partidos e dezenas de pinheiros arrancados pela raiz com a força do vento. “Parecia um cenário de guerra autêntico”, diz. Mas não ficou por aqui. Na madrugada de quinta-feira, o vento acalmou e começou a chover. Muito e sem parar. Foi o que bastou para deixar entrar água nas salas de aula e o que o vento ainda não tinha levado, a chuva encarregou-se de destruir. Só deu tempo de, na quinta-feira de manhã, um grupo de sete voluntários, entre professores e alunos, ir tirar todos os computadores e material de laboratório e guardá-lo no pavilhão do refeitório, o único que tinha ficado completamente intacto.

Horas depois, das 29 salas de aula, 26 ficaram completamente inutilizáveis e num dos quatro blocos, o mais afetado pela tempestade, as salas transformaram-se em lagos, com água turva amarelada à altura dos tornozelos.

Os danos são tão profundos que a escola, em articulação com o município, optou por isolar totalmente esse bloco até ao fim do ano letivo e, só depois, tratar da sua intervenção, por não haver nada que se possa fazer no imediato. A prioridade foi intervir primeiro nas zonas menos danificadas da escola, que podiam ser recuperadas em pouco tempo. Foi nessas que a escola esteve a trabalhar ao longo destas duas semanas, e que puderam reabrir esta quarta-feira.

Quem chegar agora à Henrique Sommer sem saber o que ali se passou, não terá uma total compreensão da dimensão dos estragos. Mas Jorge Bajouco, subdiretor do agrupamento e professor na escola também há mais de 30 anos, não hesita em explicar o porquê. “A vantagem da Maceira é a comunidade. Nestas alturas, toda a gente arregaça as mangas. Foi aquilo que nos valeu”.

Pais e ex-alunos uniram-se em gabinete de crise para recuperar escola

A vila é pequena e já muita gente passou por aquela escola. Uns trabalham agora na Junta de Freguesia, nos Bombeiros, ou são pais dos alunos que agora ali estudam. Quando a tempestade varreu quase tudo, juntaram-se para ajudar a reerguer o que era possível: a mãe de uma aluna, que é engenheira civil, criou uma espécie de “gabinete de crise” sediado na Junta e juntou técnicos para irem à escola fazer um levantamento dos danos; muitos dos bombeiros foram alunos e são agora pais de jovens que ali estudam, por isso, a facilidade de comunicação era maior; e a empresa contratada pela autarquia para tratar da reconstrução das partes mais danificadas da escola é do pai de três ex-alunos, tendo sido o próprio a disponibilizar-se para avançar com as obras.

“Nos primeiros dias, só puderam andar aqui os bombeiros e os militares a tirar as árvores e as telhas, porque isto estava um perigo e nem conseguia andar. Depois, na segunda-feira (a seguir à tempestade) já veio a empresa e no sábado passado (dia 7), quando vieram os voluntários todos, isto levou uma volta muito grande”, conta Eugénia. A “volta muito grande” de que fala foi quando se juntaram professores, auxiliares, bombeiros, alguns alunos do secundário e até encarregados de educação para deixar a escola pronta a abrir, assim que fosse seguro fazê-lo. E que houvesse eletricidade. Esta semana ainda só não há internet, mas, mesmo assim, as aulas começaram sem problemas.

Na quarta-feira, quando a escola reabriu, os Bombeiros, a junta de freguesia e a empresa responsável pelas obras foram convidadas a estar presentes. “Eles representam todos a ajuda que a escola teve e os alunos têm de saber que isto não foi só estalar os dedos.”

“Quando aquele ministro disse aquilo das pessoas pagarem estas despesas todas com o salário do mês…”

A consciência da dimensão do que aconteceu e do esforço necessário para recuperar está lá. Na aula de Geografia do 12º ano, onde se fala do impacto da Kristin e cada um conta a experiência que teve, os alunos estão aliviados por estar de regresso e dizem que já não aguentavam estar em casa com tanto em que pensar: muitos foram afetados pessoalmente pela tempestade. Os rostos tensionam na sala quando a professora Lisete Costa pergunta que aprendizagens é que se podem retirar do que aconteceu. A turma divide-se: uns dizem que foi uma oportunidade de ver o lado mais solidário das pessoas, outros respondem que há quem se aproveite destes momentos “para roubar e ser oportunista“. Daqui para a política é um pequeno salto. “Quando aquele ministro, não sei qual deles foi, disse aquilo das pessoas pagarem estas despesas todas com o salário do mês… Eu nem sei como é que eles [Governo] conseguem ter aquela falta toda de empatia”, desabafa uma das jovens.

Eugénia Domingues, a diretora do agrupamento, explica que o ministro da Educação esteve reunido com os diretores dos agrupamentos das escolas do distrito de Leiria no dia 2 de fevereiro, mas a reunião serviu apenas para fazer um ponto da situação. Fernando Alexandre disse ainda, na altura, que o Governo ia colocar a reconstrução das escolas mais afetadas “como prioridade estratégica no investimento em infraestruturas públicas”.

Para já, dos 770 alunos ainda só regressaram metade, entre turmas do ensino secundário, 9º ano e ensino profissional. Os restantes, do 5.º ao 8.º ano e do ensino especial, ainda estão sem aulas e esperam pela instalação dos 17 contentores que farão a vez de sala. A expectativa é que possam regressar na próxima quinta-feira, depois da interrupção do Carnaval, mas ainda sem garantias.

Em Vieira de Leiria, os alunos “desalojados” da Padre Franklin obrigaram o agrupamento a improvisar

De Maceira a Vieira de Leiria são cerca de trinta minutos de distância, mas o GPS leva-nos por estradas onde ainda não se ultrapassou, de modo algum, o rasto de destruição provocado pela tempestade da madrugada de 28 de janeiro. Há postes de eletricidade partidos ao meio, caminhos onde as raízes das árvores rasgaram o asfalto e um troço de estrada inteiro onde, de um lado e outro, sobreiros enormes e de tronco robusto estão agora deitados no chão como se alguém os tivesse soprado. Por isso, quando a Escola Secundária José Loureiro Botas surge no fim da rua com um aspeto praticamente intocado, é surpreendente.

É a escola sede do agrupamento de escolas de Vieira de Leiria e esteve fechada até esta quinta-feira.  De momento, recebe não só os “seus” alunos de 7º, 8º e 9º anos, mas também os do 5º e 6º da escola ao lado, a Padre Franklin, essa sim que ficou completamente destruída e para a qual não há previsão de reabertura. Aqui, a força do vento partiu telhas e alguns vidros, rebentou com todas as portas, amachucou uma parte da vedação de ferro como se fosse uma bola de papel e deitou árvores abaixo. Quando José Soares, diretor do agrupamento, chegou na quarta-feira de manhã à escola, “estava tudo aberto”. Mas uma empresa contratada pelo município esteve, nas duas últimas semanas, a reconstruir o que foi deitado abaixo. Ficam a faltar os contentores de que a escola precisa para conseguir receber todos os alunos ao mesmo tempo, mas ainda não há uma previsão certa de quando irão chegar.

Agora, são cerca de 360 alunos neste espaço, que tiveram de esperar até haver a certeza de que havia eletricidade (só houve na quarta à noite) e a capacidade de fornecer refeições na cantina. José explica que alguns pais e professores estavam inseguros com o regresso e com receio das condições ainda não serem as melhores, mas garante que o processo foi bem pensado e que por detrás da reabertura está muito trabalho desenvolvido ao longo de vários dias e que a decisão de abrir portas só foi tomada depois de terem a certeza de que nada faltaria aos alunos.

Por enquanto, o acesso à internet ainda não foi reestabelecido e as comunicações também falham, mas, quanto a isso nada podem fazer e, à parte disso, parece ser um dia absolutamente normal: gritos nos corredores e o recreio, onde os telemóveis só são permitidos à quarta e sexta-feira, cheio de crianças.

Há, contudo, 126 alunos, os do ensino secundário, que já tinham começado as aulas logo na terça-feira, mas fora da escola. Com o acolhimento das turmas do 5º e 6º anos da Padre Franklin na José Loureiro Botas, foi preciso improvisar.

A tempestade que fez da igreja uma escola

Há um número invulgar de miúdos de mochilas às costas junto à igreja, mesmo no centro da vila. E da porta da paróquia, na parte de trás da Igreja, ouvem-se vozes. Mas ali, desde há alguns dias, não se fala de Deus e Fé, fala-se de Física e Química.

É a última aula do dia para as duas turmas de 10º e 12º ano que têm estado instaladas nas salas da paróquia habitualmente reservadas para a catequese. São três espaços húmidos, apertados e frios, mas foi a solução possível para impedir que os alunos, que estão em anos de exame, perdessem mais tempo de aulas. No domingo, 8 de fevereiro, o motorista cedido pela câmara municipal passou o dia entre a Escola José Loureiro Botas e o centro de Vieira de Leiria, a transportar mesas, cadeiras e outros materiais para os dois espaços que agora acolhem os alunos. Foi também nesse dia que se verificou uma mobilização maior de voluntários, entre professores, encarregados de educação e alunos do 11º e 12º anos. Na segunda-feira, uma equipa de assistentes operacionais dividiu-se entre a paróquia e a Biblioteca de Instrução Popular a limpar e a arrumar tudo, para receber alunos no dia seguinte.

Se na paróquia estão três turmas, na Biblioteca de Instrução Popular, uma associação cultural privada situada na rua uns metros à frente, estão outras três. Aí, um estúdio de ballet está repleto de mesas e cadeiras, onde reinava o silêncio durante a consulta de livros ouve-se agora a voz dos professores e o auditório principal, com palco e piano, foi a primeira “sala” a estrear as novas mesas e cadeiras que a escola original tinha acabado de receber quando a Kristin chegou.

Ana e Gonçalo estão no 12.º ano de Ciências e, na última semana, têm tido aulas na sala do fundo da paróquia. O espaço acolhe, apertados, os 20 alunos da turma. Todos preferiam voltar à escola e reconhecem o esforço feito pelo agrupamento para tentar encontrar uma solução para todos, mas dizem que as aulas ali não rendem tanto. “O foco não é o mesmo, de todo. Se for uma ou duas semanas é na boa, mas, se for mais, acho que vai prejudicar bastante”, afirma o estudante.  Ainda é cedo para avaliar se será necessário repor aulas, mas, para já, os professores têm esperança de que os sete dias perdidos consigam ser recuperados sem necessidade de tempo adicional.

São 16h45 e o primeiro dia de aulas na escola de que Ana e Gonçalo sentem a falta está praticamente acabado. O balanço na escola secundária Loureiro Botas é positivo e o diretor José Soares não parou quieto mais de cinco minutos, entre chamadas, carrinhas a entrar e a sair (ainda havia algum entulho por tirar do recinto), e o frenesim pelos corredores. Está satisfeito, mas cansado, e desabafa: “Sentimo-nos um pouco sozinhos. Tivemos os voluntários e anda toda a gente a tentar ajudar, mas nós só somos professores e às vezes deparamo-nos com questões simples como ‘ligamos o quadro ou não ligamos o quadro [elétrico]?’, só que não sabemos sempre a resposta. Gostava que tivesse sido diferente, um bocadinho mais fácil.”

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