Há verdades que ninguém gosta de admitir, não por serem falsas, mas porque são demasiadamente verdadeiras. Entre elas, uma das mais desconfortáveis é esta: a humanidade produz uma quantidade inesgotável de imbecis. Não apenas muitos, não apenas mais do que seria prudente, mas uma produção contínua, industrial, quase orgânica, como se fizesse parte da própria mecânica do mundo. Dizer isto não é misantropia: é constatação. E, como os velhos filósofos insistiam, a filosofia começa sempre onde termina a ilusão. Entretanto, vivemos num tempo que canonizou a imbecilidade como virtude cívica. Pior ainda: um tempo que confunde ignorância com autenticidade, impulsividade com coragem e vulgaridade com participação democrática.
O fenómeno, porém, não é novo. Já Platão desconfiava da multidão, Aristóteles sabia distinguir a massa da polis e Sócrates foi condenado por aqueles que, incapazes de pensar, decidiram que pensar era uma ameaça. A imbecilidade, afinal, é a mais antiga forma de poder pela simples razão de que exige pouco e mobiliza muito. Mas, no nosso século, ela ganhou ferramentas novas. Se antes o imbecil era apenas um ruído no coro social, agora tornou-se fabricante de opinião, influenciador, profeta de slogans ocasos. A tecnologia multiplicou-lhe o alcance, a política descobriu-lhe a utilidade e a cultura de massas ofereceu-lhe palco, microfone e aplauso.
A imbecilidade tornou-se democrática, mas não no bom sentido da palavra. Democratizou-se como se democratiza um vírus: alastrando, infiltrando, anestesiando. A cada geração, perde-se mais a capacidade de distinguir o que é difícil do que é fácil, o que exige pensamento do que apenas excita emoções. E é aqui que entra o desconforto político: sociedades que abandonam a exigência, moral, intelectual, cívica ou de qualquer outra natureza, tornam-se vulneráveis ao pior tipo de poder. O conservadorismo, quando é nobre, não é nostalgia do passado: é defesa da lucidez, insistência em que a cultura não deve ser nivelada pelo ponto mais baixo, mas elevada pelo mais alto que conseguimos conceber. A imbecilidade, pelo contrário, floresce onde se idolatra a mediocridade e se destrói qualquer forma de hierarquia que reconheça competência, mérito ou discernimento.
Talvez o drama esteja precisamente aqui: não é que a humanidade produza mais imbecis, mas que tenha deixado de produzir antídotos suficientes. Abandonou o exercício da crítica, desistiu da complexidade, tem medo da autoridade moral e receio de todas as formas de excelência. E assim, enquanto se proclama inclusiva, torna-se fatalmente permissiva para tudo o que degrada o espírito. E o resultado está à vista: discursos vazios comovem, ideias absurdas seduzem, palavras de ordem substituem raciocínios e a grosseria é confundida com franqueza. A imbecilidade não precisa de vencer: basta-lhe que o pensamento abdique.
Contudo, há uma esperança modesta: sempre que um ser humano decide pensar contra a corrente, lentamente, silenciosamente, com rigor, a imbecilidade perde terreno. Não muito, talvez, mas o suficiente para que a civilização não colapse totalmente sobre si mesma. Afinal, como já se compreendia na Grécia Antiga, a inteligência não é a regra: é a resistência. E o maior desafio do nosso tempo talvez seja este: continuar a resistir num mundo que descobriu que a estupidez, além de barata, rende votos, cliques e aplausos. Sim, a humanidade produz muitos imbecis. Mas ainda não desistiu, pelo menos não totalmente, de produzir, aqui e ali, alguém que pensa. E isso, mesmo sendo pouco, é o que nos permite continuar.