As presidenciais acabaram como tinham de acabar, com mais um esforço das almas penadas do regime para demonstrar que André Ventura, não sendo presidente da república, também não era “o líder da direita”. Foram uns serões perdidos em chicanas estatísticas. Faz sentido? Não faz, porque percentagens ou números de votos não chegam, só por si, para identificar o “líder da direita”. Convém perceber o que está em causa.
Ventura não ter passado dos 33,2% pode ser um problema para Ventura; mas Ventura ter chegado aos 33,2% é um problema para os seus inimigos. A esperança do anti-venturismo foi que o Chega fosse um namoro eleitoral de Verão, como o PRD no século passado. Não é. Ao fim de seis anos, em 1991, o PRD já não existia. O Chega tem 60 deputados. Se os 24% de eleitores da AD que agora experimentaram votar em Ventura fizerem um dia mais uma experiência, e votarem no Chega em legislativas, o Chega pode ficar à frente da AD. Não será governo, porque todos estarão contra ele? Provavelmente, mas nesse caso o problema não é só do Chega, mas do país, porque nunca terá o governo de que precisa.
Para uma direita reformista, o Chega devia ter sido uma oportunidade: foi buscar eleitores onde essa direita já não conseguia, para uma maioria parlamentar que essa direita, sozinha, nunca teria tido. A esquerda percebeu isso, e montou mais uma das suas farsas anti-fascistas à volta do Chega – um partido “fascista” fundado por antigos militantes do PSD e do CDS, que cumpre as regras, que quer Portugal na NATO e na UE, e que tem como referência Francisco Sá Carneiro, citado no domingo por Ventura. Acontece que PSD, CDS e IL resolveram alinhar na farsa, julgando que, banido o Chega, lhe herdariam os votos. O resultado dessa suprema imbecilidade foi anularem todo o potencial reformista da maior maioria de direita de sempre, e assim sugerirem ao país a inutilidade do voto de Maio. Eis as coisas como são: o país quis mudar; a direita disse ao país que não podia; resta agora saber o que o país dirá à direita.
A eleição de António José Seguro acabou de fechar o embrulho. Não haja ilusões: a presidência de Seguro será determinada pelos apoios que teve: o dos socialistas que não querem reformas, e o da direita que não quer acordos com o Chega, e que por isso nunca fará reformas. A porta do reformismo, que já tinha um cadeado, passou a ter dois: um parlamentar, e outro presidencial. Acham que isto vai mal? Pois irá pior. Portugal, como o resto da Europa ocidental, sofre com as opções políticas dos últimos trinta anos. Os serviços públicos foram usados para engrossar o emprego no Estado e não para satisfazer os utentes, e as políticas sociais transformaram-se num meio de clientelizar politicamente os mais velhos à custa dos mais novos. Depois, recorreu-se à espoliação fiscal para evitar mais bancarrotas, e ao turismo e à imigração descontrolada para compensar a estagnação económica e o recuo demográfico. Em Portugal, essas opções foram tomadas pelo PS. Cabia à direita conservadora-liberal corrigir o rumo. Podia ter-se entendido com a nova direita nacionalista para dar ao reformismo um suporte alargado. Em vez disso, excluiu-a, e ao excluí-la, excluiu-se a si própria da sua missão histórica.
André Ventura pode não ser ainda uma solução de governo, e não o ser durante muito tempo. Esse é o problema de Ventura. O problema do país é que, sem Ventura, não haverá uma maioria reformista. O “líder da direita” não será aquele que simplesmente tiver mais votos, mas aquele que conseguir resolver esse problema. A questão é de política, não é de aritmética.