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(A) :: Morar ao lado da barragem que engoliu a Ponte Salazar e a Foz do Dão. Sem a Aguieira, "o Mondego ficava doido, doidinho"

Morar ao lado da barragem que engoliu a Ponte Salazar e a Foz do Dão. Sem a Aguieira, "o Mondego ficava doido, doidinho"

A barragem da Aguieira foi construída nos anos 70 para controlar o Mondego. Engoliu a ponte Salazar, inaugurada pelo próprio, e uma aldeia. Quem mora ao lado diz que nunca a viu debitar tanta água.

José Carlos Duarte
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Diogo Ventura
photography

O chão tremia e o som era ensurdecedor. Na barragem da Aguieira, que divide os distritos de Coimbra e Viseu na zona de confluência entre o rio Dão e o Mondego, as descargas de água agitavam o paredão da infraestrutura inaugurada no início dos anos 80. A capacidade desta barragem chegou a estar a 99,04% esta quinta-feira, bastante perto do limite máximo. A chuva que caiu nos últimos dias na região Centro levou a que o nível da água superasse a cota de 124,5 metros.

Na barragem estavam vários pessoas a assistir às descargas esta quinta-feira a meio do dia. Ao Observador, no local, Vital Campos diz que já não via nada assim “há muitos anos”. Natural de Tondela, o homem, que já trabalhou na barragem do Tua (entre Alijó e Carrazeda de Ansiães), assinala que o volume de água era “espetacular”, até para alguém acostumado a ver este tipo de fenómenos. “Eles aqui na Aguieira aguentam, aguentam, aguentam, mas não podem aguentar mais e tiveram de libertar a água.”

A barragem está intrinsecamente ligada ao caudal do rio Mondego, que desagua na Figueira da Foz. A infraestrutura é vital para evitar cheias em vários pontos do distrito de Coimbra, incluindo a baixa da cidade. “Se esta barragem não existisse, não havia hipótese para Coimbra”, comenta Vital Campos, acrescentando que foi “criada para controlar as baixas do rio Mondego”. 

Mas houve uma consequência da construção da barragem da Aguieira. Se agora serve para evitar cheias pelos locais por onde passam alguns afluentes do rio Mondego, a sua construção fez com que algumas aldeias — como a Foz do Dão — tivessem desaparecido do mapa. Num processo que ocorreu ainda durante o Estado Novo, centenas de pessoas tiveram de sair das suas casas e construir uma nova vida noutro sítio.

Ao Observador, Jaime Vitorino, um dos responsáveis pelo restaurante A Lampreia perto da barragem, recorda a localidade da Foz do Dão, onde conheceu a namorada e atual mulher. “Eu não morava lá, eu fui namorar para lá. Namorar é mais fácil do que morar”, brinca. Jaime conta que também trabalhou na construção da barragem entre 1974 e 1978 e fez serviços de carpintaria. Foi a trabalhar na barragem que viu a companheira: “Eu andava na barragem lá a trabalhar. E comecei a ver o passarinho e comecei a andar atrás da que hoje é a minha mulher”.

https://observador.pt/programas/reportagem-observador/a-barragem-ajuda-mas-a-serra-da-estrela-manda-muito/

No restaurante familiar que gere juntamente com os filhos Pedro e Vítor, há um quadro em azulejos que mostra como era a Foz do Dão antes de ficar submersa devido à construção da barragem. No escritório do restaurante, há ainda outra fotografia: uma tirada nos anos 30, na inauguração da Ponte Salazar, em homenagem ao ex-presidente do Conselho de Ministros. Aliás, o homem que governou Portugal durante 36 anos era natural da freguesia de Vimieiro, em Santa Comba Dão, muito perto da barragem da Aguieira.

A Ponte Salazar (não confundir com a de Lisboa, a atual 25 de Abril), que ligava Santa Comba Dão a Penacova ficou, tal como a aldeia, totalmente submersa com a construção da barragem. Em Foz do Dão, lembra Jaime Vitorino, havia ainda uma estátua do antigo presidente do Conselho de Ministros. E a casa onde nasceu o ditador que liderou Portugal estava apenas a 13 quilómetros da Foz da Dão — António de Oliveira Salazar esteve presente na inauguração da ponte com o seu nome.

O mau tempo na barragem da Aguieira e na região Centro: “Desde o Ano Novo, tem sido para esquecer, chuva sem parar”

De um lado, descargas massivas de água para aliviar a barragem. Do outro, um corpo de água relativamente calmo onde estavam localizadas várias aldeias, incluindo a Foz do Dão. O contraste entre a parte esquerda e direita não podia ser maior. A meio do dia desta quinta-feira, o céu estava nublado, com algumas abertas. Contrariamente aos restantes dias das últimas duas semanas, não chovia. Uma pequena pausa antes de mais chuva intensa, que se espera esta sexta-feira de madrugada.

Num briefing à imprensa esta quinta-feira à noite, a presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa previu que Coimbra poderia ser afetada por uma “cheia centenária”. Um dos motivos relaciona-se precisamente com o facto de a barragem da Aguieira “estar no seu limite”, passando a “a debitar toda a água que recebe”. A autarca justificou que estava “a chover muito” nas zonas que canalizam a água para a infraestrutura. E também na nascente do Mondego, na Serra da Estrela.

Com telemóveis na mão, várias pessoas tiravam fotografias às descargas de água na quinta-feira à tarde. Vital Campos também o fazia, revelando ao Observador vários detalhes sobre a história, geografia e a importância da barragem para o Rio Mondego: “O problema é que aqui há a barragem da Agueira, mas há outro rio, o Rio Ceira [afluente da margem esquerda do Mondego], desse vem água livre, não há barragens. Só conseguem controlar [o Mondego] com esta e com outra barragem mais pequena. Esta aqui é que segura a água. Até já se fala em fazer mais duas barragens a montante, na zona de Midões e Girabolhos, para esta até já deram autorização”.

Na barragem, a tirar fotografias, também estava Delfim Correia. Ao Observador, o homem natural de Carregal do Sal comentou que “só há muitos anos é que tinha visto a água a sair com tanta força” da barragem. “Quando ela encheu, as pessoas vinham ver esta quantidade de água”, recorda, definindo como “preocupante a quantidade de água que vai para o Vale do Mondego”, que causou, entre esta quarta e quinta-feira, a rutura de diques do Rio Mondego.

Perto da barragem fica a aldeia de Travanca do Mondego. Com galos a cantar e ovelhas a pastar, a pacata aldeia tem uma pequena igreja, onde esta quinta-feira ao meio-dia Maria do Rosário Palma tratava de uma árvore. Questionada sobre a barragem, a mulher relata que “tem-na visto a descarregar”. “Mas é raro descarregar assim, é quando há estas cheias. É só em último caso é que se descarrega.”

O mau tempo ajuda a explicar as descargas com chuva intensa e persistente. “O tempo aqui tem estado horrível. É telhados pelo ar, é uma inquietação. Aqui cheias não é um problema, porque estamos numa altitude elevada, o vento é que me preocupa”, salienta Maria do Rosário Palma, natural dali, de Travanca do Mondego. “A chuva tem caído todos os dias. Ontem [quarta-feira] estava um tempo terrível. E amanhã [sexta-feira] já vem chuva outra vez. Desde o Ano Novo, tem sido para esquecer, chuva sem parar”, lamenta.

Esta situação tem sido transversal a toda a região Centro, fustigada pelas tempestades Kristin e Marta. A chuva persistente levou a que várias bacias hidrográficas em todo o país ficassem sob pressão hídrica, em particular a do Mondego. Na localidade do Chamadouro, no concelho de Santa Comba Dão, Esmeralda (que preferiu não revelar o apelido) tratava do pequeno quintal esta quinta-feira juntamente com o marido. Ainda não foi ver a barragem de Aguieira praticamente cheia: “Ainda há o risco de que me caia uma árvore em cima”.

Queixa-se também do mau tempo que se tem feito sentir na região. “Tem sido muito água. Já estou com a cabeça cheia do que se vê na televisão, com a barba dos outros a arder, e agora até eu fiquei com medo“, especialmente do temporal que se sentiu na zona no sábado à noite, durante a passagem da tempestade Marta. “É muito complicado. Até tive medo de ir ao quintal”, desabafa.

Nova Foz do Dão. O bairro para onde foram as famílias da Foz do Dão

É a uma distância de nove quilómetros da barragem da Aguieira. Em meados dos 70, construiu-se o bairro da Nova Foz do Dão, para onde foram morar vários habitantes da aldeia submersa, quando começou a construção. Esta quinta-feira, na pequena localidade de Santa Comba Dão, reinava a tranquilidade apenas interrompida pelo barulho dos pássaros, cães e ovelhas. Raramente o som de um carro.

Na localidade, há vivendas grandes de variadas cores. Vários cães e gatos vagueiam pelas ruas. O Observador tentou encontrar na localidade quem morasse na Foz do Dão antes de ter ficado submersa; uma mulher até tinha vivido lá, mas não quis partilhar as memórias por estar doente. Maria Alice, de 93 anos, nunca morou na aldeia agora debaixo de água. Viveu em Angola até 1975, de onde veio, como afirma, “com uma mão atrás e à frente”.

Chegou apenas à Nova Foz do Dão após o 25 de Abril juntamente com o marido e os filhos, numa altura em que a barragem da Aguieira já estava a ser construída. “Nessa época, já havia gente a viver aqui que tinha vindo da Foz do Dão, mas não eram todos. Uns só chegaram depois”, recorda a mulher desde a varanda da sua moradia, com um grande terreno onde corria um gato branco.

As lembranças dos outrora habitantes da Foz do Dão têm-se vindo a desvanecer. Muitos daqueles que viveram na aldeia submersa ou adoeceram ou acabaram por morrer. Para Jaime Vitorino e os filhos, mesmo que nunca tenham vivido na localidade, é importante manter viva a memória de Foz do Dão.

Com 47 anos, e gerente do restaurante A Lampreia, Pedro Vitorino explica ao Observador que muitas pessoas tiveram de ir viver para outros sítios, especialmente para Nova Foz do Dão. “O meu avô foi o único que não quis e quis fazer uma casa aqui”, sublinha, aludindo à localidade de Chamadouro, ponto de passagem da Estrada Nacional 2. “A Nova Foz do Dão é um bairro que foi criado para as pessoas que saíram da Foz do Dão. Há algumas pessoas, pelo que sei e que não são da minha geração, que até já acabaram por sair de barco”, narra.

“Há muitos poucos moradores ainda vivos”, prossegue Pedro Vitorino, que ainda tem um “avô de 92 anos vivo” que viveu na original Foz do Dão. Quando as águas estão mais baixas, principalmente durante os meses de verão, ainda se vê parte da ilha. “Havia dois cemitérios, um mais antigo e um mais novo. O mais novo é o que aparece quando a barragem está mais baixa. Aliás, esta semana já se viu duas ou três vezes, mas a barragem está com uma amplitude muito grande: tanto desce como sobe.”

No escritório do restaurante, há várias fotografias de como era a Foz do Dão. Pedro Vitorino até tem um drone e tirou fotografias da parte da ilha que fica a descoberto. “Esta aldeia hoje, se estivesse habitável e se não existisse a barragem, quase de certeza absoluta que era o maior ponto turístico da cidade de Santa Comba Dão”, considera o homem de 47 anos.

O “doidinho” Mondego que traz a água da Serra da Estrela

Com o comprimento de 258 quilómetros, o Rio Mondego nasce na Serra da Estrela e desagua na Figueira da Foz. Jaime Vitorino, que vê o rio da janela do restaurante que o seu pai fundou, admite que o “Mondego é um bocado complicado”: “Quando a Serra da Estrela está cheia de neve, chegam estas chuvas quentes — como agora nestes dois dias — e o rio Mondego fica doidinho. Não há nenhuma barragem que o segure. A barragem de ontem [quarta-feira] para hoje [quinta-feira] está outra vez na quota máxima. Tem de se começar a descarregar”.

Para domar este rio, “a barragem ajuda muito”, concede Jaime Vitorino. Quando existia a Foz do Dão, as cheias eram frequentes. Em circunstâncias atmosféricas semelhantes àquelas que se fizeram sentir nas últimas duas semanas — chuva intensa e persistentes —, “o rio ficava doido, aquilo subia, era uma coisa demais”. E afetava naturalmente o restante distrito de Coimbra.

Coimbra, lembra Jaime Vitorino, também ficou totalmente alagada no passado, como em 1962, 1969 e 1979, em que o rio Mondego transbordou e causou cheias na cidade. As de 1979, o dono do restaurante ainda se recorda  como também afetaram Foz do Dão: “A barragem ainda estava em construção e veio uma cheia grande. Ninguém trabalhou. A Foz do Dão foi evacuada. Quinze dias sem ninguém poder passar e [a água] até galgou por cima da barragem”. 

Para o homem que encontrou o amor na Foz do Dão enquanto ajudava a construir a barragem da Aguieira, a “aldeia era bonita” e um “ponto turístico”. Entre a nostalgia de uma localidade submersa pela força da água e a barragem da Aguieira, Jaime Vitorino não tem dúvidas que a infraestrutura “ajudou muito a prevenir” as cheias. Mas poderá já não ser suficiente, principalmente quando o “São Pedro decide abrir as portas e as torneias” como aconteceu nas últimas semanas.

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