O novo filme de Khaouter Ben Hania acompanha as últimas horas de vida de uma menina palestiniana de seis anos que fugiu de Gaza com tios e primos num automóvel, a 29 de Janeiro de 2024, quando o bairro em que viviam recebeu ordem de evacuação das IDF israelitas. O carro foi metralhado, mas Hind Rajab escapou ilesa lá dentro, entre seis cadáveres, e com um telemóvel ligado na mão, já que uma prima tentara antes pedir socorro à organização humanitária Crescente Vermelho Palestiniano.
As conversas entre a menina e os socorristas duraram três horas, com múltiplas interrupções. A mãe da criança e um tio a viver na Europa, cientes da situação, procuraram quem pudesse acudir. Forçados desde o início da guerra a operar remotamente desde Ramallah, na Cisjordânia, a 80 quilómetros de Gaza, os socorristas do Crescente Vermelho tinham do outro lado da linha uma criança e tentaram tudo para salvá-la, gravando as conversas que se tornaram prova da sua luta pela vida. Chegaram a enviar dois paramédicos para salvá-la, e que por ela morreram quando a ambulância em que seguiam foi atingida. Até que a voz de Hind Rajab deixou de ouvir-se.
“Acima de qualquer outra pessoa, é graças à mãe da criança que este filme existe”, disse-nos Khaouter Ben Hania, em Veneza, no rescaldo da descoberta de A Voz de Hind Rajab, estreia emotiva como poucas, como aqui se deu conta. O filme é uma dramatização deste caso verídico e recorre às gravações áudio originais com a criança— decisão, no mínimo, controversa, pois claro. “A mãe pediu-me que a voz dela não fosse esquecida. Que todos a pudessem ouvir.” A partir desse momento, a cineasta tunisina pôs de parte a ideia de encontrar uma jovem atriz para interpretar a tragédia, “seria coisa de mau gosto, para não lhe chamar indecente”.
Kaouther já sabia em Veneza que “iria deixar a audiência desconfortável”: “Mas nada em Gaza é confortável hoje. Quando a mãe da criança me autorizou a usar as gravações, quando recebi do Crescente Vermelho um apoio incondicional, ganhei toda a validação moral que precisava. Estou pronta a discuti-la, mas para mim o problema não se coloca. É como se me dissessem que não podemos publicar o diário de Anne Frank para falar do Holocausto porque estamos a explorar o sofrimento da vítima e a publicação de um diário levanta problemas éticos. A voz de Hind Rajab, para mim, não é só uma voz, nem aquela voz em particular. É toda uma história inserida num contexto geopolítico. O mesmo contexto que matou aquela criança”.
[o trailer de “A Voz de Hind Rajab”:]
https://www.youtube.com/watch?v=hrssPpqv6vc
Disse na conferência de imprensa que teve uma reacção física violenta, visceral, quando ouviu a voz de Hind Rajab pela primeira vez. Este filme é uma resposta a esse sentimento?
É uma resposta ao desamparo, a um sentimento de impotência que continuo a ter face ao que está a acontecer à Palestina. Aquela voz, tão frágil, está a pedir ajuda. Perguntei-me, como cineasta, o que podia fazer para amplificá-la. Comecei por procurar o Crescente Vermelho. O esforço deles não é suficientemente reconhecido. Encorajaram-me a procurar a mãe e comecei a escrever o filme a partir destes encontros. Este filme foi-me imposto pela gravidade da situação, evoluiu espontaneamente, com uma grande energia à minha volta. Tinha outro projecto completamente diferente nas mãos, estava pronta para começar a rodagem. Ficou tudo em suspenso, por causa daquela voz.
Como é que se ensaia um filme destes com os actores? Sei que rodou na Tunísia, em estúdio…
…com actores palestinianos que vivem na Tunísia. Todos acabaram por trazer as suas próprias histórias para o filme. Todos ficaram tocados pela voz de Hind Rajab, como eu. A experiência foi muito imersiva para eles. Teve muito que ver com o estar ali, no momento, como se eles deixassem de ser intérpretes e fossem as pessoas reais.
Como assim?
Confrontei os meus intérpretes com uma equação muito difícil e paradoxal. Pedi-lhes que fossem fiéis ao guião e que repetissem a cada ensaio, palavra por palavra, as conversas que transcrevi das gravações originais. Cada actor estudou então o seu papel. Cada um deles sabia exactamente o que dizer e em que momento. Ao mesmo tempo, levei-os a acreditar que a experiência da interpretação tinha que ser vivida no presente, como se Hind Rajab ainda estivesse viva. Foi esta a técnica que encontrámos. Filmámos em longos planos-sequência, como se os telefonemas estivessem a acontecer. Isto é: filmámos A Voz de Hind Rajab como se fosse um documentário. Os actores não estão a “interpretar”, mas sim a viver uma situação além da performance, em que a voz da menina responde aos diálogos previamente estudados por cada um deles.
Foi uma rodagem longa?
Três semanas, em Novembro de 2024.
Sem deixar de expôr uma situação política, este fime contorna-a, de certa forma, para se focar no lado humano? A palavra Israel mal é pronunciada.
Porque não precisámos dela. Não quis slogans neste filme. Foi importante construí-lo a evitar esses clichés. A realidade já é suficientemente horrível pela ocupação, pelos tanques, pela morte. A narrativa foca-se, de facto, noutra coisa porque desmancha a ideia do senso comum de que Gaza é, toda ela, um dano colateral na batalha de Israel contra o Hamas. Ou seja: na narrativa oficial, os palestinianos não têm cara. Não têm nomes. É como se não existissem. São todos acusados de terrorismo e “têm o direito” de ser mortos. Este tipo de narrativa está disseminada no Ocidente e passa subterraneamente no discurso dos media em todos os telejornais. “Este filme, pelo contrário, tem o nome de uma pessoa no título: Hind Rajab. É importante: um nome. Representa um ser humano. Uma criança com pais, irmãos, família. Costumavam brincar na praia. Não é estatística. Não são danos colaterais.
Este filme está tão ancorado na realidade de Gaza como no cinema?
Está ancorado numa realidade que é um thriller e um horror show. Ao mesmo tempo, sou argumentista e cineasta. A narrativa interessa-me. Esta história tem todos os códigos do thriller ligados a elementos verídicos. Podia interessar a um filme de Hollywood sobre o resgate de uma criança. Só que — lá está — aqui temos a impressão de uma realidade. O filme constrói-se com os dois lados.
A Voz de Hind Rajab teve o apoio de um número excepcional de figuras da indústria cinematográfica, de Alfonso Cuarón e Brad Pitt a Jonathan Glazer e, mais recentemente, Joaquin Phoenix e Rooney Mara, que estiveram ontem nesta estreia em Veneza. Como é que eles se envolveram no filme?
Foi graças a uma iniciativa nossa, mal acabámos a pós-produção. Começámos a convidar e a mostrar o filme a várias personalidades, queríamos feedback, enfim, todo o apoio que fosse necessário. Depois desses visionamentos, todos eles se aproximaram de nós, por questões emocionais, de uma forma desinteressada. O Joaquin Phoenix e a Rooney Mara já tinham mostrado publicamente o seu apoio à Palestina. Nunca julguei que o filme os comovesse desta forma.

Houve alguma reacção ao filme por parte de Israel?
Oficialmente, não. Os meus produtores receberam imenso spam quando estávamos na pós-produção. Foi uma manobra de propaganda claramente organizada. Centenas e centenas de mails que acusaram o projecto de anti-semitismo. São pessoas que não sabiam realmente o que estávamos a fazer e que vão ficar defraudadas se algum dia virem o nosso filme.
[Quatro meses depois da entrevista de Veneza e dois dias antes da Academia de Hollywood anunciar os nomeados para os Óscares, a 22 de Janeiro, o Observador tornou à conversa com Kaouther Ben Hania, desta vez em Paris, nos encontros da Unifrance, actualizando o percurso do filme desde a sua estreia no Lido, o seu “contrato” com o espectador e, de novo, o debate ético que a obra levanta, pelo modo como é explorada uma forma de verdade alheia a todas as etiquetas do género biográfico]
O que aconteceu com o filme desde Veneza, que ecos teve noutros países? O cessar-fogo em Gaza, nesta guerra que, infelizmente, continuará, alterou de algum modo o percurso do filme até agora?
O apoio recebido em Veneza foi inacreditável, superou todas as minhas expectativas, e desde então tenho tido várias mini-Venezas um pouco por todo o lado, de San Sebastián ao BFI em Londres, à estreia especial no meu país, na Tunísia. No trabalho de promoção que temos feito junto do público acrescentámos outro, também importante, que visa exibir o filme a políticos e Governos, aos “decision makers”, como se diz. O filme foi projectado na sede da ONU e no Congresso dos EUA, assim como na Câmara dos Lordes, no Parlamento do Reino Unido. Foi antes exibido no Parlamento Europeu e passará, em breve, na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. Tentamos que cada instituição, cada plataforma, possa trazer um pouco mais de luz e visibilidade. Ansiamos, obviamente, por uma nomeação para os Óscares [que se confirmou, na categoria de Melhor Filme Internacional]. É muito importante para nós que este filme seja mostrado nos Estados Unidos: afinal, Hind Rajab foi morta por armas americanas.
Há uma pergunta que não lhe fiz em Veneza e que aproveito para fazer agora: várias vezes no filme é focado em grande plano o dispositivo gráfico do áudio da criança, como se fosse um daqueles diagramas infográficos do hospital que vão dando sinal de vida do paciente acamado, ligado às máquinas. Pensou nesta associação?
Devo essa ideia ao montador do filme, Qutaiba Barhamji. Foi isso que procurámos nesses planos: uma prova de vida. Há momentos no filme em que, para mim, se tornou importante fazer desaparecer a imagem, ficar apenas com o som, com o documento puro.
É um filme que se fabrica e se passa todo “na cabeça do espectador”, naquilo que não se vê mas se imagina. E o que está fora de campo, quer para nós, quer para as personagens do Crescente Vermelho, é a angústia, a impotência.
Quando decidi que ia partir das gravações verídicas, perguntei-me de qual ponto de vista poderia contar esta história. Porque havia vários à escolha. Estar no carro com a menina pareceu-me impossível. Podia ter contado o filme a partir do ponto de vista da mãe. Ou do condutor da ambulância em Gaza. Seriam filmes completamente diferentes. A maior dificuldade foi encontrar uma distância respeitosa, justa e, em simultâneo, dramaticamente valiosa. Escolhi então colocar a câmara no lugar daqueles que ouviram a menina e tudo fizeram ao seu alcance para salvá-la. Este assunto levanta outro porque eu não faço parte dos realizadores que pensam na violência em termos gráficos. Acho que ela pode ser estrutural, sistémica, segundo o espaço que lhe damos. Mas a violência gráfica não é para mim. Em Paris ou em Lisboa, se uma criança liga para o 112 tem uma ambulância à porta alguns minutos depois. Na Gaza ocupada não é assim. A ocupação impôs uma série de barreiras e procedimentos complexos para os humanitários, eles nunca sabem se têm à sua frente um sinal verde, uma estrada segura, ou mais uma barreira. A equipa do Crescente Vermelho perdeu os dois paramédicos que tentaram prestar socorro na ambulância. Quis que esta forma de violência fosse igualmente sentida no filme.
Mais do que uma questão ética, não acha que este filme interroga indirectamente a relação de cada espectador com o próprio cinema e com a verdade? O filme provoca uma confrontação directa com a realidade.
Gosto muito dessa palavra: confrontação. Sei que este cinema não é confortável. Há pessoas que preferem rejeitar as emoções que o filme provoca, nomeadamente pelo uso da voz da criança. Mas o filme não deixa de ser uma construção, uma coisa fabricada, pelo facto de ter usado actores, de ter filmado o Crescente Vermelho em estúdio, na Tunísia, com actores palestinianos, etc. Já fiz alguns filmes na fronteira entre géneros, gosto dessas linhas desfocadas. A Voz de Hind Rajab também é assim. Quando andamos na Terra, não vemos as fronteiras. Elas só existem nos mapas.
Tento contar cada história da melhor forma possível – mas nunca da forma mais fácil. Cada filme obriga-me, à partida, a uma busca formal que me coloca questões. E depois arrisco e faço um contrato muito claro com o espectador, expondo-lhe o mecanismo do filme. O uso da voz real de Hind Rajab é um risco. O recurso aos actores que interpretam a equipa do Crescente Vermelho é um risco. Há um momento em que a personagem de Mahdi M. Aljamal [interpretado por Amer Hlehel] diz que pede a demissão se uma nova foto de uma criança morta for afixada na parede. E isso aconteceu na realidade, ele demitiu-se. Sabia que não poderia filmar com o Mahdi. Precisava de um actor para interpretá-lo.
A parte final, em que deixamos a encenação para as imagens em bruto de Gaza, não é também uma maneira de dizer-nos que estamos a “sair” de um filme, de um trabalho de mise en scène, tal como o descreveu?
É uma maneira de deixar um filme que foi visto pelo espectador a partir de um lugar confortável, numa sala de cinema e, ao mesmo tempo, uma indicação — ou uma lembrança — de que a realidade, sobretudo no que ela tem de mais doloroso, ultrapassa qualquer imaginação. Por causa de tudo o que criámos antes, aquelas imagens em bruto têm outra carga muito diferente da que teriam se as víssemos em “scroll” nos telemóveis. Isso prova-nos que o cinema ainda é um instrumento poderoso.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.