“Fomos para o corredor, que era o único sítio onde não havia vidros“. “Eu senti preocupação com o bebé que está na barriga da minha mãe e perguntei se o meu maninho estava bem”. “O meu pai foi a correr à empresa buscar um gerador para a minha avó, que precisa de uma máquina para respirar“. “O meu gato voou“. As partilhas são feitas em catadupa por alunos de uma turma de 3º ano da Escola Básica de Santa Catarina da Serra, no concelho de Leiria. Sentados em pequenas cadeiras laranja, os cerca de 20 alunos respondem com entusiasmo às perguntas da psicóloga Cátia Reis sobre a madrugada em que a tempestade Kristin trouxe ventos recorde que semearam a destruição na região centro do país.
Os dedos lançam-se para o ar a cada pergunta da psicóloga, mas as vozes começam a ouvir-se ainda antes de lhes ser dada a palavra. Todos têm algo para contar, o que leva a alguns atropelos nos relatos. “Eu acordei por causa do vento e fui para o quarto do meu pai”, começa a contar um rapaz, antes de ser interrompido pelo colega. “Quando saí da minha casa estava tudo destruído”, conta o segundo à turma.

A sessão da manhã desta quinta-feira com a psicóloga Cátia Reis e com a terapeuta da fala Cátia Santos faz parte de uma série de encontros promovidos pela Câmara Municipal de Leiria. O projeto é parte da iniciativa “Reerguer Leiria”, que se destina a recuperar a região após a passagem da Kristin. “Percebemos que era importante ver a tempestade pelos olhos das crianças, pelos seus desenhos, pelas suas reflexões“, explica ao Observador o responsável pelo projeto, Pedro Cordeiro. Assim surgiu o “Abraços que cuidam”, uma atividade de “prevenção” para as crianças exporem e aprenderem a lidar com o que viveram.
“A nossa missão é fazê-los falar sobre o que sentiram — e só isso já é terapêutico — e em segundo lugar ensinar-lhes estratégias e dar-lhes ferramentas para eles usarem em situações futuras onde possam haver situações de ansiedade”, diz o psicólogo e adjunto da vereadora da Educação no município de Leiria. A ideia é ser uma sessão única nas escolas do concelho, mas a equipa que lidera não exclui a hipótese de acompanhar mais de perto alunos que sejam sinalizados durante estes encontros. “Algumas crianças podem exibir alguns sinais que nos criam algum alarme, que nos dizem que esta criança pode estar num sofrimento prolongado ou agudo perante uma situação que tenha vivido. Podemos ter casos de alunos que perderam entes queridos, a habitação, em que as crianças são deslocadas das suas casas”, exemplifica.
“A barriga começou a doer”, “fiquei nervoso e chorei”. O que sentiram as crianças durante a tempestade Kristin?
“Todos aqui ouviram os ventos fortes da tempestade?” É uma das primeiras perguntas que Cátia Reis lança à turma de 3.º ano. Passa pouco das 11h e apenas cinco mãos ficam para baixo, os restantes acordaram de madrugada com o barulho dos ventos, telhas a soltar-se dos telhados, árvores, postes e sinais de trânsito a cair. Muitos refugiaram-se nos quartos dos pais. Pergunta número dois: Alguém da vossa família saiu durante a tempestade? A resposta: vários pais saíram para ver o que estava a passar. “E vocês acham que é seguro?”, pergunta então a psicóloga, com a turma a responder em coro com um ‘não’.
Depois de alertar para os perigos de sair durante uma tempestade como a que assolou o centro do país, Cátia Reis passa à questão central: as emoções. “Eu tive medo e a barriga começou a doer“, “fiquei nervoso e chorei“, “comecei a tremer muito“, recordaram as crianças. O nosso corpo dá várias respostas quando sentimos medo ou ansiedade, enquadra a psicóloga, enquanto a terapeuta da fala Cátia Santos vai listando no quadro branco as emoções enumeradas.
Os aspetos negativos são óbvios para o grupo de alunos: desde o pai que ficou “irritado” à mãe que “quase” foi atingida por uma telha que caiu. “Mas a tempestade só trouxe sentimentos e pensamentos maus?”, questiona de seguida a psicóloga. A resposta imediata entre a turma é um ‘não’, no entanto, depois de alguma insistência, chegam as visões de um copo meio cheio. “Trouxe pelo menos uma coisa boa: não aconteceu nada à minha avó”, responde uma rapariga. “Eu pensei que o meu pai consegue concertar coisas e, por isso, quando viesse, podia concertar a casa da minha avó”, diz outra. Há ainda um rapaz que partilha que o cão das colegas de turma, gémeas, fugiu pelo portão e foi parar à sua casa, onde ficou até ser seguro sair. Há também muitas histórias de quem foi ajudar os pais e avós a reparar os estragos.
Isso mesmo retrata uma das alunas na segunda etapa da sessão: desenhar o que viveram naquele dia. Com algumas exceções, a maioria adere à ideia, o que deixa a professora da turma surpreendida. “Quando lhes peço não querem”, admite. O desenho da rapariga é apresentado perante a turma em frente ao quadro. A folha branca foi dividida ao meio com um traço: um antes, um depois. Na metade esquerda a aluna desenhou a sua casa, com vista para o quarto, onde estava a dormir, e a chegada da mãe durante a tempestade para a acalmar. Na metade direita rabiscou a casa da avó, com um buraco no telhado. “Eu consegui ir para a casa da minha avó e ajudar”, apontou ao lado. “Cadê a internet? Cadê a luz? Socorro, ajuda! Isto e louco! Tá a cair tudo! Ai meu Deus, sem palavras!”, rabiscou outro ao lado do desenho do seu prédio.




Há quem tenha preferido escrever. “Os barrotes do vizinho partiram os meus vidros e fomos para o corredor, que era o único sítio onde não havia vidros. Até o meu pai pensava que os vidros da sala iam rebentar”, recita um rapaz, explicando que sentiu medo, nervosismo, preocupação e admiração, mas também se sentiu protegido pelos pais. “Não há emoções certas ou erradas”, sublinha Cátia Reis antes de passar ao próximo passo: dar à turma ferramentas para lidar com situações de medo ou ansiedade.
“Larguem tudo o que têm nas mãos, coloquem-se numa posição confortável e fechem os olhos”, pede a psicóloga. Há quem apoie a cabeça sobre as mãos, outros encostam a cabeça na cadeira. “Vamos imaginar que estamos numa nuvem muito fofinha, de algodão doce, cada um tem a sua. E agora vamos inspirar pelo nariz, encher os nossos pulmões de ar, guardar e depois soltar”.

Veem-se rostos sérios por toda a sala, a inspirar e a expirar. O exercício é repetido quatro vezes. Cátia Reis explica que esta técnica pode ajudar em situações como a tempestade que se viveu, mas também durante um teste ou quando há um conflito na escola. “Isto deu-me sono”, reage um rapaz, provocando gargalhadas na sala. “Deixou-te relaxado. Vão ver que vão estar mais calmos e tranquilos”, conclui a psicóloga.
Câmara Municipal de Leiria quer chegar a 4.500 alunos, incluindo do 2.º ciclo e secundário
Faltam poucos minutos para o toque da campainha que liberta as turmas da Escola Básica de Santa Catarina da Serra para o almoço. Antes de se despedirem, a psicóloga e a terapeuta da fala deixam um último desafio, o mesmo que já tinha dado início à sessão: uma corrente de abraços. “Conhecem a expressão um abraço vale mais do que mil palavras?”, perguntam. A ideia é que, começando pelas técnicas, perguntar ao vizinho do lado se lhe pode dar um abraço, sucessivamente até chegar ao último aluno. Apenas um se recusa, mas não há insistência. “A atividade respeita a criança e os sinais que nos dá em sala de aula de querer ou não fazer as atividades”, sublinha no final da sessão Pedro Cordeiro.

O responsável do projeto explica que as sessões arrancaram na quarta-feira para chegar a todas as turmas de pré-escolar e primeiro ciclo no concelho de Leiria. Para isso estão a recorrer aos 16 profissionais da equipa do Plano Intermunicipal de Promoção do Sucesso Escolar, composta por psicólogos, terapeutas da fala, mediadores socioeducativos e assistentes sociais. Os técnicos estão a começar pelas turmas onde estão inseridos alunos que já acompanham. Na impossibilidade de chegarem a todos, está a ser feita a proposta de os próprios professores desenvolverem as atividades da sessão.
Pedro Cordeiro explica que o objetivo é chegar a 118 turmas do pré-escolar e primeiro ciclo, mas também alargar o projeto às 170 turmas de segundo ciclo e secundário. Prevê-se iniciar essas sessões, já mais voltadas para atividades de grupo, a partir de sexta-feira. Esperam chegar a um universo de cerca de 4.500 alunos. “Temos cerca de 10% destas turmas já com atividade, sendo que só estivemos no terreno ontem e hoje. Contamos que até ao final da próxima semana tenhamos a maior parte se não todas as escolas de pré-escolar e primeiro ciclo com atividade implementado. No segundo ciclo e secundário, até ao final do mês”.
A ideia é uma sessão única, mas o responsável do “Abraços que cuidam” e também psicólogo não exclui o acompanhamento de alunos em que seja sinalizada a necessidade de um acompanhamento mais próximo. “Nesse caso a equipa sinaliza, pode conversar com o professor e se tiver lugar nas suas listas de acompanhamento a criança poderá eventualmente ser apontada para acompanhamento ou para uma resposta adequada que exista na comunidade. Estamos atentos”, garante.
A esse propósito o psicólogo sublinha a importância de toda a comunidade escolar — professores, assistentes operacionais, pais — estarem nos próximos tempos atentos a vários sinais. Por um lado os sinais emocionais, a tristeza; o choro persistente; dificuldade recorrente em adormecer ou pesadelos; medo de ficar sozinhos; a procura de colo de uma forma que até agora não era pedido ou a recusa em ir à escola. Por outro lado, os sinais físicos, desde dores de cabeça ou de barriga a alterações do apetite, bem como dificuldades de concentração ou maior irritabilidade dos alunos e conflitos mais persistentes com os colegas.
Pedro Cordeiro explica que perante estes sinais é importante os pais e elementos da escola estarem em contacto para perceber se se verificaram em ambos os meios. Além disso, refere, pode ser necessário falar com os especialistas das equipas que acompanham as turmas. “De forma geral é importante recuperar a rotina logo que possível. Foi uma enorme prioridade do município de Leiria abrir as escolas porque esta é a sua rotina”, sublinha.
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