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(A) :: "Privatização só é possível porque fizemos coisas difíceis". Ex-CEO da TAP diz que escutas a Costa provam que foi usada como "escudo"

"Privatização só é possível porque fizemos coisas difíceis". Ex-CEO da TAP diz que escutas a Costa provam que foi usada como "escudo"

Três anos depois do despedimento, Christine Ourmières-Widener ainda espera o encerramento do caso. A ex-CEO da TAP espera que seja possível um acordo até porque, diz, cumpriu o que lhe foi pedido.

Ana Suspiro
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Alexandra Machado
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Diogo Ventura
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Larissa Lewandoski
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Beatriz Martins
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Mariana Sousa Aguiar
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Saiu da TAP despedida pelo Governo de António Costa. Levou a contestação desse despedimento para o tribunal, onde há três anos permanece sem evolução. Christine Ourmières-Widener, ex-presidente da TAP, revela ao Observador que espera que o caso termine e admite um acordo com a TAP, assim a empresa esteja disponível para isso. A gestora mantém a sua defesa de que o despedimento foi ilícito e sem razão, demonstrado na entrega de resultados que diz ter conseguido e lançado a possibilidade de a empresa poder ser privatizada.

Depois de escrever um artigo de opinião no Expresso, Christine Ourmières-Widener acredita que foi um alvo político, “um bode expiatório”. “Fui usada como escudo político” e espera que se comece a olhar para o que diz serem os factos e não os rumores. A gestora, que trabalha numa empresa britânica ligada ao hidrogénio para a aeronáutica, admite que a sua vida profissional e pessoal ficaram contaminadas com o caso em Portugal. E, por isso, dificilmente voltaria à TAP. Em Portugal mantém amigos e admite que ainda é reconhecida nas ruas até “mesmo sem os óculos”.

Depois de feita esta entrevista foi conhecida a decisão do Tribunal da Relação que deu razão à defesa da ex-presidente da TAP na escolha de um tribunal cível para apresentar a ação contra a companhia aérea. Ainda não há qualquer decisão sobre a ação principal. 

https://www.youtube.com/watch?v=nF_sQ5yYH6A

Esteve em silêncio durante dois ou três anos, depois de sair da TAP em 2023. Porque é que decidiu falar agora?
Dei uma entrevista um ano depois da minha saída [à CNN Portugal], que se centrou talvez um pouco demasiado na forma e menos no conteúdo. Ao fim de três anos, para mim, é o momento certo para garantir que as pessoas compreendem ou recordam os factos, num processo em que não houve qualquer progresso. Portanto, é a altura certa para regressar aos factos, mais do que a qualquer outra coisa.​

Qual é o ponto de situação do processo judicial?
Não vou comentar o processo, mas não houve qualquer progresso até agora.​

Depois de ter instaurado uma ação contra a TAP, em que reclama 5,9 milhões de euros de indemnização, não aconteceu nada desde então?
Não, nada aconteceu.​

Tentou negociar um acordo com a TAP? É possível chegar a um acordo?
Bem, no mundo empresarial é sempre possível haver conversas e chegar a um acordo quando se quer uma conclusão.​

Mas está disposta a chegar a um acordo?
Sempre estive disponível para me sentar à mesa e encontrar uma solução, porque, para mim, uma das razões pelas quais estou a falar hoje é precisamente o facto de, passados três anos, não haver qualquer conclusão. E acho muito difícil aceitar que, ao fim de três anos, não se tenha chegado a qualquer acordo ou conclusão, depois de acontecimentos que não foram fáceis para ninguém.​

Neste momento existe alguma negociação em curso?
Não há qualquer negociação em curso.​

A TAP está interessada em negociar? Já tentou abordar a empresa?
Penso que cabe à TAP responder a essa pergunta.​

Mas da sua parte houve tentativas? Acredito que do seu lado tenha havido iniciativas…
Acho que, em qualquer situação deste tipo, isso é possível. Mas até hoje nada aconteceu. Seria muito positivo ver essa situação mudar no futuro.​

Tentou falar apenas com a TAP ou também com o Governo?
Neste momento, o processo é com a TAP. Mais uma vez, cabe à TAP clarificar a sua posição.​

Além dessa ação cível, existe em Portugal uma investigação do Ministério Público sobre o pagamento da indemnização a Alexandra Reis. Já foi ouvida nessa investigação?
Ao longo deste processo passei por várias fases e reuni‑me com várias entidades. A única coisa que posso dizer é que os factos são claros. Todo este processo foi conduzido por advogados em quem confiava. Eram advogados que trabalhavam para a TAP há anos, que me aconselharam e em quem confiei.​

Tem falado com o Ministério Público sobre este caso?
Recentemente não. Mas estou aberta a responder a quaisquer perguntas. O facto é que me limitei a seguir o aconselhamento de especialistas, alguns dos advogados mais reputados do país. Sendo estrangeira, sei que algumas pessoas esperam que um CEO saiba tudo, mas, no mundo empresarial, se quer ser um verdadeiro líder tem de se apoiar em especialistas nas suas áreas. Quando se lida com processos complexos ou sensíveis, é fundamental recorrer a verdadeiros especialistas. E, neste caso, eram advogados absolutamente competentes para aconselhar o CEO de uma companhia aérea nacional.​

Baseia a sua defesa nesses argumentos?
Não posso comentar o processo em si. Creio que tudo foi devidamente exposto, mas não posso comentar o processo judicial.​

Pediu 5,9 milhões de euros nessa ação. Em que se baseia esse montante?
Isso já foi explicado e resulta da combinação de vários fatores. Mas o importante, para mim, é que este processo não serve para procurar uma nova narrativa jurídica; serve para garantir que se chega a uma conclusão e que os factos são reafirmados. O processo foi conduzido com recurso a especialistas e eu própria fui ao Parlamento explicar os factos. Foram ditas muitas coisas que não correspondem à verdade, tentando também afetar a minha reputação. Tenho‑me limitado a recordar os factos, de acordo com o aconselhamento que recebi, e é por isso que estamos aqui hoje: para voltar ao que realmente aconteceu e garantir que as pessoas o conhecem. Para mim foi também surpreendente que, após a minha última entrevista, as escutas telefónicas que foram publicadas entre o primeiro‑ministro e o ministro das Infraestruturas…​

​O antigo primeiro‑ministro, António Costa?
Sim.​ Essas escutas não foram propriamente grandes manchetes, mas voltaram a provar que eu fui usada como escudo político – ou escudo humano, se quiser – porque nada disto [a sua demissão de presidente da TAP] teve que ver com a minha competência enquanto CEO de uma companhia aérea. Foi o Governo a usar-me como escudo político num momento difícil para o Governo. Pessoalmente, gostaria que as escutas pudessem ser utilizadas como meio de prova, uma vez que são claras quanto aos motivos que levaram à minha saída. No entanto, tal como referido anteriormente, não posso comentar nem detalhar processos judiciais em curso.

Em relação à ação que apresentou?
Mas até agora, nada aconteceu. É por isso que estou aqui hoje.​

Vê‑se como uma vítima política?
Sim, essencialmente. Vejo‑me como um “bode expiatório” ou escudo político numa situação que nada teve que ver com a minha performance. Entreguei os melhores resultados da história recente da empresa. Fizemos coisas muito difíceis durante o meu mandato na TAP, mudanças e transformações que eram pré‑requisito para qualquer privatização, que hoje é possível. Isso só foi possível porque fizemos coisas difíceis, como a resolução da situação da Groundforce e da manutenção no Brasil, dois dossiês prioritários para o Governo antes de qualquer privatização.

“Sem uma investigação concluída” é difícil tirar conclusões sobre negócio de Neeleman com Airbus

Recuando um pouco à questão da ação judicial que apresentou. Disse que isto era um problema político. No entanto, a ação foi apresentada contra a TAP e não contra o Governo. Porque não tentou contestar a decisão do Governo?
Porque o meu empregador era a TAP. O meu vínculo laboral era com a empresa. É lógico que, quando temos um empregador, é a esse empregador que nos dirigimos. Não me vejo diferente de qualquer outro cidadão em Portugal que trabalha para uma empresa e, a certa altura, perde o emprego em condições que, no meu caso, foram muito invulgares. A responsabilidade pelo meu contrato era da empresa.

Há outra investigação criminal relacionada com a TAP, sobre os fundos da Airbus e o acordo feito na altura em que a TAP era privada, que alegadamente penalizava a companhia devido a um acordo com o antigo investidor David Neeleman. Sabe alguma coisa sobre essa investigação? Falou com as autoridades sobre isso?
Não tenho qualquer informação adicional. A única coisa que posso dizer é que, quando se é CEO de uma empresa como a TAP, com uma longa história e da qual o país se orgulha – e com razão, pelo papel que a TAP tem e terá para Portugal –, é preciso perceber exatamente o que aconteceu e porquê. A minha administração decidiu pedir uma investigação, naturalmente com a aprovação do Governo, porque nenhuma grande decisão estratégica é tomada numa empresa como a TAP sem aprovação e discussão com o único acionista. Essa investigação tinha também como objetivo permitir ao país compreender o que aconteceu e que interesses estiveram em jogo. Mas estas investigações são muito longas e exigem muita documentação.

É preciso pedir informação à Airbus, o que não é fácil…
Sim. Foi preciso pedir informação a todas as partes. E, como pode imaginar, não tenho qualquer atualização.

Foi um mau negócio?
Há questões em aberto. É muito difícil, sem uma investigação concluída, dar uma resposta taxativa. O acionista tinha dúvidas e não obteve todas as respostas. A ideia era garantir que dispúnhamos de todos os factos, com total transparência, porque existem muitos parâmetros que podem influenciar aquilo que se observa depois, já dentro da empresa, quando não se conhece toda a história e nem toda a documentação está disponível. Como em qualquer investigação, é muito importante esperar pelas conclusões.

Do ponto de vista de uma ex‑CEO da TAP, é melhor ter os novos aviões Neo ou os A350 [que David Neeleman trocou]?
É uma pergunta muito difícil. As companhias aéreas são definidas pela rede que têm de servir. Não posso responder de forma absoluta; depende completamente da estratégia de rede. E já não conheço em detalhe a estratégia de rede da TAP, que entretanto evoluiu.

Mas, quando era CEO, preferia ter os A350 ou os Neo?
Quando cheguei, a estratégia de rede já estava construída com base no tipo de aeronaves que tinham sido adquiridas. Se a estratégia e a rede estão definidas em função de um determinado tipo de frota, não se muda tudo de um dia para o outro. A rede já refletia o tipo de aeronaves que operávamos. Se a empresa evoluir para outra estratégia, talvez a escolha seja diferente. Mas a investigação sobre este tema era mais ampla: incluía o tipo de aeronave e os custos. Espero que, um dia, haja conclusões claras.

“Nunca houve qualquer dúvida de que estávamos a fazer o trabalho e a cumprir o que o Governo nos tinha pedido”

Mesmo antes do que ficaria conhecido como o “caso Alexandra Reis”, a sua gestão já era criticada publicamente. Saíam muitas notícias negativas nos jornais. Acha que conseguiria ter continuado na TAP se não fosse esse caso?
O meu mandato foi muito difícil, e eu sabia isso desde o início. Quando se dá à gestão de topo uma missão muito dura, é difícil ser 100% popular junto de toda a gente. Eu sabia disso desde o começo. Não quer dizer que não desejasse ser popular – toda a gente gosta de o ser –, mas eu tinha uma missão. O mandato era exigente. Quando cheguei à TAP, a primeira tarefa era conseguir que o plano de reestruturação fosse aprovado pela Comissão Europeia. Isso devia ter acontecido quando cheguei, mas não estava aprovado. Demorou seis meses, em paralelo com a gestão da empresa, para obter essa aprovação, e foi um processo difícil. Tive de trazer especialistas que vieram apoiar a TAP.

Especialistas estrangeiros…
Sim, especialistas estrangeiros. Estes processos são muito técnicos e exigem peritos habituados a lidar com temas centrais para a Comissão Europeia. E não são apenas questões financeiras. Os “slots” em Lisboa [que a TAP teve de ceder a outra companhia] eram um dos temas e é preciso experiência concreta neste tipo de dossiês. Trouxemos essa experiência e, mais tarde, essas equipas saíram. Foi positivo, porque no fim o plano foi considerado exequível, compatível com a sobrevivência da companhia e com o papel da TAP para o país e para o aeroporto. Essa foi a primeira fase, difícil, porque em simultâneo tínhamos de gerir a empresa e começar a entregar resultados.

Criou inimigos dentro da TAP…
Quando se aplicam cortes salariais tão profundos, é fácil imaginar o quão difícil é. Mas não havia alternativa. Era o mandato, era o plano, e o Governo era muito firme em não nos deixar desviar do que tinha sido acordado. Essa era a minha missão, absolutamente exigente. Naturalmente, nem todos apoiavam os cortes salariais e as poupanças necessárias, mas tínhamos de executar o plano.

O que foi mais difícil? Lidar com a Comissão Europeia, com os sindicatos ou com o Governo?
São realidades muito diferentes. A Comissão Europeia tem uma metodologia. É previsível, tem regras claras, e trabalha‑se em função dessas regras.

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Então, foi mais difícil lidar com o Governo ou com os sindicatos?
São difíceis de forma diferente. O Governo, enquanto acionista, queria estar ao corrente dos grandes temas, dos assuntos sensíveis, das decisões estratégicas. Foi uma relação muito intensa, como é natural quando se vive em crise permanente, porque é preciso decidir, reagir, compreender. Mas foi uma relação muito profissional, embora exigente, como deve ser quando é preciso garantir que as decisões são as certas. Com os sindicatos também foi muito intenso, mas por razões diferentes. Quando se está numa situação de cortes salariais significativos, é natural que os sindicatos tentem sempre obter mais ou antecipar o fim desses cortes. O meu mandato foi muito duro porque eu não tinha margem de manobra. Tínhamos assinado um acordo com a Comissão Europeia que impunha a manutenção dos cortes durante um certo período, e o Governo, tal como a equipa executiva, estava determinado em cumprir o que a Comissão exigia. Isso não significa que não compreendêssemos as reclamações. Passei muito tempo com os sindicatos, sempre disponível para explicar a situação e a origem de cada decisão.

Quando sentiu que perdeu a confiança do Governo?
É uma pergunta interessante. Não tenho a certeza de que tenha perdido essa confiança.

Nem no fim?
Nunca houve qualquer dúvida de que estávamos a fazer o trabalho e a cumprir o que o Governo nos tinha pedido. Não nos desviámos em momento algum do plano definido pelo acionista. Por isso, não se tratou da nossa performance ou da confiança na nossa capacidade de executar. Tratou‑se de uma situação política que levou o Governo a tomar a decisão que tomou. A confiança na nossa capacidade de executar o plano ficou demonstrada pelos resultados de 2022 da TAP, que foram excecionais e surpreenderam toda a gente, mesmo que eu não tenha podido participar na apresentação pública desses resultados.

Foi impedida de fazer essa apresentação?
Digamos que a realização de uma apresentação pública não estava, digamos, prevista. É a forma mais delicada de o dizer. Fazíamos apresentações regulares, mas, nesse caso, não houve uma sessão pública como seria habitual. No fim do dia, foi uma decisão tomada. Para mim, a forma como tudo foi gerido poderia ter sido diferente.

Deveria ser uma decisão da empresa, e não do Governo, apresentar ou não os resultados?
Sim, deveria caber à empresa decidir. Mas era um momento muito difícil. As decisões não eram fáceis, havia turbulência e muito ruído.

Quem a desiludiu mais, a nível pessoal, no Governo?
Como CEO é preciso ter muito cuidado para não levar as coisas para o plano pessoal. Se começarmos a fazê‑lo, torna‑se muito difícil progredir. Com a experiência, ganha‑se capacidade para tomar distância e tentar compreender melhor como é que as pessoas decidem. Eu não sou um “animal político” e nunca serei, porque isso não é quem eu sou. As minhas decisões baseiam‑se em factos e aconselhamento especializado. Gosto de ver resultados e pessoas a cumprir o que assumem. Quando se sai de uma empresa, isso pertence ao passado. Eu quero olhar em frente, para aquilo que vem a seguir na minha vida, pessoal e profissional. Mas julgar pessoas é complicado, porque não conhecemos a sua vida nem tudo o que pesa nas decisões. O que quero dizer é que é muito importante ficar nos factos, em tudo o que se vê e decide.

“Fico muito satisfeita por ver que conseguimos colocar a companhia na trajetória certa”

Ainda acompanha o que a TAP faz?
Claro.

Como vê a evolução financeira e operacional da TAP neste momento?
A TAP continua a ter lucros. Fico muito satisfeita por ver que conseguimos colocar a companhia na trajetória certa, com bases sólidas que ainda hoje existem. O ambiente continua a ser muito difícil e espero que a TAP consiga continuar a melhorar as margens e a avançar nos processos estratégicos em curso. Da minha parte, desejo à TAP o melhor.

A TAP conseguiria manter a rentabilidade, assegurando ao mesmo tempo rotas de serviço público, se ficasse fora de um grande grupo europeu?
A decisão estratégica hoje é diferente. O acionista tomou uma decisão e foi muito claro na forma como queria avançar.

Foi uma decisão tomada também no seu tempo.
Exatamente. E eu fui quem iniciou o processo com o Governo. Essa articulação é muito importante. Depois, as condições, as discussões e o formato do acordo de acionistas serão certamente avaliados pelo acionista, que terá em conta o que é mais importante para o país.

Trabalhou um pouco no processo de privatização. Qual dos três grandes grupos europeus interessados na TAP seria, no seu entender, o melhor encaixe?
Não estará à espera que eu responda diretamente a essa pergunta.

Pode, pelo menos, dar algumas pistas sobre o que é importante.
Acho que o acionista já identificou os elementos essenciais e tomará a sua decisão. Seria muito difícil, e também sensível, da minha parte estar agora a comentar. O que desejo é que, qualquer que seja a decisão, seja a melhor possível.

Surpreende‑a que haja apenas três concorrentes europeus? No seu tempo esperava investidores de outras partes do mundo, fora da Europa?
Há limitações à estrutura acionista quando não se é europeu, e essa é a principal razão. Isso restringe a entrada de companhias de fora da Europa. Mas, como se vê em alguns grupos europeus, isso não impede que existam parcerias. Veja‑se o grupo Air France‑KLM, com a Virgin Atlantic e a Delta, ou o caso da IAG, cotada em bolsa. Quando se integra um grupo cotado, o leque de investidores é diferente. Hoje o cenário mais credível passa por grupos europeus, mas isso não significa que, no futuro, não possa evoluir. Essa será uma escolha do futuro acionista, em articulação com o Governo.

Escreveu um artigo no Expresso em que diz, e cito, “uma vida e a sua verdade ficam suspensas enquanto o sistema hesita”. Quando recorreu aos tribunais portugueses, certamente foi avisada de que os processos em Portugal levam anos. Porque diz que a sua vida está em suspenso?
Em primeiro lugar, não é por ser do conhecimento comum que a justiça é lenta que temos de aceitar isso como normal. Uma justiça que não decide… acaba por decidir ao não decidir. Qualquer acontecimento desta dimensão na vida profissional leva‑nos a querer que a verdade seja conhecida. Há comentários que não têm resposta, factos que não são verdadeiros e circulam no espaço público. Queremos que isso seja completamente concluído com os factos e a justiça feita.

Mas sabia que ia demorar anos.
Sabia que não seria algo imediato. Mas, a certa altura, deveria haver algum progresso.

Continua a acreditar num desfecho favorável à sua ação?
Claro que sim. Porque acredito que a verdade se tornará mais visível e que os factos acabarão por ter mais peso do que rumores ou boatos.

Confia no sistema de justiça português?
Temos de confiar na justiça, de alguma forma. Depois, podemos discutir se é suficientemente célere ou não. Mas acredito que as pessoas, no fim, julgarão com base em factos e não em rumores ou em elementos que não podem ser comprovados com documentos ou factos.

Também escreveu que o caso “corrói uma reputação profissional construída ao longo de décadas e arrasta os seus planos pessoais e familiares”. A sua carreira foi comprometida pela TAP e por todo este processo?
Quando se conhecem pessoas que não me conhecem, elas vão procurar informação nas redes ou na internet. E, claro, fazem perguntas. Nunca tive uma reunião com alguém que não me perguntasse o que aconteceu, se podia explicar o processo, etc. É uma questão recorrente: “O que se passou?” “Pode explicar‑me?”. Portanto, sim, tem impacto. Também consome tempo. Não digo que o impacto seja sempre ao mesmo nível, porque o “ruído” também muda com o tempo, mas, neste momento, o que quero é que se volte ao essencial: perceber o que realmente aconteceu e qual deveria ser o desfecho.

Quando entrou "a situação era extremamente difícil. Havia muitos problemas por resolver, crises em quase todos os departamentos. Estávamos a sair da Covid e a empresa estava praticamente em rutura. Era uma questão de sobrevivência. E, quando se está em modo de sobrevivência, a prioridade é pagar salários, pagar combustível – se não se paga o combustível, não se voa. Era realmente um modo de sobrevivência."

Depois de sair da TAP, foi nomeada presidente de outra companhia aérea, a Air Caraïbes. Porque saiu antes do fim do mandato?
Um mandato de CEO não vem com um número de anos pré‑definido. Somos contratados com uma missão, e a missão para a qual fui contratada nunca foi tornada pública, porque se trata de uma empresa privada. Saí da empresa através de um acordo.

Era suposto ficar mais tempo?
A duração do tempo que permaneci não me cabe a mim explicar em detalhe. O que posso dizer é que tudo foi feito de acordo com as regras de governação corporativa e de forma muito profissional.

Não tem nenhum processo ou litígio com essa empresa?
Não. E, sinceramente, gostei muito do tempo que lá passei. Algumas pessoas tentam usar isso contra mim, mas ter a responsabilidade de uma empresa, com um mandato num grupo privado, não significa que se vá ficar um número fixo de anos. E nunca houve qualquer comunicação pública sobre a duração do meu mandato.

Saiu com um acordo com a empresa?
Sim, um acordo corporativo, e é isso.

Está atualmente a trabalhar no setor?
Hoje, curiosamente, sou presidente [do conselho de administração] de uma empresa de propulsão a hidrogénio [a ZeroAvia]. Continuo na aeronáutica, mas não na aviação comercial. Passo a maior parte do meu tempo, praticamente a tempo inteiro, em Inglaterra, nos Cotswolds [zona rural no centro do país]. Estamos a desenvolver um sistema de propulsão para aeronáutica, que pode ter aplicação na defesa e na aviação civil. Era presidente não executiva do conselho de administração e agora sou presidente executiva.

É engenheira.
Sou engenheira. Gosto de trabalhar em tecnologia e acredito que o futuro da nossa indústria passa pela eletricidade, pelo hidrogénio e por uma combinação de ambos. Sou também fellow [membro] da Royal Aeronautical Society, porque sou cidadã britânica, apesar do meu sotaque francês. E faço mentoria a jovens mulheres em STEM; sempre fiz mentoria e hoje dedico grande parte do meu tempo, para além das funções executivas nesta empresa, ao trabalho com a Academia de Engenharia.

Multa ao Tribunal de Contas não estava coberto por seguros de administradores da TAP

Pagou a multa do Tribunal de Contas?
Foi público. Para mim, esse processo também foi uma grande surpresa. Para recapitular: quando comecei, em 2021, a TAP já era uma empresa pública desde 2020. Portanto, todas as regras estavam em vigor desde 2020. Ninguém mencionou qualquer problema.

Quando a contrataram, disseram‑lhe que ia trabalhar para uma empresa privada ou pública?
Fui contratada pela TAP e tínhamos uma estrutura com pessoas muito experientes. Havia um conselho de administração, cuja função era garantir a conformidade com as leis e os processos. Tivemos sessões de enquadramento sobre governança em Portugal, mas depois é preciso ir ao detalhe. E no primeiro dia em que chegamos não esperámos que a empresa não esteja a aplicar os procedimentos corretos. Foi preciso tempo: primeiro para tratar com a Comissão Europeia, da operação, da redução de custos. Os meus dias eram completamente ocupados. E havia um conselho de administração, com um presidente, responsável pela boa governação da empresa. O que quero dizer é que o modelo de governação em vigor era o que já existia desde 2020. Não estou a procurar desculpas, mas, objetivamente, as coisas não estavam a ser entendidas – e aplicadas – da forma como deveriam.

"Prolongar processos para ganhar tempo ou por outras razões — no mundo empresarial sentamo-nos à mesa, chegamos a um acordo e cada um segue o seu caminho — não me parece o melhor. Encontrar um acordo e deixar as pessoas seguir em frente seria, para mim, a melhor conclusão para todos."

Foi uma falha interna da TAP não identificar que, desde que se tornou empresa pública, tinha de cumprir regras diferentes das anteriores?
A situação era extremamente difícil. Havia muitos problemas por resolver, crises em quase todos os departamentos. Estávamos a sair da Covid e a empresa estava praticamente em rutura. Era uma questão de sobrevivência. E, quando se está em modo de sobrevivência, a prioridade é pagar salários, pagar combustível – se não se paga o combustível, não se voa. Era realmente um modo de sobrevivência. Quando se começa a sair desse modo de crise, percebe‑se que houve coisas feitas de uma certa maneira e, mais tarde, com um novo conselho, com um olhar fresco, percebe‑se que é preciso mudar procedimentos. É um pouco como uma síndrome: quando se vive demasiado tempo em modo de crise, entra‑se num automatismo e é preciso uma mudança na organização. Tivemos esse “wake‑up call” com o novo conselho geral e tivemos esse alerta em relação a vários pontos, mas foi tarde no processo – mais de um ano depois é que tudo foi detetado.

Portanto, só em 2023 [depois de conhecido o pagamento a Alexandra Reis]?
Exatamente. Não estava tudo em conformidade e agora está, mas esses são os factos. Assumimos a responsabilidade, como deve ser. Mas acredito que mais diálogo entre empresas e entidades de supervisão poderia evitar que os problemas se arrastem demasiado e se transformem em grandes crises. O diálogo entre os vários “stakeholders” é muito importante. Porém, na altura, estávamos a sair da crise e o pacote da Comissão Europeia era, para todos, a única prioridade.

Relativamente à multa do Tribunal de Contas: pagou a multa do seu bolso ou a TAP tem um seguro que cobre essa multa?
Esses seguros, o chamado seguro de administradores, não cobre coimas ou multas.

Portanto, teve de pagar a multa pessoalmente?
Tem de ser um pagamento pessoal. Não há seguro que cubra multas.

Já pagou a multa?
Segui a recomendação dos meus advogados.

Que foi…?
Para mim, trata‑se de encerrar capítulos. Fiz muitas coisas para garantir que certos assuntos não ficassem em aberto, mas ainda há processos em análise. Por isso é difícil comentar em detalhe este ponto. Ainda há um processo a ser analisado, mas não posso comentar processos judiciais em curso.

Ainda mantém alguma ligação a Portugal?
Amigos.

Quando vem cá, continua a ser reconhecida na rua?
Sim, sim. Mesmo sem óculos, ainda sou reconhecida na rua. O que mais me impressiona é quando sou reconhecida em pequenas aldeias no centro de Portugal.

O que é que as pessoas lhe dizem?
“Temos tanta pena, senhora. Temos vergonha que o país lhe tenha feito isto”… Acho que este processo, e a razão pela qual falo hoje, não tem a ver com encontrar mais justificações além dos factos que já expliquei. A minha performance ficou demonstrada pelos resultados da empresa. Fui bastante clara em assumir que fui bode expiatório ou escudo político. E as provas estão nas escutas que foram divulgadas. O que seria importante agora – não apenas para mim, mas para processos deste tipo, em Portugal – era mostrar que o país é capaz de encerrar este assunto com base nos factos, e encerrá‑lo de vez. Acho que isso seria bom para todos. E seria bom para Portugal.

E para a TAP?
E para a TAP, porque, para atrair talento, é preciso olhar para os factos. Eu fui contratada com um contrato que depois foi muito comentado, mas esse contrato foi aprovado pelo Governo ao mais alto nível, por advogados que sabiam o que faziam, creio eu. Confiamos nesse contrato, e um ano depois o próprio contrato é alvo de críticas. É bastante invulgar. Tudo no contrato estava estruturado para ser consistente com a dificuldade da tarefa que tinha de ser cumprida. Portugal é um país fantástico e sei que nunca terei um problema com Portugal. Não se trata de Portugal.

Alguma vez consideraria voltar a Portugal ou à TAP?
É sempre difícil dizer isso. É complicado. A minha mãe dizia‑me sempre: “Nunca digas nunca”, porque nunca se sabe. Mas é difícil. Avançamos na vida, temos expectativas diferentes, experiências diferentes. Este processo precisa de ser encerrado para todos, não só para mim. Seria melhor para toda a gente, e depois cada um segue com a sua vida. Prolongar processos para ganhar tempo ou por outras razões — no mundo empresarial sentamo-nos à mesa, chegamos a um acordo e cada um segue o seu caminho — não me parece o melhor. Encontrar um acordo e deixar as pessoas seguir em frente seria, para mim, a melhor conclusão para todos.