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O que é a hipocondria? 11 perguntas sobre o medo incapacitante de doenças — e como afeta a saúde mental?

Preocupação excessiva e desproporcionada com a possibilidade de ter ou vir a desenvolver uma doença grave. Chamar "mania das doenças" a este sofrimento psicológico não ajuda.

Sara Dias Oliveira
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1 O que é a hipocondria?

A hipocondria, agora também designada Perturbação de Ansiedade à Doença, é uma preocupação persistente, excessiva e desproporcionada com a possibilidade de ter ou vir a desenvolver uma doença grave, mesmo após avaliações médicas repetidas e resultados tranquilizadores. Não é uma preocupação normal com a saúde.

2 É uma perturbação mental?

Sim. A hipocondria é reconhecida pelos principais sistemas de classificação psiquiátrica como uma perturbação mental real, caracterizada por sofrimento psicológico significativo e prejuízo funcional no dia a dia.

A evidência científica descreve-a como uma forma específica de ansiedade focada na saúde, em que o corpo se torna o foco principal da ameaça, resultando em sofrimento psicológico significativo, impacto funcional e risco de comorbilidade com outras perturbações de ansiedade e depressão. É um problema de processamento da informação e regulação emocional, e não de crença delirante ou simulação consciente.

O foco do problema não está na presença de sintomas intensos, que podem ser mínimos ou inexistentes, mas na forma como sensações corporais comuns são percebidas e interpretadas de forma ameaçadora, com vigilância constante e dificuldade em tolerar a incerteza.

“Indivíduos com esta perturbação apresentam um padrão de interpretação distorcido que sobrestima a gravidade e a probabilidade de doença e subestima a capacidade do corpo de lidar com alterações benignas”, diz a psicóloga Inês de Matos Ferrão.

Há estudos científicos que demonstram que quem sofre desta perturbação apresenta níveis elevados de ansiedade, preocupação constante com a saúde e padrões de atenção e interpretação das sensações corporais alterados. “Ao contrário da simulação consciente, quando alguém finge sintomas deliberadamente, os sintomas da hipocondria são genuínos e involuntários, refletindo dificuldades na regulação emocional e na tolerância à incerteza, e não numa tentativa de enganar médicos ou familiares.”

3 Quais são os sintomas?

A hipocondria Manifesta-sem através de sintomas cognitivos, emocionais e comportamentais. Cognitivamente, a pessoa apresenta pensamentos automáticos catastróficos, interpretações distorcidas de sensações corporais e preocupação constante com a possibilidade de doença grave. Ao nível emocional, tem ansiedade intensa, medo persistente de deterioração física ou morte e angústia relacionada com a incerteza sobre a própria saúde.

A nível comportamental, podem surgir duas manifestações principais:

Em ambos os casos, realça a psicóloga, “estas estratégias apenas aliviam temporariamente a ansiedade e acabam por manter o ciclo de preocupação, reforçando a hipervigilância corporal e a sensação de ameaça.”

Outros sinais frequentemente relatados incluem insónias, tensão muscular, alterações gastrointestinais ou cardiovasculares ligeiras, que são interpretadas como indícios de doença grave, mesmo quando não há causa orgânica.

4 E as causas?

A hipocondria não resulta de uma única causa, mas de uma interação complexa entre vulnerabilidades individuais, experiências de vida e padrões de regulação da ansiedade, sustentando o ciclo contínuo de preocupação com a saúde.

Entre os fatores dominantes estão traços de ansiedade elevada, estilos cognitivos rígidos e experiências precoces em contextos familiares marcados por doença ou excesso de preocupação com a saúde. Há outros fatores relacionados com episódios de vida stressantes, momentos reais de doença, luto, sobrecarga emocional ou burnout, que podem desencadear ou intensificar a ansiedade relacionada com o corpo.

5 Como está associada à ansiedade e à depressão, ao certo?

A hipocondria está intimamente ligada à ansiedade, sendo mesmo considerada uma forma específica de ansiedade centrada na saúde. Os mecanismos que mantêm a hipocondria como hipervigilância corporal, atenção exagerada a sinais físicos e interpretação catastrófica de sintomas leves,são os mesmos observados em outras perturbações ansiosas, incluindo a ansiedade generalizada.

“A dificuldade em tolerar a incerteza, característica central da perturbação, aumenta a preocupação constante com a saúde e reforça comportamentos de verificação ou de evitamento. Qualquer alteração física, por mínima que seja, pode disparar uma resposta de ansiedade intensa, gerando ciclos de preocupação que se autoalimentam e dificultam o funcionamento diário.”

A hipocondria está também associada a um risco aumentado de depressão, especialmente quando a preocupação com a saúde é persistente, intensa e não tratada. A ansiedade crónica relacionada com a saúde pode levar a exaustão emocional, sentimento de impotência e frustração, fatores que contribuem para sintomas depressivos.

A relação entre hipocondria e perturbações depressivas é frequente, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado para reduzir o impacto na saúde mental e prevenir complicações secundárias.

 

6 São esses os principais impactos na saúde mental?

Os impactos são significativos na qualidade de vida, funcionamento social e desempenho profissional. A hipocondria está associada a níveis elevados de sofrimento psicológico, maior utilização de serviços de saúde e aumento do risco de comorbilidade com outras perturbações mentais.

A preocupação constante com a saúde leva frequentemente ao isolamento social, frustração e desconfiança em relação a familiares e profissionais de saúde, devido à sensação de não serem compreendidos. Além disso, aumenta o risco de comorbilidade com outras perturbações, como depressão e perturbações de ansiedade generalizada, especialmente quando a preocupação é persistente e não tratada.

7 E qual o problema de usar a expressão “mania das doenças”?

A utilização de termos populares que reduzem a hipocondria a uma “mania das doenças” é contraproducente. A desvalorização do sofrimento psicológico está associada a maior estigma, sentimentos de vergonha e menor procura de ajuda profissional, o que pode agravar o quadro clínico.

Além disso, este tipo de linguagem reforça a ideia errada de que os sintomas são voluntários ou “exagerados”, dificultando a compreensão da perturbação e a adesão a intervenções eficazes.

8 As pessoas mais velhas são mais hipocondríacas?

A evidência científica não suporta a ideia de que pessoas mais velhas sejam intrinsecamente mais hipocondríacas. Sabe-se, no entanto, que o envelhecimento está associado a um aumento real de sintomas físicos, o que pode gerar preocupações legítimas com a saúde, mas isso não significa necessariamente maior prevalência de hipocondria.

“A hipocondria envolve interpretação catastrófica e preocupação excessiva, independentemente da idade, e pode surgir em qualquer fase da vida adulta.” Nesse sentido, avisa a psicóloga, a preocupação com a saúde em idosos precisa ser distinguida do quadro clínico da hipocondria para evitar diagnósticos incorretos e intervenções inadequadas.

9 E afeta mais as mulheres ou os homens?

Algumas investigações apontam prevalências semelhantes entre homens e mulheres, sugerindo que as diferenças observadas podem refletir fatores socioculturais, como a maior propensão das mulheres para procurar cuidados de saúde e expressar preocupações emocionais, e não uma vulnerabilidade biológica ou psicológica específica ao género. Assim, tanto homens como mulheres podem ser igualmente afetados.

10 Como se pode lidar com a situação, se se tornar incapacitante?

A terapia cognitivo-comportamental ajuda a identificar e reestruturar pensamentos catastróficos, reduzir comportamentos de verificação excessiva e aumentar a tolerância à incerteza em relação à saúde.

Psicoeducação sobre ansiedade e sensações corporais, técnicas de relaxamento e exposição gradual a situações de saúde sem verificação excessiva podem reduzir a preocupação e o sofrimento.

Em casos moderados a graves, a medicação pode ser usada como complemento à psicoterapia, especialmente quando há ansiedade ou depressão diagnisticadas. A colaboração entre profissionais de saúde mental e médicos de cuidados de saúde primários é recomendada para evitar exames desnecessários e mensagens contraditórias, garantindo um plano de acompanhamento consistente.

 

11 Há tratamento?

Sim. Intervenções psicológicas estruturadas, em particular a terapia cognitivo-comportamental, apresentam eficácia significativa.

Em casos moderados a graves, a medicação pode ser utilizada como complemento, sobretudo quando existe outras perturbações associadas.