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(A) :: Mais do que uma personagem, um veículo

Mais do que uma personagem, um veículo

Em "Foi o Preto", vemos tecer-se um enredo em que a culpa ou o crime vêm do mesmo lado, esse que é visto como "outro". Entre capítulos curtos, Ângelo Delgado debruça-se sobre o racismo estrutural.

Ana Bárbara Pedrosa
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Delgado escreve sobre a Lisboa da década de 90, incidindo quase exclusivamente sobre questões raciais. Ao longo do romance, vemos a vida de José Lima, desde os episódios de discriminação logo na infância até ao momento em que é acusado e preso por um crime que não cometeu. Não houve erro nem mal-entendido algum: propositada, a acusação alicerçou-se em motivos racistas. As acções posteriores resultam, por sua vez, da assunção da cor como fonte de culpa, vendo-se um sistema a naturalizar a violência da acusação deliberada.

O tema não é novo na obra de Ângelo Delgado. Em Sem Ofensa (2020), escrito em parceria com a designer Sofia Ayuso, o autor já se debruçara sobre o racismo quotidiano inscrito na linguagem, mostrando expressões como “Para preto até falas bem” e revelando de que forma as interacções sociais estão moldadas por uma hierarquia racial. Em Foi o Preto, essa preocupação desenvolve-se sob a forma romanesca, numa tentativa de dar corpo narrativo a um problema político. Nisto, o livro não é um prodígio literário, e tem mais relevância precisamente pela parte política, parecendo que o território do romance serviu apenas para dar uma forma legível e inquestionável ao problema. Assim, o valor do livro é principalmente extra-literário, nomeando e denunciando o imaginário racista e apontando os mecanismos de culpabilização e desumanização do outro.

A estrutura de Foi o Preto faz-se através de capítulos curtos, que para o leitor sabem a flashes ou fragmentos, e que incluem narração, discurso na primeira pessoa, cartas e pensamentos. Cada capítulo é um mosaico que oferece o recorte de uma situação, de um ponto de vista, numa opção que promove uma leitura fácil e rápida, quase cinematográfica, mas que traz um custo: o romance raramente ganha densidade temporal ou psicológica e o leitor só muito dificilmente chega a estabelecer relações de empatia. Os acontecimentos acumulam-se ao invés de se sedimentarem, as personagens não chegam a ser vistas por dentro, tudo é breve. E não é que não casem para comporem um todo orgânico – fazem-no, mas é mais ao jeito de um puzzle do que de um romance, não havendo nuances nem tridimensionalidade nas personagens.

Título: “Foi o Preto”
Autor: Ângelo Delgado
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 168

Aliás, mesmo quando o leitor se depara com os capítulos nas vozes dos homens que trataram da acusação a José, parece que os vê ao longe, que cumprem o papel de uma peça, ao invés de comporem um mundo literário. E mesmo essas não chegam a criar uma polifonia, uma vez que os discursos directos não apresentam grande variação nem têm autonomia estética. Por exemplo, os tais homens que fizeram a acusação, e que são da área metropolitana do Porto, falam à lisboetas, quebrando-se a verosimilhança cultural. Isto quebra a ilusão da ficção, denunciando uma homogeneização linguística pouco cuidada – e a língua, que podia ser vista como coisa maleável e diversa, aparece como funcional, nivelada e lisa.

O discurso das personagens serve a tese do livro, não havendo espaço para a ambiguidade ou a contradição. Ou seja, as personagens, principalmente José Lima, funcionam como eixo político, servindo para ilustrar a violência do sistema, e dando ao leitor a conclusão do livro – daí que valha mais como manifesto político do que como romance. Desde a infância de José, a discriminação parece um marcador sucessivo de um destino traçado a priori. A própria acusação e a subsequente prisão não são um mal-entendido, um erro, mas uma decisão consciente de lixar o outro, de se vingar do outro, do outro que representa um todo, e que é um todo que nunca deixa de ser visto como o outro. Em termos literários, claro que essa escolha não é problemática, não é inverosímil, mas, ao apresentar a conclusão dentro da sua formulação, Delgado reduz espaço para a intervenção do leitor.

Mesmo os momentos de introspecção de José na prisão são atravessados por um discurso explicitamente político, vendo-se pouco fora disso. Com isso, a própria personagem mescla-se com as posições que o romance quer afirmar. E é isto que dificulta a relação de empatia com quem lê: o rapaz não é uma personagem a quem possamos ligar-nos emocionalmente mas um veículo discursivo. Faltam-lhe camadas, sombras, vida além do que não é imediatamente legível como produto de uma opressão racista.

Como ferramenta política, o livro funciona – não havendo grande subtileza ou mediação simbólica, parece que não se confia no leitor, que o autor precisa de dizer e de reiterar, com medo de que a mensagem se perca. Ora, a verdade é que, em termos sociais, e ainda para mais no momento histórico que Portugal vive, isto ainda é necessário nas relações dialógicas públicas. A clareza moral que traz (as vítimas sem ambivalência, os racistas sem fissuras) dão pouco ao romance enquanto objecto artístico, mas podem desambiguar quem não entende o racismo enquanto fenómeno de discriminação e ódio que não acabou com a independência das ex-colónias.

Com tudo isto, o grande mérito de Foi o Preto é ajudar a nomear o problema do racismo estrutural. Ao abdicar da complexidade formal e da confiança na inteligência no leitor, a verdade é que o autor também não deixa espaço para que quem lê se dê ao luxo de ter dúvidas, uma vez que o que está no livro é politicamente inequívoco.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.