Francisco Miguel Sousa, de 41 anos, passou meses a viajar ao mesmo tempo que fazia relatórios de investimento direto estrangeiro em diversos países. Esteve no Quénia e em Moçambique, até que, em 2012, aterrou no Qatar. “Foi quase paixão à primeira vista”, confessa ao Observador o managing director da empresa de entregas Talabat no Qatar. Na altura, ainda estava fresco o anúncio, de 2010, de que seria o país a organizar o Mundial de futebol de 2022.
“Foi uma altura de abertura ao mercado”, recorda Francisco Miguel Sousa. “Estive três meses e gostei bastante do país. Era calmo, seguro e com muitas coisas por acontecer. Ainda voltei a Portugal”, lembra. Mas, entre 2014 e 2015, decidiu fixar-se definitivamente na capital, Doha.
Passaram-se mais de dez anos desde o primeiro contacto com o país. Hoje Francisco Miguel Sousa é o responsável pela operação qatari da Talabat, uma das principais aplicações de entregas na região do Médio Oriente. É difícil andar pelas ruas de Doha sem encontrar uma mota ou uma mochila laranja com o logótipo da empresa, cujo nome significa pedido ou entrega em árabe, explica o gestor. Ao mesmo tempo, conjuga o trabalho com as tarefas de professor na Universidade de Ciência e Tecnologia de Doha, centradas em gestão estratégica e sustentabildiade.
No país natal de Francisco Miguel Sousa, o nome Talabat pode não ser conhecido, mas no Médio Oriente a história é outra. Está presente em vários países naquela região e tem seis milhões de clientes ativos. A história da empresa começa no Kuwait, em 2004. Com o comércio eletrónico ainda a dar os primeiros passos, o empreendedor Abdulaziz Al Loughani criou um site para fazer encomendas em restaurantes locais. A popularidade da empresa cresceu e, com o passar dos anos, a Talabat expandiu-se aos mercados vizinhos. Atualmente, além do país de origem, a tecnológica de entregas opera no Qatar, Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Egito, Omã, Jordânia e Iraque.
A Talabat é considerada o primeiro unicórnio do Kuwait, ou seja, uma empresa avaliada em mais de mil milhões de dólares. Em fevereiro de 2015, o grupo de comércio eletrónico alemão Rocket Internet comprou a Talabat por 150 milhões de euros. Um mês depois, a Rocket Internet fez negócio com a gigante Delivery Hero e as operações da Talabat passaram para as suas mãos.
Em troca de um reforço da participação da Rocket Internet no negócio do grupo alemão, a companhia passou a ter presença no Médio Oriente. “Hoje a Delivery Hero entra no mercado do Médio Oriente com a aquisição da Talabat.com, o líder regional”, dizia a empresa num comunicado de março de 2015. “O Médio Oriente foi sempre uma peça em falta na nossa visão global”, admitiu o CEO Niklas Östberg.
Delivery Hero é um dos maiores grupos de entregas do mundo
A Talabat é a subsidiária da Delivery Hero no Médio Oriente. Mas o grupo alemão é dono de muitas outras marcas de entregas, incluindo a Glovo, que adquiriu em 2022. O grupo está presente em cerca de 70 países, contando com mais de 40 mil funcionários.
Na América Latina, a empresa opera em diversos países através da PedidosYa. Na Europa, a maior pegada pertence à Glovo, mas a empresa tem ainda a Foody (Chipre), eFood (Grécia)e a Foodora (Finlândia, Noruega, República Checa, Áustria e Hungria). Na Ásia, a empresa controla a Glovo, a Baedal Minjok (apenas na Coreia do Sul) e a Foodpanda. A empresa também está presente em vários países africanos através da marca Glovo.
Entretanto, a Talabat transferiu a sua sede para Abu Dhabi — os Emirados Árabes Unidos são o principal mercado da empresa na região, nota Francisco Miguel Sousa. Em dezembro de 2024, entrou na bolsa do Dubai através de uma oferta pública inicial (IPO) de dois mil milhões de dólares (1,68 mil milhões de euros), o maior IPO, nesse ano, de uma tecnológica nos Emirados Árabes Unidos. Atualmente, a empresa está avaliada em 22,82 mil milhões de dirhams, o equivalente a 5,22 mil milhões de euros.
Donativos na aplicação e o pico de pedidos após o pôr do sol no Ramadão: as diferenças a que o gestor se teve de adaptar
Quando chegou ao Qatar, o executivo português, que se formou em Economia e mais tarde se especializou em administração de negócios, começou por trabalhar na área de vendas da Zomato. Até que, no fim de 2017, surgiu o desafio de liderar a operação da Talabat no país.
“Quando entrei, há oito anos, éramos cinco pessoas no Qatar. Agora somos cerca de 200, com cerca de 10 mil a 12 mil condutores. É a maior marca no Médio Oriente de entregas”, relata. O Observador encontra Francisco Miguel Sousa com a camisola laranja da empresa vestida no stand da empresa na Web Summit Qatar.
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“Fazemos entregas de restaurantes, de farmácia, de supermercado, de eletrónica… Tudo como na Glovo”, usando uma referência mais reconhecível para o mercado português. “Tudo o que possa caber numa mala ou numa caixa nós conseguimos entregar.” Segundo o gestor, “só as operações no Qatar já valem mais do que mil milhões de dólares”.
O português faz um balanço positivo da experiência no Qatar, país que descreve como “muito interessante para fazer negócio”, mesmo “apesar de a regulação ser muito forte”. Reconhece que é um mercado em que “a reputação conta”. “É um mundo pequeno, toda a gente se conhece o relacionamento humano conta bastante.”
Com o passar do tempo, foi-se habituando às “muitas, muitas” especificidades de gerir um negócio no Qatar. No Ramadão, por exemplo, “temos as pessoas todas a pedir comida entre o pôr e o nascer do sol”, contextualiza. “É um pesadelo gerir os pedidos quando começa o iftar — quando as pessoas podem começar a comer. Não é um fluxo pequeno de entregas, é um pico enorme.”

No Ramadão, “60 a 70% das entregas do dia” são concentradas num curto espaço de tempo. “Durante o dia não há pedidos”, diz. “Só por aí já se nota uma diferença enorme entre trabalhar aqui e trabalhar na Europa.”
As motas e os carros em que são transportadas as refeições também têm adaptações. “Temos de ter um frigorífico dentro do carro, por causa da temperatura”, exemplifica. No verão o mercúrio ultrapassa os 40º C e a sazonalidade não tem um efeito muito expressivo nas operações. “Quando é verão quase ninguém sai à rua”, mas os números de pedidos são semelhantes aos do inverno. “Há muita gente que se vai embora no verão, vai para a Europa, de férias, e então [a operação nas duas estações] equilibra-se.”
Outra diferença que o gestor realça é a área de donativos na aplicação. “A primeira empresa que começou a ter donativos online foi a Talabat”, explica. “Não é obrigatório, mas os donativos têm uma forte componente no Qatar, tal como em todo o Médio Oriente”, acrescentando que “o espírito muçulmano é muito de entreajuda”. Pega no telefone para mostrar a aplicação local e a respetiva área de donativos. No ecrã, surgem várias organizações, incluindo o Crescente Vermelho do Qatar. “É tudo direto, o dinheiro vai diretamente para as instituições e nós suportamos as comissões bancárias.”
Pontualmente, a versão portuguesa da Glovo (que pertence ao mesmo grupo da Talabat) também faz recolhas de donativos através da app, como a que está a acontecer neste momento com a recolha de donativos para apoiar as vítimas da tempestade Kristin em Portugal.
Empresa já tem supermercados e quer expandir-se nas entregas de medicamentos
Hoje em dia, o negócio da Talabat já vai além das entregas de refeições. “Temos cerca de quatro a cinco mil restaurantes parceiros e temos também os nossos próprios supermercados, as dark stores”, afirma Francisco Miguel Sousa. “São mesmo para entrega direta, não estão abertos aos público.” Atualmente, a empresa tem “nove dark stores” no Qatar — e o negócio está “a crescer bastante”, assegura o português.
“Estamos a fazer entregas em 18 a 19 minutos, em média”, mas há planos para reduzir este tempo. “Há algumas mudanças que podemos fazer”, diz, falando em lojas que ” são “geridas de A a Z pela Tabalat”. Mas é uma corrida contra o tempo para assegurar que é possível entregar os produtos a um estafeta o mais depressa possível. “Quem está na loja tem dois minutos, no máximo, para pegar em tudo”, realçando que a forma como os artigos são dispostos nas lojas, que têm entre 300 a 1000 metros quadrados, é pensada ao pormenor. “De resto, como não existem pessoas a recolher produtos como nos supermercados sabemos muito bem o nosso inventário. E o trânsito não varia muito”, permitindo manter a média de tempo de entrega.
E há algum tipo de automação nestes supermercados? “Temos, mas ainda não está rápida” o suficiente, nota. “Com os humanos é muito mais fácil aceder aos artigos do que com automação. Se fosse um espaço maior, com mais de mil metros quadrados, aí já valeria a pena fazer automação.”
Francisco Miguel Sousa afirma que “ainda há muito para acontecer” no mercado de entregas do Qatar. “Apesar de sermos um dos países com maior frequência de entregas por mês, a seguir ao Kuwait e à Coreia do Sul, ainda é um mercado que tem muito por onde crescer.” Nota, por exemplo, que “ainda é um mercado muito offline, em que as pessoas vão muito ao supermercado, aos restaurantes, principalmente durante o inverno.”
E, como há margem, acredita que possam vir a ter mais rivais. “Acreditamos que vamos ter ainda mais concorrentes. Ainda há mercado”, afirma. Francisco Miguel Sousa fala “em seis empresas concorrentes” no mercado do Qatar, mas dá destaque aos “concorrentes chineses” e, a nível local, à Snoonu.
No ano passado, a app chinesa Keeta, subsidiária da tecnológica chinesa Meituan, entrou no mercado qatari. Já a Snoonu é considerada a “super-app” do Qatar, juntando entregas de refeições e supermercados às entregas rápidas de produtos e serviços, como lavandaria.
“Como estamos a crescer muito, todos nós, dizemos que os maiores concorrentes são as próprias mães quando não deixam os filhos pedir um hambúrguer ou quando querem elas próprias comprar online”, graceja. “Ainda há muito para acontecer neste mercado.”
O executivo considera que há oportunidades para a Talabat “no mercado dos medicamentos”. E explica como o processo é diferente no Qatar. “O médico passa a receita, depois a pessoa vai à farmácia, que por sua vez contacta o seguro para saber se cobre ou não a despesa e depois paga-se. É um processo de uma hora, hora e meia”, diz. “É um bocadinho à americana.”
“A pessoa está doente, vai a uma urgência… Nós queremos facilitar, fazer todo o software e garantir que, quando o médico passa a receita, ela possa ser automatizada na farmácia.” Mas, para isso acontecer, é necessário cumprir vários requisitos, incluindo a certificação dos condutores. “Todos os nossos condutores têm de ter um certo tipo de certificação”, diz. Também para as entregas de refeições “é preciso uma certificação de higiene e alimentação, não é qualquer pessoa que pode fazer entregas”.

“Não há freelancing” na Talabat. “Distribuidores são todos empregados por empresa de logística”
Em muitos mercados, incluindo Portugal, o vínculo laboral dos estafetas é um tema quando se fala em aplicações de entregas ou serviços de TVDE. Algo que, segundo Francisco Miguel Sousa, é diferente no mercado do Qatar.
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“A parte interessante no Qatar é que os distribuidores são todos empregados de uma empresa de logística. Não há freelancing. É um modelo diferente”, explica. Acrescenta que, neste mercado, a Talabat “não é só a aplicação”. “Temos quatro empresas: uma dedicada às dark stores, outra às cloud kitchens [cozinhas virtuais que alimentam apenas os pedidos das apps de entregas], a empresa de logística e, por fim, a aplicação, a parte de tecnologia.” Os estafetas têm contrato com a empresa de logística.
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Notando que em “Portugal existem muitas pessoas que não estão numa posição de ter os próprios documentos” a trabalhar nas entregas, no Qatar “isso não existe, se a pessoa está ilegal sai do país”. “Para quem está legal, há muita abertura para que venham trabalhar para cá e a empresa é responsável por elas.”
Francisco Miguel Sousa explica que a empresa é responsável por fornecer “alojamento, subsídio de alimentação, pagar a mota e o combustível”. “Basicamente a pessoa só tem de conduzir e tem o seu salário mínimo e o salário por entrega. É um modelo interessante e que é difícil de replicar na União Europeia”, admite.
O managing director da Talabat no Qatar fala num salário mínimo de mil riyal do Qatar, o equivalente a cerca de 230 euros. “Pagamos por entrega também e depois há várias nuances, como os quilómetros feitos, etc. No fim, o condutor consegue receber entre 800 e 2 mil euros, sem custos de alojamento.” A empresa tem entre “10 e 12 mil condutores”, “todos imigrantes”.
O Observador esteve no Qatar a convite da Startup Portugal