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(A) :: Os doentes não são bolas de pingue-pongue

Os doentes não são bolas de pingue-pongue

Quando o sistema passa a funcionar mais em função da ocupação do que das necessidades reais dos doentes algo está profundamente errado.

Ireneia Lino
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Diz-se frequentemente que os doentes permanecem nos hospitais de agudos à espera de vaga na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI). Como se estivessem numa sala de espera invisível, aguardando que, algures, surja uma cama disponível. Na maioria dos casos, são idosos, frágeis, doentes crónicos, sem rede social de apoio e sem retaguarda familiar. Pessoas que tiveram o azar — ou talvez a sorte — de sobreviver a uma doença grave, apenas para entrarem num percurso longo, incerto e desgastante.

E assim entram no jogo da rede.

Entrando na RNCCI, os doentes parecem ter aderido, sem saber, a um campeonato regional de pingue-pongue. A diferença é que, em vez de raquetes, usam macas, ambulâncias e relatórios clínicos. Saltam da unidade de convalescença para a unidade de média duração e reabilitação, da unidade de média duração e reabilitação para a unidade de longa duração e manutenção, da unidade de longa duração e manutenção para sabe-se lá onde, num percurso tão lógico quanto uma rotunda sem saídas.

No Alentejo, onde vivo e trabalho, este desporto atinge níveis olímpicos. Os doentes vão de Mora para Portel. De Reguengos para Vila Viçosa. De Arronches para Selmes. Quilómetros e mais quilómetros, percorridos por famílias cansadas, que acabam por conhecer o mapa da região melhor do que muitos guias turísticos. Quem precisa de GPS quando se tem um familiar internado?

Os doentes, esses, são quase sempre os mesmos: idosos, frágeis, doridos, profundamente marcados por uma vida longa. Mal se habituam ao quarto, aos rostos, às rotinas, ao tom da voz que os chama pelo nome — e já estão novamente de partida. Criam laços, ganham confiança, sentem-se um pouco menos perdidos, até serem transferidos para mais uma unidade, rumo a outro local, outra equipa, outra adaptação.

Desorientam-se. Choram. Perdem-se. Não no espaço, mas em algo mais profundo: no sentido de pertença, na segurança, na estabilidade mínima que tanto precisam para recuperar.

Esta rede, criada para garantir cuidados continuados e promover a reabilitação, transforma-se, por vezes, numa verdadeira rede rodoviária secundária, onde os doentes circulam incessantemente. Como se recuperar fosse sinónimo de viajar, e não de permanecer, consolidar, treinar, reaprender.

Há, naturalmente, transferências inevitáveis. Mas existem outras que parecem acontecer apenas porque sim: porque há vagas, porque há camas, porque a logística se sobrepõe às pessoas. Quando o sistema passa a funcionar mais em função da ocupação do que das necessidades reais dos doentes, algo está profundamente errado.

Talvez seja tempo de repensar seriamente este modelo. Criar verdadeiros centros de reabilitação, com equipas especializadas, estáveis e devidamente dimensionadas, onde os doentes que verdadeiramente necessitam de reabilitação possam permanecer o tempo necessário para uma recuperação efetiva. E transformar as restantes unidades em residências medicamente assistidas, dignas, humanas, estáveis, capazes de garantir qualidade de vida a quem já não recupera, mas continua a precisar de cuidados

Porque os doentes não são bolas de pingue-pongue. São pessoas. E ninguém se reabilita de forma digna aos saltos de unidade em unidade.