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O ex-ministro socialista e o diplomata investigado por pedofilia. Caso Epstein abala a política francesa

Depois da política britânica, revelações dos ficheiros do caso Epstein atingem agora França. Um ex-ministro tinha sociedade offshore com o milionário e um ex-diplomata era próximo dele.

José Carlos Duarte
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Antigo ministro da Cultura e da Educação, geria o Instituto do Mundo Árabe em França. Amante de arte e com uma extensa carreira política, Jack Lang caiu em desgraça após serem reveladas as suas ligações ao caso Epstein. A divulgação da última leva de ficheiros do mega-processo mostrou que o ex-governante mantinha uma relação próxima e de negócios com o agressor sexual, que o fez abandonar o cargo que ocupava desde 2013.

Na diplomacia francesa, este escândalo foi o primeiro, mas não o último. Esta terça-feira, veio a público que um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros terá sido um dos principais cúmplices de Jeffrey Epstein em França. Fabrice Aidan, que também trabalhou na Organização das Nações Unidas (ONU), enviava documentos confidenciais ao milionário norte-americano e tinha acesso ao luxuoso apartamento do empresário em Paris.

Tendo em conta as ligações de Jeffrey Epstein a Fabrice Aidan, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, anunciou a abertura de uma investigação interna e encaminhou o assunto para o Ministério Público. “Os factos são extremamente graves”, definiu o líder da diplomacia de França numa entrevista à RTL esta quarta-feira. O governante avisou também que “não se pode descartar a possibilidade” de que outros diplomatas franceses tenham estado envolvidos com o agressor sexual, que morreu na prisão em 2019.

As réplicas da divulgação de 3,5 milhões de ficheiros relativos ao caso Epstein atingem agora a política francesa. Depois de terem feito tremer o futuro de Keir Starmer enquanto primeiro-ministro no Reino Unido e de terem tido implicações em algumas casas reais europeias (da norueguesa à britânica), agora é o Ministério dos Negócios Estrangeiros que está no centro das polémicas em Paris. Mas ainda não é clara a extensão das ligações de Jeffrey Epstein ao Governo de França, país onde o milionário passava temporadas e onde havia intermediários e recrutadores europeus associados à rede sexual que montou durante décadas.

Jack Lang. O amigo de Woody Allen e a empresa offshore nas Ilhas Virgens Americanas

Analisando os milhões de ficheiros divulgados do caso Epstein, o portal de investigação Mediapart encontrou vários e-mails trocados entre Jeffrey Epstein e Jack Lang, um antigo ministro do PS. O ex-governante tem uma extensa carreira política. Foi ministro da Cultura de François Mitterrand, ocupou o cargo de porta-voz do Governo quando Édith Cresson foi primeira-ministra e ainda teve a pasta da Educação entre 2000 e 2002, durante a coabitação entre o ex-líder do executivo socialista Lionel Jospin e o Presidente Jacques Chirac.

Foi depois deputado socialista na Assembleia Nacional durante dez anos. Em 2013, na sequência de uma derrota no círculo eleitoral em que competia, foi nomeado presidente do Instituto do Mundo Árabe, uma instituição cultural com o objetivo de melhorar as relações diplomáticas entre o mundo árabe e França. Lang esteve 13 anos no cargo, até apresentar a demissão esta segunda-feira.

Como conta o Le Monde, o ex-ministro conheceu Jeffrey Epstein em 2012 através de um casal conhecido de quem é amigo: o realizador Woody Allen e a sua mulher Soon-Yi Previn, que apresentaram o milionário a Jack Lang durante um jantar. Os quatro tinham um interesse em comum, a arte. Entre galerias parisienses e sofisticadas vernissages, o antigo governante francês e o empresário norte-americano foram solidificando a amizade. Quem também se relacionava com os dois era a filha mais velha de Jack Lang, Caroline, que era quem escrevia os e-mails para o milionário (uma vez que o pai nunca mexeu num computador).

A amizade passou para o campo dos negócios. Caroline Lang admitiu ao Mediapart que Jeffrey Epstein disse ao pai que “queria investir em artistas franceses e internacionais”, tendo sido criada uma empresa offshore pelos dois. É o nome da filha, ainda assim, que aparece nos documentos que estipulam a criação desta sociedade nas Ilhas Virgens Americanas. “Fui incrivelmente ingénua. Nunca declarei nada ao fisco francês”, retratou-se a mulher, ressalvando, contudo, que a família nunca “colocou qualquer cêntimo” neste fundo estrangeiro — entrou apenas dinheiro do milionário norte-americano.

Mesmo assim, os e-mails do caso Epstein também mostram que Jack Lang tinha o seu nome nos estatutos da sociedade offshore nas Ilhas Virgens Americanas e que se interessava pela sua gestão. Para além desta empresa, o condenado por abusos sexuais chegou a transferir verbas para aliados do ex-ministro francês: em 2018, o próprio Lang recebeu 57.897 euros de Jeffrey Epstein. Em declarações ao Politico, o antigo governante alegou que esse dinheiro serviu para financiar um filme que contava a sua biografia.

De qualquer forma, o pai e a filha asseguram que não faziam ideia da rede sexual de Jeffrey Epstein. Caroline Lang assinalou que nunca teve qualquer encontro romântico com o milionário e garantiu que nunca foi informada dos casos de pedofilia. “Um dia, há algum tempo, [Epstein] disse-me: ‘Se procurares o meu nome no Google, talvez nunca mais queiras falar comigo’. Eu fui procurar e encontrei na imprensa da Florida que ele tinha sido condenado por aliciar menores e que tinha sido condenado por isso em 2008. Ele disse que tinha pagado a sua dívida e compensou as vítimas. Acreditei nele”, contou a mulher à Mediapart.

Já Jack Lang sinalizou, numa entrevista à BFMTV, que conhecera há “cerca de quinze anos” Jeffrey Epstein: “Não sabia nada sobre ele. Só que era um homem apaixonado por arte, cultura e cinema.” Questionado sobre a presença do seu nome nos estatutos da sociedade offshore nas Ilhas Virgens Americanas, o antigo ministro justificou que apareceu “por acaso”, mas garantiu que nunca recebeu um “cêntimo” do empresário norte-americano.

Não obstante, isso não impediu as autoridades fiscais francesas de abrirem um inquérito para estabelecer os contornos das ligações entre a família Lang e Jeffrey Epstein, suspeitando-se da prática do crime de branqueamento de capitais. “Recebo a notícia [da investigação] com serenidade e até alívio”, reagiu Jack Lang no X, numa publicação em que defendeu a sua inocência: “As acusações feitas contra mim não têm qualquer sustentação e vou demonstrar isso, para além da fúria dos meios de comunicação sociais e dos tribunais digitais”.

"As acusações feitas contra mim não têm qualquer sustentação e vou demonstrar isso, para além da fúria dos meios de comunicação sociais e dos tribunais digitais."
Jack Lang

Apesar de reiterar a sua inocência e de insistir que a ligação a Jeffrey Epstein era apenas no âmbito de arte, Jack Lang acabou por se demitir do cargo no Instituto do Mundo Árabe, justificando que o fazia para não manchar a reputação da instituição cultural. A filha também renunciou ao cargo que mantinha na Sociedade de Produtores de Cinema.

Em reação, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês considerou ser “inevitável” que o antigo ministro da Cultura se demitisse. “A integridade do Instituto do Mundo Árabe estava em causa. Não podíamos aceitar”, afirmou Jean-Noël Barrot, recordando que a instituição é apoiada financeiramente pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros: “Não podemos ter a nossa credibilidade comprometida”. O sucessor será escolhido na próxima semana.

Fabrice Aidan. O funcionário do MNE que passava segredos da ONU a Epstein

A poeira da polémica com Jack Lang ainda nem tinha assentado. Poucos dias depois, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês via outro escândalo rebentar — este com implicações ainda mais graves. Os ficheiros revelados pelo Departamento norte-americano deram conta de que o pouco conhecido diplomata Fabrice Aidan também era bastante próximo de Jeffrey Epstein.

Foi novamente o portal de investigação Mediapart a denunciar a situação, desta vez juntamente com a Radio France. Ao longo de anos, Fabrice Aidan trocou vários e-mails com Jeffrey Epstein, demonstrando uma relação de grande proximidade. O diplomata integrou mesmo o núcleo duro do milionário, interagindo com várias figuras próximas do norte-americano.

Como os dois homens se conheceram ainda permanece uma incógnita. Mas os primeiros contactos começaram em meados de 2010, quando Fabrice Aidan trabalhava na ONU. O diplomata francês era assistente do norueguês Terje Rød-Larsen, o enviado especial do Conselho de Segurança das Nações Unidas para a implementação da Resolução 1559 sobre o Líbano.

Era ao norueguês, que ocupava um cargo de destaque e com influência, que Jeffrey Epstein queria chegar. E Fabrice Aidan terá sido a pessoa ideal para o ajudar não só nesta missão, como noutras. Por exemplo, como mostram os e-mails, o francês ajudou o empresário norte-americano a participar no Fórum Sir Ban Yas, um evento organizado pela diplomacia dos Emirados Árabes Unidos. O objetivo do milionário consistia em encontrar-se com Abdullah bin Zayed Al Nahyan, o ministro dos Negócios Estrangeiros do país do Golfo Pérsico.

A teia na ONU envolve Terje Rød-Larsen, que também ajudava Jeffrey Epstein a alcançar os seus objetivos financeiros. Mais: os e-mails revelam que o norueguês e o francês enviavam documentos confidenciais das Nações Unidas ao empresário. Em 2011, enviaram a transcrição de uma conversa telefónica entre o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o ministério dos Negócios Estrangeiros turco da altura, Ahmet Davutoğlu. Encaminharam mais tarde, para o empresário, um relatório do Conselho de Segurança sobre a Resolução 1559.

Era em Paris, longe da sede da organização internacional, que o empresário pagava os favores. Por exemplo, quando ia à capital francesa, Terje Rød-Larsen ficava hospedado no luxuoso apartamento de Jeffrey Epstein. Era Fabrice Aidan quem tinha o código para que o norueguês ficasse instalado na casa. Em simultâneo, o milionário oferecia-lhes também presentes: foi uma vez pedido ao diplomata francês que descobrisse qual o número que o norueguês calçava, de modo a que Epstein lhe oferecesse uns sapatos

Segundo os ficheiros, ainda há provas de que Jeffrey Epstein transferiu elevadas somas de dinheiro para as contas de Terje Rød-Larsen, sendo que Fabrice Aidan servia como intermediário, de forma a não levantar suspeitas. Os dois homens na ONU chegaram a trabalhar juntos no Instituto Internacional da Paz, um think tank sediado em Nova Iorque que foi liderado pelo diplomata norueguês. Neste organismo, o francês focava-se em assuntos geopolíticos relacionados com o Médio Oriente.

Além da ligação a estes homens, uma polémica assombrou a passagem de Fabrice Aidan pela ONU. Foi aberta uma investigação pelo FBI ao diplomata francês. O motivo? Foi suspeito de ter na sua posse materiais ligados a pornografia de menores. As Nações Unidas confirmaram o sucedido à Radio France: “Fabrice Aidan trabalhou para as Nações Unidas, através do Governo francês, desde julho de 2006 até renunciar [ao cargo] em abril de 2013. Nessa altura, estava em curso um processo disciplinar interno. Não sabemos o que aconteceu com a investigação do FBI”.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês também corroborou a tese de que Fabrice Aidan estaria a ser investigado pelo FBI e anunciou que os “dirigentes franceses nos Estados Unidos dessa altura estão a ser interrogados”. Aliás, a diplomacia de França está a tentar entender o que levou a que as informações destas investigações tivessem ficado “perdidas”.

Por sua vez, o embaixador de França nas Nações Unidas de então assegurou que informou o ex-secretário-geral do sucedido. “Disse a [Ban Ki-moon] que [Fabrice Aidan] teria de regressar a França e liguei para Paris. Partiu em 48 horas”, recordou Gérard Araud, explicando que “fez a sua parte”. “Depois disso, não cabe a mim decidir quais serão as consequências legais”, acrescentou.

"Fabrice Aidan trabalhou para as Nações Unidas, através do Governo francês, desde julho de 2006 até renunciar [ao cargo] em abril de 2013. Nessa altura, estava em curso um processo disciplinar interno. Não sabemos o que aconteceu com a investigação do FBI."
Nações Unidas

Nas centenas de ficheiros e na troca de correspondência entre Fabrice Aidan e Jeffrey Epstein, não há, contudo, nenhuma menção direta a pedofilia. E após o escândalo ter rebentado, a advogada que representa o diplomata francês emitiu um comunicado em que “contesta todas as acusações feitas” em nome do cliente. “O que foi dito sobre o que alegadamente aconteceu em 2013 é totalmente falso. Nunca existiu qualquer acesso a sites de pornografia infantil. O FBI investigou o caso e não foi deduzida qualquer acusação. As investigações em França chegaram à mesma conclusão”, esclareceu.

O impacto na carreira de Fabrice Aidan foi imediato, ainda assim. Antes da polémica, estava de licença sem vencimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros “por motivos pessoais”. Atualmente, o francês trabalhava para uma empresa privada no setor energético, a Engie. A multinacional já anunciou a suspensão do alegado cúmplice de Jeffrey Epstein.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês ficou “consternado” com os contornos da relação do diplomata com Jeffrey Epstein, assim como o Presidente, Emmanuel Macron. Na Presidência e no Governo, já se antevê que estes dois casos poderão não ser os únicos a envolver políticos do país. Afinal, o milionário tinha uma casa em Paris e ia à cidade com regularidade, o que aumenta as chances de haver ligações profundas a vários setores da sociedade francesa.