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Palácios e princesas, negócios e lazer. Como Epstein entrou nos círculos da aristocracia europeia

Os ficheiros recentemente divulgados revelam a busca do milionário por comprar um castelo na Europa, o romance com uma princesa de 20 anos e os conselhos financeiros que deu a uma poderosa baronesa.

Sâmia Fiates
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Era sábado, 15 de julho de 2006, e os jardins do Castelo de Windsor estavam tomados por mais de 400 membros da aristocracia britânica, personalidades políticas e celebridades. A princesa Beatrice, neta da Rainha Isabel II, fazia 18 anos, e os pais, os duques de Iorque, ofereciam-lhe uma festa extravagante: um baile de máscaras luxuoso, que custou mais de 300 mil libras. Mascarados, os convidados brindaram à maioridade da princesa e aproveitaram para tirar fotos dentro da propriedade da realeza britânica. Horas antes, um cocktail mais íntimo foi organizado no Royal Lodge, a residência oficial da família, apenas para os mais chegados. E entre estes convidados especiais estavam Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell.

A amizade próxima com André Mountbatten-Windsor e Sarah Ferguson, que já vinha desde o final dos anos 1990, permitiu a Jeffrey Epstein frequentar diversas propriedades da realeza — de Balmoral a Sandringham, o criminoso sexual passou por casas de campo e palácios em diferentes eventos. Mas os ficheiros divulgados recentemente pelo Departamento de Justiça norte-americano revelam que Epstein não queria só a vida social dentro destes espaços de nobreza. O milionário chegou mesmo a procurar castelos entre a Itália e o Reino Unido, à venda por valores que superam as centenas de milhões de euros, e recrutou jovens aristocratas bem relacionadas, as quais mantinha sob o seu domínio ao pagar despesas com faculdades privadas e apartamentos em capitais europeias, para em troca lhe apresentarem as amigas “fofas” com a mesma origem privilegiada — e cada vez mais jovens.

O castelo com praia privativa, o jardim “santo” e as mansões de 100 milhões

Em outubro de 2010 o diplomata norueguês Terje Rod-Larsen enviou um email a Epstein a sugerir “um castelo com praia privativa entre Trieste e Veneza”, destacando ser “a casa ancestral de uma parte austríaca e italiana dos Condes de Thurn and Taxis”. “O conde está à procura de um potencial comprador, pedindo um preço perto de 20 milhões de euros — ele precisa de dinheiro e provavelmente pode baixar significativamente”. Epstein respondeu que está “sempre” interessado num negócio como este. Na sequência, Rod-Larsen passou a trocar vários emails com o agente imobiliário Patrick Kyd-Rebenburg, incluindo mapas e fotografias do castelo. Há emails que revelam o desejo de Epstein de viajar até a propriedade, porém não fica claro se o milionário alguma vez esteve no local.

Trata-se do Castelo de Duíno, que é atualmente a residência oficial de Carlo Alessandro della Torre e Tasso, o duque de Duino, primo em segundo grau do Rei Carlos III. O castelo do século XIV que pertence à família, em Trieste, na Itália, é atualmente um monumento aberto ao público, onde também são realizados eventos e exposições de arte. Mas em 1997 Carlo Alessandro colocou parte das peças do interior do castelo num leilão, e tentou vender a propriedade. Em 2003 a família decidiu abrir o castelo para visitas e o filho, Dimitri della Torre e Tasso, assumiu a administração, reformando toda a construção. Contudo, a um jornal local em 2009, assumiu que ainda àquela altura recebia propostas para venda.

O negócio com os Torre e Tasso parece não se ter concretizado, mas Rod-Larsen e Patrick Kyd-Rebenburg não desistiram de encontrar um castelo para Epstein. Em 2011, o diplomata norueguês e o agente imobiliário trocam vários emails com informações sobre a Villa Barbarigo, uma propriedade do século XVII a 45 minutos de Veneza e que foi fundada pelo pai de Gregorio Barbarigo, cardeal italiano canonizado pelo Papa João XXIII em 1960. “Ele deixou a sua marca no design e layout dos jardins e quis trazer a paz celestial para esta parte da Itália. Gregorio foi mais tarde tornado santo. É, portanto, um jardim santo, por assim dizer, literalmente“, escreve Kyd-Rebenburg no email em que apresenta a propriedade. Noutra troca de emails entre o agente imobiliário e Rod-Larsen, há a menção de transformar o castelo num hotel de luxo. Contudo, os ficheiros não incluem informações sobre desenvolvimentos futuros no negócio.

Quem também se envolveu numa espécie de busca por um castelo para Epstein foi David Stern, o investidor alemão que serviu de intermediário entre o criminoso sexual e o ex-príncipe André, especialmente a partir de 2011. “Encontrei isto depois de me teres contado que estás interessado num castelo, há algum tempo…”, escreveu Stern em janeiro de 2010. O email apresenta uma propriedade de 40 hectares na cidade suíça de Zug. “A mansão estilo castelo fica escondida no lago e não é visível do exterior”, diz o texto que descreve a casa, que segundo a agente imobiliária, “não está no mercado e os proprietários estão à espera do momento certo”, mas que custaria cerca de 100 milhões de francos suíços.

Ao longo dos anos seguintes, a especulação sobre um palácio europeu continuou, envolvendo várias pessoas próximas de Epstein. Em 2014 o amigo Mark Lloyd enviou-lhe o material sobre Hackwood Park, em Hampshire, no Reino Unido. “Para o caso de estares a procurar uma casa de campo”, escreveu o amigo. Epstein de imediato pergunta o preço. “Mais do que acredito que queiras pagar. 105 milhões de libras”. “Acredita-se que Hackwood foi um presente do Rei Henry VIII para Sir William Paulet, o primeiro marquês de Winchester, no século XVI”, lê-se na informação enviada a Epstein. Já em 2016 é a namorada do milionário, Karyna Shuliak, que pede informações sobre uma penthouse no Palazzo Pecci Blunt, em Roma. A dentista bielorrussa terá visitado o apartamento em abril, mas não fica claro se Epstein chegou a investir no imóvel.

O romance com a “princesa teen”

A teia de Epstein infiltra-se também em vários núcleos aristocráticos europeus. O milionário tinha contacto com várias jovens com títulos de nobreza entre Roma e Paris — e com pelo menos uma delas chegou a ter um relacionamento mais próximo. Trata-se da filha de uma modelo francesa com um aristocrata italiano que morreu em 2005, e que viveu por anos num castelo a alguns quilómetros de Roma. Em 2013 foi uma das debutantes do célebre Le Bal, em Paris — e levou um vestido Chanel. Em 2014 já era uma espécie de celebridade, ou “princesa teen”, como publicava a imprensa de moda da época, pela sua presença também em campanhas de marcas como a Ferragamo. Nos ficheiros revelados em janeiro, há dezenas de emails e mensagens entre Epstein e a jovem, que teve o nome rasurado pelo Departamento de Justiça norte-americano. As fotografias e informações pessoais presentes nos documentos levam à identidade da italiana, que agora vive nos Estados Unidos da América.

No mês de fevereiro, Epstein parece deixar algumas recomendações à nova amiga. "Reflexologia, Sasha Grey, digitação, a arte de cozinhar, TOEFL, aulas de balé, alimentação saudável, não beber nem fumar", escreve o criminoso sexual, que a esta altura já havia sido condenado por solicitar a prostituição de uma menor há cerca de sete anos.

Não fica claro como Jeffrey Epstein conheceu a princesa, mas os primeiros emails entre ambos parecem ser de 2015, quando a jovem tinha 21 anos. No mês de fevereiro, Epstein deixa algumas recomendações à nova amiga. “Reflexologia, Sasha Grey, digitação, a arte de cozinhar, TOEFL, aulas de balet, alimentação saudável, não beber nem fumar”, escreve o criminoso sexual, que a esta altura já havia sido condenado por solicitar a prostituição de uma menor há cerca de sete anos. “Há alguma receita em particular de que gosta, para que eu aprenda e faça para si?”, pergunta a jovem, ao que Epstein responde: “Beringela”.

Em maio, a “princesa” pede ajuda para se inscrever na American University of Paris. Envia a Epstein uma mensagem que pretende submeter, com alguns detalhes sobre as suas origens e experiências. “A minha mãe é de Paris e eu já estive em Paris em muitas ocasiões. Sinto-me extremamente ligada a esta capital europeia em muitas perspetivas, incluindo família e educação”, escreve. “Entre as minhas visitas mais recentes, estive em alguns desfiles: em outubro de 2013 estive no desfile da coleção primavera/verão pronto a vestir da Chanel, em janeiro de 2014 fui aos desfiles de alta-costura da Chanel e da Valentino, e em novembro de 2014 fui ao baile de debutantes de Paris a representar a Chanel, onde conheci pessoas de todo o mundo”. Dois meses depois, um memorando revela que foram transferidos 14.875 euros para a The American University of Paris. Dias depois, Richard Kahn, responsável pelas finanças de Epstein, troca emails com Sally Overton, contabilista dos alunos da universidade, a confirmar o envio do valor. “A conta da estudante foi creditada e está tudo bem com a mensalidade do outono”, responde.

Em setembro, a aristocrata parece recrutar jovens para Epstein. Após uma festa, a princesa partilha uma fotografia em que aparece com um homem e uma mulher. “Uma rapariga que gostei: Carlota Bulgari, muito bonita. A única que achei fofa”, escreveu, sobre a herdeira da joalharia italiana. “Fiz algumas amigas europeias, Sasha du Gunzburg, não é bonita mas tem boas conexões”. Depois, a jovem envia outro email: “Zita d’Hauteville (com o vestido brilhante, à esquerda), outra de que eu gostei, vive em Londres”. As duas conheceram-se na verdade dois anos antes, no baile de debutantes de Paris. “It girl” da sua geração, Zita é filha do conde Eric de Renusson d’Hauteville e da condessa Isabelle de Séjournet de Rameignies, e atual namorada de Jean Arnault, filho de Bernard Arnault, CEO da LVMH. Apesar de citar os nomes das jovens — que não foram rasurados pelo DOJ — não há outras menções às mulheres nos ficheiros, nem indícios de que Epstein se tenha encontrado com qualquer uma delas.

Já no último dia de 2015, a italiana e Epstein trocam mensagens de ano novo, e o milionário deseja “que o próximo ano seja melhor”, chamando-a “docinho”. A jovem responde com uma fotografia do criminoso sexual junto de uma pessoa que tem o rosto rasurado pelo Departamento de Justiça norte-americano.

Porém, o primeiro dia de 2016 traz um novo tom para as mensagens. A jovem não terá ido às aulas na AUP. Ao invés de frequentar a universidade, de acordo com as conversas entre ambos, optou por ir a festas e terá usado o dinheiro enviado por Epstein para fazer compras de luxo, como na joalharia Cartier. Em junho, Epstein menciona numa mensagem um suposto “roubo”, e começa a enviar mensagens críticas à jovem. “Desculpa Jeffrey, estás certo. Concordo totalmente contigo. É errado fazer isso com pessoas que conheço sem os contar. Quando falei contigo ontem à noite foi de forma genérica, como um negócio com potencial para fazer dinheiro e como conheço muitas pessoas a fazer o mesmo pensei que estava tudo bem. Entendo que seja errado, mas não acredito que ‘roubo’ seja a palavra apropriada para o descrever”, escreve a mulher, que recebe uma resposta ainda mais agressiva. “Tentar ser esperta com uma resposta estúpida é típico. Estou a achar que estás a ser astuta em vez de estar a procurar trabalho”, diz Epstein, que depois chama a chama de “preguiçosa” e “mimada”. “Sempre fui muito querida e dei-te tudo o que pude”, responde a princesa em determinada altura. No final da troca de mensagens, a jovem diz: “Entendo que não me amas”.

Contudo, poucos dias depois da troca de mensagens tensa, a aristocrata envia fotografias com a família no castelo. “Fim de semana super divertido”, escreve a jovem, que depois envia outra mensagem: “Jeffrey! Queria mostrar-te o topo do castelo”. Nesta mesma sequência, a “princesa” envia a Epstein uma troca de emails com um representante da Vogue Espanha, a agendar uma sessão fotográfica no castelo da família. No final do ano, ambos trocam novas mensagens, em que a jovem lhe envia uma fotografia de quando tinha 17 anos. “Quando eu era inconsciente e sempre feliz”. Epstein responde: “Pelo menos continuas inconsciente”. Poucos tempo depois veio a resposta: “Sim, muito inconsciente de estar com um bad boy de 63 anos”. A jovem sugere ainda que Epstein poderia ser o seu avô: “Um avô muito sexy”. Em janeiro de 2017 as fotos já foram publicadas pela revista espanhola, e a jovem partilha o resultado com Epstein. “Fofa”, escreve, sobre algumas das imagens. Cerca de uma semana antes, o criminoso sexual envia uma mensagem a dizer: “espero que goste do trabalho”, dando a entender que a ajudou a conseguir um emprego. “Adoro! Estou muito feliz e grata”, lê-se na resposta.

Em 2017 a comunicação de Epstein fica ainda mais agressiva. Em março, o milionário escreve que enviou 10 mil euros, mas a jovem pede mais. “O que faço? Não consigo pagar a renda e não consigo encontrar uma casa nem um lugar para ir dentro de uma semana”, escreve. Em maio, Epstein envia um email a dizer que já deixou Paris rumo à Califórnia. “Espero que estejas bem. Tenho poucos motivos para confiar no que dizes. Depois de tantas promessas, acordos, garantias quebradas. Sugerir que eu cederia ao choro, birras e estupidez, foi o meu erro, e que eu não deveria te ter ajudado antes, é típico da tua forma complicada de pensar“, diz o milionário.

Os dois trocam mais alguns emails, com a princesa a responder: “Tenho uma última questão. O que aconteceu na Cartier e na escola foi há dois anos. Desculpei-me muitas vezes e sabias o quão arrependida estava e estou. Perdoaste-me e continuámos a falar. Exatamente seis meses atrás, em novembro, vimo-nos em Paris e tudo estava normal. Mas logo depois, quando comecei a trabalhar para a Alaia, começaste a distanciar-te sem motivo, e a recordar coisas que aconteceram há dois anos. A minha última pergunta: O que eu fiz em novembro para merecer isso? É porque eu te disse que estava triste porque não dormimos juntos da última vez que nos vimos? Porque desde este momento que tudo ficou estranho. Por favor, diz-me a verdade”. Epstein diz que “Não foi nada. Birras, crise atrás de crise. Adeus”.

"Não podes deixar-me dessa forma. Não se faz isso nem com um cão. O que estás a fazer é desumano e cruel. Não tens alma. Toda gente concorda que este comportamento é horrível. Sabes perfeitamente que não me posso sustentar sozinha. Não mereço isso. Quero voltar para a escola."
A "princesa", num email a Epstein

Mas a troca de emails não termina. A aristocrata explica-lhe que está a esforçar-se por um trabalho, e Epstein chega a perguntar-lhe quanto dinheiro por mês seria suficiente. “2 mil: 1500 de renda + 500 para comida, o resto eu vou ganhar sozinha”, respondeu. “Não. Este é o mesmo valor que eu te dei antes”, responde Epstein, que escreve ainda que é “o mesmo que a maioria das pessoas faz ao trabalhar a tempo inteiro”. A jovem insiste, e continua a enviar emails a pedir desculpas. “Quando nos conhecemos não tinha nenhuma noção de dinheiro e realidade, tinha uma mentalidade diferente e estava numa situação diferente… As minhas emoções tomaram conta da minha parte racional, e eu fiquei completamente cega e estúpida. Tinha prioridades diferentes. Passei mais tempo a pensar em ti, a tentar descobrir se gostavas de mim ou não, e distraí-me de mim mesma, indo a festas ao invés de focar-me em como iria ganhar e gerir o meu dinheiro e levar a minha vida a sério”, escreve. Em outubro de 2017, parece mesmo implorar. “Não podes deixar-me dessa forma. Não se faz isso nem com um cão. O que estás a fazer é desumano e cruel. Não tens alma. Toda a gente concorda que este comportamento é horrível. Sabes perfeitamente que não me posso sustentar sozinha. Não mereço isso. Quero voltar para a escola”. Esptein responde: “Fizeste isso a ti mesma. Festas e viagens ao invés de estudar. Decidiste ser atriz, assistente fotográfica, tudo por conta própria, contra todos os conselhos. Foste avisada que se não levasses as aulas a sério e pedisses ajuda quando precisasses, irias acabar exatamente onde estás. Falei com a tua professora. Não levaste a escolha a sério e nem pediste ajuda”. Um mês depois, a princesa escreve que gostaria de “evitar ter que vender o meu corpo para pagar a renda“.

Em março de 2018 os dois parecem combinar que a jovem deveria trabalhar por um ano inteiro para poder retomar a escola e recuperar a relação mais próxima com Epstein. Ela pede para que voltem a falar e diz que quer ir a Nova Iorque. O criminoso sexual orienta que volte a entrar em contacto em outubro. Na mensagem enviada em outubro de 2018, entretanto, a aristocrata já não pede desculpas ou mais dinheiro — informa que tem um novo namorado. “Dá-me 50 mil por mês para que eu possa guardar dinheiro para o meu futuro, comprou-me um visto EB-5 e está a enviar-me para a escola. Além disso, comprou-me um carro, paga-me compras, joalharia, e viagens incríveis por todo o mundo. Tudo isso em quatro meses. Ele é a pessoa mais querida que eu já conheci. Estou tão feliz e sou tão grata… Ninguém nunca fez tanto por mim”, escreve. “Estou muito feliz em ouvir, parabéns”, responde Epstein. A “princesa” revela ainda uma “surpresa” sobre o novo romance: “E sabes qual é a melhor parte? Vocês os dois têm o mesmo nome!”

Esta parece ter sido a última troca de emails dos dois. Em julho de 2020, uma revista de moda elegeu-a a “it girl” do verão, destacando as suas origens na realeza, a experiência no mundo da moda e os contactos com pessoas da aristocracia britânica, como Lady Kitty Spencer ou Flora Ogilvy.

Ao analisar os ficheiros, é possível perceber que Epstein correspondia-se também com uma amiga próxima da princesa, outra jovem da elite italiana, filha de um conde e membro de uma família dona de empresas do universo automóvel Aparece nas trocas de mensagens como “Margot”, mas tem o nome verdadeiro rasurado. “Vou ao baile de 18 anos de Carlotta Caltagirone”, escreve a jovem, que na altura tinha 24 anos. “Deves ir e encontrar-me uma esposa“, responde Epstein. Na mesma troca de emails, o milionário especifica que quer uma “esposa jovem e uma mulher mais velha para gerir a casa”. Quase um ano depois os dois voltam a corresponder-se. “Mykonos foi super divertido. Muitas pessoas de Londres e Nova Iorque. Acho que vi uma das tuas meninas lá. A loira alta, com olhos azuis, que vai à tua casa em Nova Iorque algumas vezes”. “Encontraste-me alguma nova assistente?”, questiona Epstein de seguida. A mulher diz então que vai questionar uma “amiga russa”.

A recrutadora “quase irmã” de Kate Moss

Epstein também recebia dicas especiais de uma socialite britânica que era uma figura conhecida na noite londrina como uma musa não oficial de Alexander McQueen, e que costumava dizer que Kate Moss era uma “quase irmã“, escreve o Telegraph. Annabelle Neilson morreu em 2018, aos 49 anos, com um ataque cardíaco, mas cerca de cinco anos antes correspondia-se com frequência com Epstein. A mulher tem o nome citado pelo menos 100 vezes nos ficheiros divulgados recentemente.

“Estou a juntar um grupo de raparigas. Espero que uma delas tenha as qualidades certas“, escreve a socialite, num email enviado em setembro de 2010, no que parece ser uma tentativa de Epstein em contratar uma assistente pessoal. “Queria ter 20 anos a menos e saber falar francês”, escreve Neilson, ao revelar alguns pré-requisitos do milionário. Annabelle Neilson tinha 41 anos na altura.

“Devo dizer que algumas das minhas meninas, que seriam perfeitas para o trabalho, mas infelizmente já passaram da validade, teriam largado os seus maridos e quase filhos pelo emprego quando lhes perguntei”,e screve ainda. Alguns dias depois, Epstein envia a Annabelle um email a pedir “nomes e horas”. Neilson revela que agendou uma entrevista com Lady Alexander Spencer-Churchill, filha mais nova de John Spencer-Churchill, que foi duque de Marlborough, e Lady Louisa Compton, filha de Spencer Compton, marquês de Northampton. Apesar dos horários agendados, não é certo que Epstein se tenha encontrado com as duas filhas de aristocratas britânicos. Contudo, o criminoso sexual responde ao email de Neilson com um pedido. “Tem alguém fofa para depois?” A socialite britânica então questiona: “Fofa como um peluche? Ou fofa como uma menina inglesa mal-comportada?” Depois, Neilson conclui: “Tenho uma amiga que diria que representa o problema das meninas ingleses. Parecem ficar um pouco loucas, mas não da maneira correta, se é que me entende”. Em outubro, Annabelle envia outro email a Epstein a perguntar como estão “as meninas. Espero que tenhas ficado com os números que deixei para ti das apresentadoras brasileira e italiana”.

Neilson troca mensagens com Epstein até 2012. Em 2018, o criminoso sexual enviou um email a uma pessoa que teve o nome rasurado com o link da notícia da revista People que dá conta da morte da socialite. A pessoa comenta: “Isso é horrível! Acha que pode ter sido drogas? Ela era tão cheia de vida e energia”, ao que Epstein responde apenas: “Sim”.

Negócios com a baronesa

O interesse de Epstein por membros da elite europeia, os documentos assim o revelam, também estava especialmente ligado aos contactos e negócios que estas pessoas poderiam trazer-lhe. Na primavera de 2013 o milionário conheceu a banqueira Ariane de Rothschild, através do diplomata norueguês Terje Rod-Larsen, que negociou alguns castelos em nome de Epstein em 2010, e Olivier Colom, um antigo conselheiro de Nicolas Sarkozy que tinha uma relação próxima a Epstein. Colom foi secretário geral no Rothschild Group entre 2013 e 2016. “Divertimo-nos com a Ariane esta semana. Ela falou o dia todo sobre ti e o conselho que lhe deste no passado domingo. E a mãe dela também gosta de ti”, escreveu em outubro do mesmo ano.

Ariane não é uma Rothschild de sangue. Nasceu em El Salvador e começou a carreira nas finanças no banco francês Société Générale em Paris, onde conheceu nos anos 1980 o único filho de Edmond e Nadine de Rothschild, Benjamin, com quem se casou e de quem herdou o apelido e o título de baronesa. É atualmente a CEO do Edmond de Rothschild Group, com uma fortuna pessoal avaliada em 5,3 mil milhões de euros, segundo a revista francesa Challenges.

Os emails entre ambos deixam transparecer uma relação muito próxima, apesar de falarem principalmente de negócios. Jeffrey Epstein comporta-se como um mediador para Ariane, fazendo a ligação com os seus amigos banqueiros norte-americanos e outras figuras importantes, como foi o caso do antigo primeiro-ministro israelita Ehud Barak, German ou o empresário italiano Ugo Brachetti Peretti, recorda o Le Monde. “Como provavelmente deve saber, eu represento os Rothschild“, escreveu Epstein em 2016, ao antigo CEO da Paypal, Peter Thiel. E de facto, o milionário tinha contacto com membros dos círculos fechados de Ariane e do grupo Rothschild. Em 2017, ao falar com Johnny El Hachem, CEO do setor de capital privado do banco, logo depois de Donald Trump tomar posse no seu primeiro mandato, Epstein aconselha: “Trump vai querer fazer parcerias público-privadas na maioria das coisas. Donald adora o nome Rothschild“.

Além dos conselhos financeiros, Epstein e Ariane trocavam presentes, dicas de lifestyle, contactos para a filha de Ariane, ideias de viagens de férias, e visitas e jantares: estiveram juntos em contextos sociais em Genebra, Nova Iorque e Paris, onde a baronesa também tinha casas. “Nunca precisas te esconder de mim, posso ouvir e aconselhar ou só ouvir, mas não há nada que possas dizer que me vai chocar. Não há nada que mude a minha visão de ti e das tuas filhas, nada, e estou muito ciente das dificuldades que tu enfrentas”, escreveu Epstein um email em 2014, quando Ariane parece assumir-se “deprimida” com o regresso do marido.

A amizade durou até 2019 — a última troca de emails entre ambos é de cerca de três meses antes da sua prisão pelas acusações de tráfico sexual. “Feliz de ver a movimentação para se tornar privado. Muitas oportunidades”, elogiou Epstein, sobre o anúncio de que o grupo sairia da bolsa de Zurique após a aquisição de 100% das ações pela família. “Estou muito feliz de ter deixado isso para trás e ter algum tempo livre com a nova organização”, respondeu Ariane. “Agora podes passar mais tempo nos EUA comigo e Kathy! Espero que tenhas a paz que mereces”, escreveu o milionário, falando sobre a advogada Kathy Ruemmler, que já trabalhou como conselheira de Barack Obama.

A relação de ambos é conhecida desde 2023, mas com a nova leva de ficheiros, o grupo Edmond de Rothschild reconheceu que a “relação profissional” “evoluiu ao longo dos anos para uma relação mais pessoal”. Entretanto, o banco faz questão de afirmar que “Ariane de Rothschild não tinha nenhum conhecimento do comportamento pessoal de Epstein e condena os crimes pelos quais ele foi declarado culpado”.