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Do yoga à religião, as estratégias usadas pelas seitas para controlar e explorar os seguidores

Isolamento social, submissão e segredos. O novo Podcast Plus conta como várias portuguesas foram exploradas por um guru que usou o yoga. Mas os passos para criar uma seita são quase sempre os mesmos.

Mariana Marques Tiago
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Tânia Pereirinha
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Ana Moreira
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Ninguém se junta a um grupo com o objetivo de entrar numa seita. Pelo contrário, quem o faz parte do princípio que esta nova comunidade vai trazer-lhe benefícios e novas aprendizagens. Mas a pouco e pouco, estas pessoas sujeitam-se a uma manipulação cada vez maior, que leva à sua própria desconstrução e perda de individualidade e culmina numa obediência cega. Em Lisboa, tendo como ponto de entrada a escola de yoga e tantra Natha, várias mulheres portuguesas foram expostas a este processo. A sua história é agora contada no novo Podcast Plus do Observador, “Os Segredos da Seita do Yoga”.

Há quem caia no erro de achar que só pessoas com “pouca formação académica; pessoas simples do povo ou com poucos estudos” se envolvem em seitas ou cultos, mas este é apenas um “preconceito”, diz António Madaleno. Segundo o especialista e autor de “O Universo das Seitas Destrutivas”, “na realidade, muitos dos alvos preferenciais deste tipo de grupos são pessoas formadas e com estudos”.

Fazem-no porque assim “o líder [do movimento] e o grupo podem usar isso como bandeira e dizer: ‘Nós não somos uma seita ou um culto porque até temos advogados, juízes, médicos, arquitetos…’ Pessoas com formação superior são usadas como propaganda dentro do próprio grupo”, explica.

Foi o caso de Vera (nome fictício), uma das mulheres portuguesas que conta a sua história no novo Podcast Plus. Diz que durante muito tempo recusou conhecer a Natha – Escola Espiritual de Yoga e Tantra, apesar da insistência do rapaz com quem trocava mensagens online: “Ele não me conseguia convencer a ir lá, até que decidiu dizer-me: ‘Temos lá uma professora romena que se licenciou em Medicina com 20 a tudo. É um exemplo de liderança feminina extraordinário. Não queres ir conhecê-la?’ E eu assenti, finalmente.”

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Vera, na casa dos 20 anos à época, entrou para a Natha pouco depois de terminar a licenciatura. E enquanto conta a sua história ao Observador faz questão de destacar várias vezes que as pessoas que estavam naquela escola, inaugurada em 2009, e que tinha como guru o romeno Gregorian Bivolaru, “não eram pessoas burras”.

E vai mais além: conta que todas as pessoas que viviam no ashram (a casa onde habitavam todos os seguidores de Bivolaru) eram licenciadas. “Vinham das melhores faculdades e universidades do país e largavam tudo por aquilo. Não me consigo recordar de uma pessoa ali que fosse menos do que licenciado. Estamos a falar de pessoas muito inteligentes e muito letradas.”

O especialista António Madaleno, no entanto, diz que as seitas não trabalham (nem recrutam membros) com base na inteligência, mas sim com base nas emoções, — e é precisamente esse o aspeto que procuram “manipular”. “Todos nós, seres humanos, independentemente da cultura e da escolaridade, desejamos ser aceites, temos carências e queremos pertencer a algo”, explica António Madaleno.

https://observador.pt/especiais/sites-eroticos-juramentos-e-iniciacoes-sexuais-com-o-guru-a-historia-de-os-segredos-da-seita-do-yoga/

Gregorian Bivolaru fundou um movimento de yoga internacional, à qual a escola de Lisboa está associada, e foi durante anos procurado pelas autoridades por suspeitas de tráfico de seres humanos, sequestro e “abuso de pessoa vulnerável”. Acabaria detido numa operação policial em Paris a 23 de novembro de 2023, em conjunto com outros 40 seguidores. Bivolaru, atualmente com 73 anos, está ainda em prisão preventiva e a aguardar julgamento.

No contexto desta investigação jornalística, o Observador contactou a Natha — Escola Espiritual de Yoga e Tantra. A direção da escola recusou o pedido para uma entrevista. Mais tarde, aceitaria responder a várias perguntas, mas apenas por escrito, através de email. O Observador tentou também falar com Gregorian Bivolaru, através dos seus representantes legais, mas nunca obteve resposta. Foi ainda contactada a Federação Atman, a organização internacional criada por Bivolaru, que congrega as escolas de yoga espalhadas por vários países. A Federação não respondeu diretamente às perguntas que lhe foram colocadas, optando antes por enviar um comunicado. Nesse texto, refuta “todas as acusações levantadas contra membros afiliados, professores e alunos”. Recorda ainda que a “investigação ainda está em curso e que não há qualquer acusação, muito menos uma condenação.”

Ainda hoje, Gregorian Bivolaru é referido no site da escola de yoga e tantra de Lisboa como “um ser absolutamente excecional, um verdadeiro mestre espiritual vivo.” Em resposta às perguntas do Observador, a escola reconhece continuar a seguir vários dos ensinamento de Bivolaru. E declara que a “menção ‘mestre espiritual vivo’ deve ser entendida nesse enquadramento filosófico e espiritual, e não como uma validação pessoal de comportamentos ou acontecimentos externos à prática e aos ensinamentos do Yoga.”

Os sete passos para criar uma seita

Vera vinha de uma família desestruturada e interessou-se pela Natha porque lá encontrou um ambiente de paz. Queria encontrar “qualquer coisa” que lhe preenchesse o vazio que tinha dentro do coração, ao mesmo tempo que recuperava de um esgotamento após trabalhar e estudar ao mesmo tempo. E ali, naquele espaço dedicado ao yoga e tantra, sentiu-se acolhida e achou que as amizades que se criavam lá dentro eram verdadeiras.

Lara e Beatriz (nomes fictícios), outras duas mulheres que também partilham a sua história no novo Podcast Plus do Observador, tiveram a mesma sensação quando entraram na Natha. A primeira assume mesmo que sentiu que tinha “encontrado um sítio que era como um pequeno… paraíso, um sítio super diferente”.

O que nenhuma destas mulheres sabia, é que esse é o primeiro passo para criar uma seita. Em causa está o chamado love bombing (ou bombardeamento de amor, em português), explica António Madaleno. Em organizações como a que Gregorian Bivolaru criou — nomeadamente o MISA (Movimento de Integração Espiritual no Absoluto) ao qual a Natha de Lisboa está associada — este bombardeamento “é evidente por demais”.

Questionada sobre a ligação da Natha de Lisboa ao MISA, o movimento internacional fundado por Bivolaru, a escola alega que a primeira tem personalidade jurídica própria e o segundo é uma organização estrangeira que promove atividades de carácter espiritual a nível internacional. No entanto, é um facto que a escola de Lisboa nasceu na dependência direta do MISA. Uma consulta às versões mais antigas da página da Natha na internet revela que, em 2012 (três anos após a fundação) o site escrevia que “A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra tem as suas origens na escola de yoga MISA. Foi fundada por Gregorian Bivolaru que tem ensinado o yoga no seu mais vasto e profundo significado desde o ano de 1971”.

O objetivo deste love bombing, diz, é atrair e fixar novas pessoas para o grupo. O especialista em seitas destrutivas afirma que “há pessoas mais propensas a serem aliciadas” por estes grupos, como por exemplo alguém que se sinta emocionalmente carente ou inserida em ambientes familiares tóxicos e desestruturados. “Quando [essa pessoa] se aproxima de uma comunidade que lhe dá aquilo que nunca teve, como atenção, afeto, carinho, tempo… isso cativa.”

Gradualmente, os alunos desta escola de yoga e tantra convencem-se que apenas o movimento de Gregorian Bivolaru “tem o conhecimento” de que necessitam para evoluírem espiritualmente. Acreditam que apenas aquele grupo pode ajudar a alcançar “conhecimento que a sociedade em geral não tem”, diz António Madaleno. Por isso, “a pessoa envolve-se cada vez mais”.

E rapidamente o controlo a que cada pessoa fica sujeita ganha outra dimensão: deixa de ser apenas psicológico e torna-se também físico. No caso do movimento de Bivolaru, este controlo passa pela imposição de regras rígidas. Ninguém podia comer carne ou peixe, fumar, beber café ou ingerir drogas. Além disso, não era permitido ejacular, os alunos tinham de praticar a chamada contenção sexual, evitando perder energia.

"Há pessoas mais propensas a serem aliciadas" por estes grupos, como por exemplo alguém que se sinta emocionalmente carente.
António Madaleno, autor do livro 'O Universo das Seitas Destrutivas'

Essa é a segunda etapa: doutrinação e controlo. Quando termina este passo, segue-se o isolamento social forçado, que começava por ter todos os verdadeiros seguidores do movimento a viver em comunidade, no mesmo sítio, um ashram. Neste local havia ainda mais regras, como por exemplo a obrigatoriedade de praticar pelo menos duas horas de yoga por dia. A isto acrescia ainda uma longa lista de tarefas domésticas, que levava a o dia só fosse dado por terminado pelas 3 horas da manhã.

Vera conta que “era impossível ter vida pessoal”, porque mesmo ao fim de semana havia sempre alguma atividade ou formação na qual tinham de marcar presença e que impossibilitava o contacto com outras pessoas que não estivessem no movimento. António Madaleno explica que tudo é feito com um propósito: “A pessoa é levada a afastar-se dos amigos que tinha antes. É convidada, muitas vezes, para retiros espirituais e a isolar-se da família. A vida gira 24 horas em torno do próprio grupo.”

A vida em comunidade leva a que seja fácil atingir a etapa seguinte: a submissão ao grupo. A pouco e pouco, quem comete alguma falha no ashram da Natha (como por exemplo não praticar as duas horas diárias de yoga) é criticado publicamente. “Havia pressão do grupo”, assume Vera.

A teoria por trás é fácil: o ser humano não quer “destoar do grupo”, explica António Madaleno. E rapidamente “o sentido crítico das pessoas começa a baixar”. “A pessoa é ensinada que o líder tem o poder, a sabedoria, o conhecimento e que se a pessoa não cumprir com tudo aquilo que o líder diz, com tudo aquilo que o líder ensina, com todas as regras, vai perder alguma coisa. Pode perder a salvação”, exemplifica. E é apenas uma questão de tempo até cada um dos seguidores de Bivolaru perder a sua individualidade.

Depois, torna-se cada vez mais fácil atingir a fase seguinte, a da despersonalização, na qual os seguidores de Bivolaru pediam para receber um novo nome. O objetivo era mostrar entrega à escola e “dedicação ao teu caminho espiritual”, conta Beatriz. Madaleno explica que esta é só mais uma forma de manipulação: “Ao cortar com o nome do passado, o verdadeiro nome, está a cortar com a sua identidade. Ou seja, é como se o seu ‘self’ morresse e agora passasse a ser uma nova pessoa.”

Durante todo este processo, há ainda uma outra fase essencial: a da minimização de fugas de informação. “Normalmente, estes grupos têm estruturas hierárquicas muito rigorosas, muito bem definidas, cada secção do grupo tem informação estritamente necessária que deve saber para fazer o seu trabalho. As pessoas em baixo, que estão a cumprir com as regras, está crente que está a fazer algo de bom”, explica António Madaleno.

Gregorian Bivolaru assume o topo da pirâmide do movimento e abaixo dele estão pessoas como o swami Mahalayananda (responsável por abrir a Natha em Lisboa em 2009) e o casal Adina e Advaita Stoian (vistos como os braços direito e esquerdo do guru). A hierarquia funciona, e os alunos e seguidores são comandados de forma rígida. Obedecem a tudo e seguem todas as indicações que lhes são dadas e Bivolaru é visto como um Deus.

Esta obediência cega leva a que haja um “processo de desconstrução do indivíduo, que chega a um ponto em que já obedece sem pensar”, diz António Madaleno. Os seguidores de Bivolaru sabem que têm que obedecer e já nem interessa porquê. O especialista diz que as pessoas são “manipuladas para fazerem aquilo que o líder quer” e isto abre a porta à realização de “trabalho gratuito” — aquilo que, na organização de Gregorian Bivolaru apelidavam de karma yoga e que passava, por exemplo, por trabalhar no Templo Tântrico de Lisboa. Quando os discípulos obedecem sem questionar, todos os passos estão completos.

Questionada pelo Observador sobre a ligação da Natha de Lisboa ao casal Stoian, a escola garante que este casal não desempenhou qualquer função na escola. A Natha de Lisboa negou ainda ter qualquer ligação ao Templo Tântrico, “sem prejuízo de, eventualmente, haver membros comuns”, lê-se na resposta.

A explicação do passo a passo feita por António Madaleno vai inteiramente ao encontro daquilo que é a realidade que se vive no movimento. Mas há mais um aspeto importante: a informação é totalmente compartimentalizada dentro do grupo. Para que um aluno possa evoluir, é necessário passar pelas chamadas “iniciações”, onde recebe ensinamentos exclusivos sobre diversas áreas ou aprende novas técnicas. Mas para um aluno ter acesso a este conhecimento, precisa de fazer um juramento sobre a Bíblia. Tem de garantir que não vai revelar nada do que lhe foi ensinado e terá de jurar pela sua saúde e pela saúde dos seus familiares. E a partir daí os alunos passavam a considerar natural guardar segredos entre si.

https://observador.pt/especiais/sites-eroticos-juramentos-e-iniciacoes-sexuais-com-o-guru-a-historia-de-os-segredos-da-seita-do-yoga/

Há seitas que começam como “comunidades normais”

António Madaleno explica que a entrada numa seita e a alteração da capacidade crítica das pessoas não acontece “do dia para a noite”. Tudo depende do “nível de manipulação” a que são sujeitas e é algo que “leva tempo” até que haja uma completa desconstrução da pessoa, que se vai anulando gradualmente. O especialista em seitas diz ainda que as etapas para criar uma seita podem variar de organização para organização, sendo que algumas regras ou formas de funcionamento podem não existir (como por exemplo a alteração do nome dos membros).

Nos últimos anos têm surgido várias denúncias contra grupos de controlo associados ao yoga. Questionado se há uma ligação entre esta prática e a criação de seitas, o autor de “O Universo das Seitas Destrutivas” rejeita a ideia e diz que a manipulação das pessoas pode acontecer “quer com yoga, quer com qualquer outro tipo de grupo”.

“Aquilo em que temos de nos focar é no líder. Porque é o líder quem vai determinar se o grupo se torna uma seita ou não. E às vezes os grupos, quando começam, não são seitas destrutivas nem grupos de alto controlo. Começam como comunidades normais, mas à medida que o líder vai tendo cada vez mais poder e cada vez mais influência sobre as pessoas, muitas vezes acaba por perceber que tem ali a oportunidade de manipular as pessoas de forma que se tornam autênticos escravos.”

"Quero deixar bem que claro que o yoga é uma coisa muito boa, que não tem nada a ver com o que eles fazem"
Daria (nome fictício), foi membro do movimento de Gregorian Bivolaru

Para Daria (nome fictício) foi precisamente isso que aconteceu com Gregorian Bivolaru: caracterizando-o como uma pessoa “inteligente”, a jovem romena com nacionalidade portuguesa argumenta que Bivolaru usou o poder e influência que recebeu através do yoga (associado ao tantra) como forma de explorar mulheres. “Quero deixar bem que claro que o yoga é uma coisa muito boa, que não tem nada a ver com o que eles fazem” nas escolas associadas ao movimento criado por Bivolaru, afirma Daria no novo Podcast Plus do Observador.

“O MISA está a usar o yoga — que é algo inteligente — para implementar o tantra e através disso conseguir explorar várias mulheres. E homens também”, afirma. Daria é uma das mulheres que conta a sua história em “Os Segredos da Seita do Yoga”. Relata que conheceu Bivolaru em 1999, quando tinha apenas 14 anos, e considera-o um homem “inteligente” que soube rodear-se das pessoas certas.

A romena alerta para o facto de aquilo que é ensinado em escolas associadas ao MISA, como a Natha, não ter nada que ver com “espiritualidade”: “Em nome da espiritualidade, com certas regras, [ameaçar que] caso não faças isto é expulsa, mal vista ou excluída… isso não é espiritualidade, isso não é livre-arbítrio.”

Miranda Grace concorda e sublinha que o objetivo do movimento de Gregorian Bivolaru era “criar dependência [dos seguidores] no movimento e no guru”. A inglesa deixou o movimento de Bivolaru há cerca de quatro anos e desde então tem lutado para que o guru seja condenado por explorar várias mulheres (entre as quais ela própria).

A antiga aluna também conta a sua história no novo Podcast Plus do Observador. E partilha que os professores e colegas com que aprendeu e viveu, “se escondem por trás de conceitos e práticas” para praticar crimes. “E agora odeio o facto de não poder praticar [yoga] porque tenho demasiadas associações negativas. Agora raramente pratico yoga. E eu já praticava yoga muito antes de entrar para a escola” de Londres, conta.

Bivolaru não é o único: do Hot Yoga ao método Vidya Yoga

Daria e Miranda Grace consideram que Gregorian Bivolaru desvirtuou o conceito do yoga e lhe atribuiu conotações negativas. Mas o caso deste romeno não é único — nem mesmo em Portugal.

Em 2020, o fundador da Confederação Portuguesa e Europeia de Yoga, Jorge Veiga e Castro, foi acusado de abusos sexuais. O também presidente desta entidade terá tido como alvo mulheres entre os 20 e 30 anos sendo que, segundo a reportagem da RTP que expôs o caso, Jorge Veiga e Castro aproveitava-se da sua fragilidade emocional para obrigar as seguidoras a consentir todos os atos.

A Polícia Judiciária concluiu que havia fortes indícios de Veiga e Castro ter coagido e abusado de pelo menos oito mulheres e violado pelo menos uma, segundo avançou a TVI. Mas o caso acabou por ser arquivado porque as vítimas não apresentaram queixa dentro do prazo legal previsto de seis meses.

https://observador.pt/especiais/sexo-poder-e-dinheiro-as-tentacoes-de-gregorian-bivolaru-o-guru-de-os-segredos-da-seita-do-yoga/

Um ano antes, em 2019, tornava-se viral na Netflix a história de Bikram Choudhury, o criador do Hot Yoga, uma prática que implica uma rotina de 90 minutos de 26 posturas de yoga e dois exercícios de respiração, feitos numa sala a 40.ºC. Este guru do yoga nasceu na Índia, mas foi para os EUA nos anos 70. Bikram desenvolveu uma marca tão grande e lucrativa, que conseguiu comprar 43 carros de luxo e criar uma fortuna avaliada em mais de 63 milhões de euros.

O lucro vinha, em grande parte, das formações que dava a quem queria tornar-se professor de Hot Yoga. Cada interessado tinha de pagar uma inscrição de mais de 8 mil euros e, posteriormente, só podia abrir o seu próprio estúdio de Hot Yoga se o criador original permitisse. Estas sessões de formação aconteciam duas vezes por ano e eram procuradas por 400 alunos. Cada sessão tinha a duração de nove semanas de yoga intensivo e tudo acontecia em grandes resorts. Terá sido aí, segundo o The Guardian, que aconteceram os alegados abusos de que Bikram foi mais tarde acusado.

Durante estes três meses de formação, o dia a dia dos seguidores de Bikram resumia-se a duas sessões de yoga de 90 minutos por dia, seminários sobre anatomia, palestras espirituais e leitura de artigos escritos por Bikram. Nos momentos de aprendizagem ao final do dia, o guru sentava-se num trono enquanto um assistente lhe escovava o cabelo e outro lhe massajava as pernas.

É em 2013 que chegam as primeiras acusações de violação e agressão sexual, sendo ainda acusado de criar uma atmosfera de intimidação nas aulas (através de ofensas corporais e episódios de racismo). O guru conseguiu fugir à condenação e só em 2016, quando uma antiga funcionária o acusou de assédio sexual, foi efetivamente condenado a pagar quase 6 milhões de euros.

Mais recentemente, em 2025, foi exposto um outro caso (que ocorreu no Brasil), o de Uberto Gama, criador do método Vidya Yoga. O autointitulado mestre (ou guru) foi preso nesse ano, em abril, em virtude de uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado. Havia suspeitas de que o brasileiro tinha praticado violência sexual, violência psicológica, violação de pessoa vulnerável e até tortura.

Segundo a investigação do Ministério Público do Brasil divulgada pelo G1 (o portal de notícias da Globo), os crimes terão ocorrido durante quase 20 anos, entre 2005 e 2024. O guru levava as vítimas a acreditar que eram escolhidas de forma especial e, à parte, dizia a cada uma das mulheres que lhe queria entregar a sua energia de líder e ser espiritual mais elevado e isso era feito através de relações sexuais. Segundo o Ministério Público do Brasil, quando alguém questionava o seu método, Uberto Gama “recorria a apelos emocionais, como dificuldade para engravidar” para justificar a importância daquele ato. “Quem duvida não merece elevação. Você não merece o que eu estou fazendo por você”, dizia o alegado guru, segundo o Ministério Público, citado pelo G1.

Yoga, religião ou até empreendedorismo: “Para cada pessoa há um grupo”

Segundo António Madaleno, “muitas vezes há pessoas que dizem: ‘Eu jamais cairia numa coisa destas'”, referindo-se ao risco de se envolver numa seita de yoga sem se aperceber. No entanto, o autor do livro “O Universo das Seitas Destrutivas” faz questão de explicar que “para cada pessoa há um grupo” que pode ou não despertar a sua emoção. Ou seja: toda a gente corre o risco de, sem dar por isso, ficar envolvido numa seita.

A única diferença é o tipo de seita para a qual se entra, afirma: “Por exemplo, eu sou ateu e não acredito em Deus. Portanto, [um grupo de] religião para mim jamais funcionaria. Alguma vez me ia meter numa seita religiosa? Mas e se for grupo que me prometa ou que me diga que consegue ajudar-me a crescer nos meus negócios? Uma espécie de ‘coach’ que me ajuda a desenvolver a melhor versão de mim enquanto empresário?”.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

O que aconteceu em Espanha em 2024 comprova a afirmação de António Madaleno. Nesse ano tornou-se conhecida a história de uma comunidade espiritual que recorria a mercúrio para purificar o ser. A comunidade, a Associação Mahasandhi, foi criada em Múrcia e era liderada por José Manuel Cánovas. Este dizia ser “alquimista” e autointitulava-se de “Transcendência Total”, pedindo para ser tratado por “mestre” ou “guru”.

Aquando da sua detenção pela Polícia Nacional espanhola, em novembro desse ano, foram encontrados 180 quilos de mercúrio na propriedade (um metal altamente tóxico), escrevia o El País. Segundo uma das vítimas contou ao jornal, o guru dizia que o mercúrio tinha efeitos revitalizantes e energizantes. Mas, na verdade, esta substância pode provocar danos neurológicos e afetar a capacidade de ouvir, falar, ver, andar, sentir e pensar. Uma das mulheres desta seita contava que em certas cerimónias era colocada “uma coroa de mercúrio na cabeça, penduravam mercúrio lá” e as pessoas “perdiam completamente a cabeça”.

Os seguidores deste guru foram ainda sujeitos a rituais como o corte do freio da língua com um bisturi ou a ingestão de um alegado “néctar” que colocava as pessoas em transe. A obediência dos seus seguidores era tão grande que estes cumpriam todas as ordens dadas pelo mestre, que ia desde decretar que toda a gente tinha de vestir branco até rapar a cabeça.

E o controlo exercido era tanto que coisas simples como a venda de um carro ou a escolha de uma profissão tinham de ser aprovadas pelo guru. O mesmo acontecia com quem queria casar, sendo que alguns casamentos foram arranjados pelo próprio guru.

Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt

https://observador.pt/programas/os-segredos-da-seita-do-yoga/episodio-1-e-proibido-fazer-sexo/

https://observador.pt/programas/os-segredos-da-seita-do-yoga/episodio-2-ha-raparigas-a-desaparecer/

https://observador.pt/programas/os-segredos-da-seita-do-yoga/episodio-3-como-criar-uma-seita/