Vítor Sá já não se lembra de quantas vezes percorreu os 300 quilómetros entre Esmoriz, a cidade onde vive, no concelho de Ovar, e Lisboa. É um comediante compulsivo e, desde que decidiu demitir-se do trabalho como engenheiro informático e dedicar-se exclusivamente à comédia, em 2022, já atuou em quase todos os bares com open mics do país. Se tem um carinho especial pelos palcos, não rejeitou nenhuma plataforma que lhe permitisse alcançar notoriedade na comédia: é anfitrião de três podcasts humorísticos, escreve para o Conteúdo do Batáguas, e há quem diga que “monopoliza” o YouTube e o Spotify com a enchente de conteúdos que publica semanalmente.
Admite não ser “a pessoa mais engraçada da sala”, mas é com a sua inconveniência que conquista os espectadores. As perguntas desconfortáveis que fazia aos pais em criança são agora direcionadas ao público, no próximo espectáculo a solo — e o primeiro em digressão pelo país — Arraial. As salas mais prestigiadas vão receber em festa o “grande artista” de stand-up comedy que, de propósito ou não, carrega na energia e na pronúncia do norte — nesta, que é a primeira entrevista transcrita que faz, pede que troquem os “v” das palavras pelos “b”, numa reprodução mais fiel da sua maneira de falar.
Não satisfizemos o pedido por razões editoriais e, de resto, porque o sotaque do entrevistado pode ser apurado no podcast em nome próprio, Desnorte, ou nos dois que faz em grupo — Cubinho, com António Azevedo Coutinho e Ricardo Maria, e Prata da Casa, com Luís Franco-Bastos e André Pinheiro. Foi no estúdio deste último que, entre troféus e bibelôs desportivos, ocorreu a entrevista ao Observador.
Vítor Sá estreia Arraial em Almada no sábado, dia 14 de fevereiro, diante de uma sala esgotada. O espectáculo vai cruzar os palcos do norte ao centro do país e ainda existem bilhetes disponíveis, para quem desejar juntar-se à festa.
O Vítor é natural de Santa Maria da Feira e atualmente vive em Esmoriz, no concelho de Ovar. Que impacto é que crescer e viver no norte do país — e num meio mais pequeno — tem na sua comédia?
Todo o impacto. Por isso é que me recuso a ir viver para outro sítio. Faço muitas viagens, estou constantemente em viagem, e as pessoas perguntam: “Tu não te fartas? Não era muito mais fácil ires morar para Lisboa?”. Era mais fácil logisticamente, mas basta passar uma semana seguida em Esmoriz, que tenho dois, três bits novos de stand-up. Em Lisboa isso não acontece. Quando uma pessoa se sente confortável, torna-se mais fácil olhar para as coisas com uma mente cómica. No meu espectáculo, inspiro-me muito nas pessoas que conheci na rua, em Esmoriz, em Rio Meão, em Lourosa.
É quase um ato de resistência, não viver num centro urbano.
Percebo totalmente, mas não é esse o intuito. Tem uma motivação quase egoísta, vivo ali porque é onde sou mais produtivo. Como estou em tantas coisas — no[s podcasts] Cubinho e Prata da Casa, no Conteúdo do Batáguas, agora tenho uma tour para fazer —, percebi que preciso de tempo sozinho, para escolher o material que uso aqui e ali. Nas viagens de carro tenho um espaço só para mim, adoro estar sozinho e é muito produtivo, conduzo com o rádio desligado, só a pensar. Ou seja, viver em Esmoriz não é uma ato de resistência porque é egoísta: sou muito melhor comediante por estar lá e ser obrigado a fazer estas deslocações.
Sente a responsabilidade de representar uma identidade do Norte no seu humor?
Não penso muito nisso, o “será que estou a ser nortenho o suficiente aqui”. Se o faço, não é de propósito.
Mesmo a própria identidade de Santa Maria da Feira, não sente necessidade de reivindicar essa experiência e de a integrar na comédia?
Nem por isso, não me passa pela cabeça. Às vezes fico a pensar: “Ui, será que representei bem a malta agora? Se calhar disse mal, se calhar corto isso”. Tenho esse medo, porque não quero defraudar as minhas pessoas, só que, lá está, às vezes é difícil, porque mesmo em Santa Maria da Feira há pessoas com experiências e mentalidades diferentes.
Como disse, há pessoas engraçadas em todo o lado. Mas o stand-up, em particular, é mais predominante nas grandes cidades, como o Porto e Lisboa. Na série Bilhete de Ida, que fez com os comediantes André Barbosa, Jorge Gonçalves e Pedro Mata, desafiaram os limites do centralismo, num esforço de levar o stand-up para cidades mais pequenas, como Guimarães, Coimbra, Aveiro e Covilhã.
Exatamente.
Correu bem? O stand-up funciona fora dos grandes centros?
Sim, funciona muito bem. Parte da vida de um comediante, principalmente no início, quando não temos datas para atuar porque ainda não somos bons e as pessoas não nos conhecem, é arranjarmos o nosso próprio sítio, falar com um bar e tentar fazer lá às noites. Na série Bilhete de Ida, esse é o desafio: arrancamos à procura de um bar e, nesse mesmo dia, temos de organizar uma noite de comédia, arranjar público e atuar. A conclusão a que chegámos é que as pessoas querem rir em todo lado. Muitas vezes temos de fazer adaptações, por causa das referências e da faixa etária da audiência, mas, pelo menos para esta tour, estou a adorar ir a sítios fora dos grandes centros. O público não é educado para o stand-up e não está habituado a ver humoristas todas as semanas, mas quer rir-se na mesma, e o timing dos risos, as coisas a que acham graça, muitas vezes são diferentes. Claro que há sítios que são mais complicados do que outros, entre os comediantes diz-se muito “Aquele sítio, cuidado, é difícil…”
Sítios geográficos?
Sim, às vezes o próprio bar. Porque o stand-up tem muitas variáveis, da altura do teto — se é muito alto, os risos perdem-se — ao dono do bar não desliga a televisão durante a atuação, se o som das colunas é um bocadinho pior e uma pessoa tem de projetar mais a voz… E é por isso que é tão bom. Vamos aprendendo a dominar as técnicas com os anos. A certa altura, estas coisas deixam de acontecer, quando se começa a atuar em teatros, que são contextos muito mais controlados. Mas experimentar sítios diferentes dá-nos uma estaleca e uma ginga especial, por isso é que adoro ir a todo lado.
E também é um filão de mercado por explorar.
Exatamente. Fiz noites em Paços de Brandão, que é uma freguesia de Santa Maria da Feira, em que atuei para uma sala quase vazia, só para um casal: “Vocês pagaram o bilhete, tem de ser, vamos embora”. Lembro-me de atuar no Porto, há seis anos, e de não saber se ia haver noite de comédia, porque ainda não havia público. Hoje em dia há muitas noites e com uma produção de alta qualidade, no Porto Comedy Room, que faz três vezes por semana, no FeRRO, na Casa da Madeira… As pessoas não vão só aos teatros ver stand-up, mas gostam de ver os comediantes testar material, fazer piadas pela primeira vez. Mesmo quando corre mal, gostam de conhecer o processo evolutivo. Há seis anos, não imaginava que as coisas mudassem tão rápido.

Começou a fazer comédia há seis anos?
Acho que agora são sete. E era muito assim, íamos às noites de comédia, nos bares, sem saber se ia haver espectáculo, se íamos fazer stand-up para três ou quatro pessoas. Tenho atuado imenso nos últimos meses e nunca tive uma noite com menos de 60-70% da sala.
Em que circunstância é que começou a fazer stand-up?
Eu era engenheiro informático, mas sabia que não queria fazer aquilo a vida toda. E sempre experimentei muitas coisas: participei em concursos de talentos com amigos, a fazer macacadas, sou tesoureiro de um rancho folclórico… Sempre tive muita dificuldade de dizer que não, porque penso “isto pode dar histórias engraçadas”. A dada altura, a minha mulher comprou-me, por surpresa, um curso de comédia no Porto. Na altura eu jogava futebol semi-profissional na terceira liga, e nesse fim de semana tive um jogo em Lisboa, ou seja, não fiz o curso, mas apareci no dia da atuação final — que tinha sempre a casa cheia, com a família e os amigos dos comediantes. Nesse fim-de-semana, a minha equipa desceu de divisão e estava um ambiente péssimo, e eu escrevi um bocado sobre isso no autocarro. Escrevi também sobre a minha mãe, que tinha dito algumas coisas engraçadas. Cheguei à atuação, os meus pais estavam lá — eles vão comigo para todo lado —, comecei a dizer as piadas, as pessoas riram-se, e lembro-me de sentir em palco “ui, acho que é isto que quero fazer”. O meu texto era muito mau, mas lembro-me de pensar: “Isto é incrível, adoro isto, as pessoas estão a bater-me palmas”. E depois, a minha mãe começou a interromper o meu set, a dizer que não era bem assim, que eu não estava a dar contexto…
À frente de todas as pessoas?
À frente de toda a gente. Tenho muito material sobre a minha mãe. E comecei a responder-lhe, as pessoas riram-se do que ela estava a dizer e riram-se de mim. Foi muito especial, e pensei “não é por acaso que os meus pais estão aqui, não é por acaso que isto aconteceu, acho que quero fazer comédia para o resto da minha vida”. A partir daí, continuei a testar, a experimentar mais coisas e, até hoje, não parei.
O Vítor é conhecido por fazer viagens frequentes entre cidades portuguesas, porque, segundo reza a lenda, não recusa nenhum sítio com palco e microfone. Disse que os seus pais tinham a mesma iniciativa, será que foram uma influência nesse aspeto?
Quando jogava futebol, lembro-me de o meu pai ter uma conversa muito séria comigo. Chamou-me à parte e disse: “Hoje não posso ir ver o teu jogo.” E eu pensei: “OK, isto não é grave, vens a todos os jogos”. Mas percebo que para ele fosse impactante faltar, os meus pais sempre me acompanharam imenso. Tenho um solo no YouTube que se chama Incerto, em que revelo aos meus pais, a partir do palco, que me despedi do trabalho como engenheiro informático. Não sabia como lhes dizer e para mim só fazia sentido dizer “vou dedicar-me à comédia a tempo inteiro” com um microfone na mão, a fazer aquilo de que mais gosto. Na altura, não foi nada fácil para eles.
O Vítor faz vários projetos em simultâneo: Desnorte, Cubinho, Prata da Casa, o Conteúdo do Batáguas e agora o novo solo. Para ter uma presença na comédia em Portugal e para conseguir viver disso é preciso estar em todo o lado ao mesmo tempo?
Não. E não aconselho a ninguém. Fazer tantas coisas foi consequência do crescimento. Já tenho o meu podcast, o Desnorte, que não partilho muito, porque fala para uma comunidade muito própria. Sinto que tenho à vontade para falar do que quero lá, é onde sou realmente livre…
É o projeto mais importante que faz, que lhe dá mais gozo?
Não é que seja o mais importante, é o mais íntimo. Chama-se Desnorte porque gravo enquanto ando sem rumo pela estrada, a passear o meu cão. Pego no microfone e falo sobre temas que não consegui desenvolver para stand-up ou sobre a minha semana, a ver se aquilo dá nalguma coisa. Num episódio recente, falei sobre um bit que tinha escrito, mas que ainda não estava do meu agrado. Comecei a desenvolvê-lo no Desnorte e cheguei a punchlines muito mais giras, que levei a palco e estão a correr bem. Mas não aconselho fazer tantas coisas em simultâneo. Muita gente até diz: “O Vítor está a monopolizar o YouTube”, porque à segunda-feira sai o Conteúdo do Batáguas, terça-feira o Cubinho, quarta o Prata da Casa, mais os reels no Instagram… E às vezes sinto que posso estar a cansar as pessoas. Mas não foi propositado, as coisas foram aparecendo, bons projetos com pessoas de quem gosto e não consegui dizer que não. E a presença no digital é super importante, porque ajuda a vender bilhetes.
Mas se o podcast serve para desenvolver bits cómicos, não pode também fazer o contrário? Gastar material que poderia ser usado num solo?
Por isso é que partilho pouco. Muita gente que me segue não sabe que tenho um podcast sozinho. Mas é muito gira, a comunidade do Desnorte. Há uns dias atuei no FeRRO e estava lá a malta que ouve e que me disse: “Vítor, ficou muito mais fixe este bit em palco do que no podcast. Eu já tinha adorado no Desnorte, mas agora deste-lhe uma roupagem ainda melhor”. Portanto, o podcast obriga os meus raciocínios a irem mais longe, além da primeira punchline que me vem à cabeça. Mas percebo a pergunta e por isso é que muitas vezes até corto uma ou duas punchlines do podcast, que depois uso em palco.
A exposição constante à comédia e a obrigação de produzir piadas, ou pelo menos conteúdo para fins de entretenimento, não pode levar ao cansaço e à saturação?
A coisa tem corrido bem, para já. Temos um problema nos podcasts, porque se Cubinho sai à terça, não gravamos o episódio na segunda anterior, a mesma coisa com o Prata da Casa. Normalmente, fazemos muitos episódios de uma vez, que lançamos ao longo das semanas seguintes. Ou seja, se numa semana estou um bocadinho mais cansado e não tenho tanta coisa para dizer, isso manifesta-se durante um ou dois meses. Somando as viagens, as atuações, decidir o que é que é para o Prata da Casa, decidir o que é que é para Cubinho ou para stand-up ou para o Desnorte — tudo isso acaba por pesar um bocadinho, mas é o meu trabalho. O meu trabalho é escrever piadas. E por isso tenho de conseguir.

Cubinho começou com a série para o YouTube, CUBO, passou pelos palcos e só depois se cristalizou no podcast, que já ultrapassou os 200 episódios e é um dos podcasts de comédia mais ouvidos no país. Como é que tudo começou? Como travou conhecimento com Bolinha Nunes [produtor de Cubinho]?
Por meio de atuações. Fiz o Roda Bota Fora, que foi um projeto de muito sucesso da produtora Freakshow. Para o próximo projeto, o Bolinha queria juntar três humoristas. Primeiro falou com o António [Azevedo Coutinho] e depois comigo, porque sou do norte e podia introduzir uma energia diferente. O terceiro até era para ser o Guilherme Ludovice, mas ele não podia, então o Bolinha chamou o Ricardo Maria. Foi acaso impressionante… Não nos conhecíamos, mas funcionou muito bem.
No passado, disse que nunca vai ser a pessoa mais engraçada de um projeto que faz. Para se fazer comédia em trio é preciso ser-se individualmente engraçado ou aquilo que funciona é a dinâmica do grupo?
Acho que, no Cubinho, o que funciona é o equilíbrio. Eu e o António temos um perfil muito gozão, ou seja, muitas vezes a nossa comédia vem do clichê “We only roast the ones we love“. Ou seja, só me sinto à vontade para gozar com alguém se estiver mesmo à vontade com essa pessoa. E o Ricardo tem uma postura com a qual dá para gozar muito facilmente, porque as vivências dele, a ignorância dele em relação a certos temas, fazem com que seja um humorista brilhante, porque tem uma perspetiva que mais ninguém tem na vida. O resultado disto é uma dinâmica muito particular, mas que permite a cada um elevar-se e evoluir na comédia.
Muitas vezes, os comediantes gostam de ser a pessoa mais engraçada da sala, mas os melhores episódios do Cubinho não são aqueles em que temos individualmente muita graça. A coisa funciona quando conseguimos fazer um bit em que cada um dá o seu input.
Arraial é o segundo espectáculo a solo, depois de Incerto. No passado admitiu ainda não ter descoberto a sua “voz” na comédia. Neste projeto está mais próximo de a descobrir?
Muito mais. Tenho amigos comediantes que dizem “tu aqui, fora do palco, olha o quanto nos fazes rir, estás a ser tu próprio. Depois sobes a palco e é mais difícil”. Porque somos completamente diferentes quando estão 100 pessoas a ouvir. Não sou mais orgânico e pessoal quando está toda a gente a olhar para mim. É muito difícil e requer muitos anos e muitas atuações e minutos em palco até estarmos completamente confortáveis.
Então a voz do Vítor é procurar ser natural em palco, ter à vontade suficiente para ser o próprio quando faz stand-up?
Exatamente, para perceber o que em mim faz rir as outras pessoas — que penso ser a minha inconveniência. Eu era aquele puto que fazia perguntas desconfortáveis aos pais, que dizia o que toda a gente pensa e não tem coragem de dizer. No Arraial, sinto que ainda não atingi o potencial máximo, mas estou muito mais próximo de ser eu próprio em palco. Até as ideias que tenho e as punchlines custam menos a escrever porque são coisas que diria aos meus amigos na realidade.
Às vezes são os momentos de improviso que correm melhor?
Sim, às vezes quando digo uma frase que não é uma piada as pessoas partem-se a rir. E depois comecei a perceber “OK, é isto, claro, é o que sou”. O espectáculo chama-se Arraial, porque presta homenagem ao tempo que passei em arraiais a contar histórias aos meus amigos, foi um esforço de perceber porque é que se riam de mim na altura. Agora estou a contar as mesmas histórias em palco, de uma forma completamente diferente e mais estruturada, mas estou a repetir o que fazia com eles.
Portanto, o Arraial vai ter espaço para improviso.
Há sempre, no stand-up.
Mas tem um guião estruturado para esse fim, pensado para ter, por exemplo, momentos de crowd work?
Houve uma altura em que fazia bastante crowd work, mas acabei por perder um bocadinho o interesse nisso. Há uma tendência para fazer crowd work quando o público não vai muito à bola com o comediante, porque improvisar dá mais risos. Sinto que, às vezes, utilizamos esse mecanismo porque não estamos confiantes no que escrevemos. Por isso, tenho-me esforçado mais para escrever textos que sejam à prova de bala. Mesmo que não esteja a correr muito bem com o público, o texto tem de resultar porque não faz sentido mudar a estratégia a meio do set. Andei a treinar penáltis a semana toda para aquele lado e agora, só porque tenho 50 mil pessoas a assobiar-me, vou mudar de sítio? Não, vou fazer a mesma coisa. No Arraial, tenho espaços do texto em que faço perguntas complicadas, ângulos em que as pessoas pensam “o que é que eu faria nesta situação?” — há muitos momentos inconvenientes assim, gosto de provocar esse desconforto. Posso pegar na reação de uma pessoa que fez uma careta e tentar falar com ela e sacar alguma coisa dali, mas, lá está, é tudo consequência do texto.
Porque é que passou tanto tempo em arraiais na vida? É tesoureiro do rancho folclórico…
Exatamente. Isso ajuda muito. Sou o tesoureiro do Rancho Folclórico e Etnográfico das Terras de Santa Maria há muitos anos. Comecei em puto, quando tinha 16 anos ou 17 anos.
O que é que fazia no rancho efetivamente?
Dançava. Também há a malta que toca o cavaquinho e as violas, mas nunca tive jeito para tocar nada. Então fui dançar com cinco amigos. Na verdade, pertencer ao rancho é viajar muito, porque vamos todos num autocarro e vamos curtir, e depois temos de dançar, pronto. Dançar em arraiais. Além disso, sempre vivi ao lado de um grande arraial, que é o Largo de Santo António em Rio Meão — foi lá que andei de skate, de bicicleta e joguei futebol. Depois, quando estudei em Paços de Brandão, a escola também era ao lado de um arraial. Ou seja, quando queríamos ir para algum sítio ou quando o pessoal queria fumar, era lá.
No programa Conteúdo do Batáguas faz humor político. É um desafio? Obriga-o a estar a par da atualidade de uma forma que não estaria de outro modo?
Foi um grande desafio, porque nunca consumi nem nunca fiz humor político. Até tinha uma resistência, via clipes do Jon Stewart e achava-o muito bom, mas pensava “Isto não é para mim”. Quando o Diogo [Batáguas] me convidou para escrever para ele, tive de fazer um esforço para estar a par dos temas da atualidade. Ele até falava sobre muitas coisas fora da política, mas desde que começou o Conteúdo do Batáguas ainda não parámos de ir votar. A quantidade de eleições que existem obrigou-nos a falar sobre isso e investigar o tema para arranjar ângulos cómicos — desenvolvi muito a minha escrita desde que me juntei à equipa. Temos dias em que chegamos a casa depois de dez horas a escrever, com a cabeça em água, e ainda temos de pensar “Onde é que isto tem graça?”. Às vezes, sabemos que uma coisa vai resultar, mas não é fresca ou diferente o suficiente, e acabamos por desistir dela. Acabei por ganhar gosto pela política no processo de perceber aquilo que tem de engraçado e que podemos explorar. Não vou fazer ativismo nenhum, mas escrever piadas sobre o assunto é algo que nunca imaginei fazer.
Se o humor político não era a sua vertente da comédia, porque é que Batáguas o convidou para integrar a equipa de guionistas?
Eu era engenheiro informático, despedi-me e vendi o meu carro para pagar uma série que queria fazer, As Nossas Manhãs. Foi um fiasco. Gostei muito de a fazer, mas foi para o YouTube e não teve views. Das poucas pessoas que viram, uma foi o Batáguas. Eu já atuava com ele de vez em quando, abri para ele na tour d’O Processo, quando a Luana [do Bem] não podia — e foi assim que desenvolvemos uma relação. Recebo uma mensagem do Batáguas a dizer “Vítor, este episódio está brilhante, adorei mesmo, como peça cómica está muito bom”. Passada uma semana ele convidou-me para escrever para ele, porque a Luana ia sair do Relatório DB e ele estava a pensar arranjar um novo sidekick.
Em que é que trabalhar com o Batáguas e com os restantes guionistas do Conteúdo influenciou a sua visão do humor?
Deu-me estrutura. Na equipa do Batáguas, o Sérgio [Fernandes] veio de fora da comédia e tem ideias mais fora da caixa, mas o [Rui] Cruz é um dos principais guionistas portugueses, ou seja, já escreveu tudo e mais alguma coisa, tem muita noção de guião e de estrutura. Até os conhecer, eu era um puto, o que me interessava era dizer uma ideia, de qualquer forma. Já o Diogo é tão natural a fazer as coisas, que uma pessoa até se esquece de que o guião foi planeado à vírgula — ele presta muita atenção ao detalhe. Às vezes, estamos meia hora à procura da terra com o nome certo para meter na punchline ou do adjetivo melhor para cada situação. Antes, eu priorizava muito o flow, para parecer o mais orgânico possível, mas ultimamente tenho tentado pensar no texto à palavra, para ver o que funciona e tem mais piada.

O Vítor mostra uma preocupação estética pouco habitual, nos cartazes dos espectáculos, na cinematografia das séries que fez, talvez fruto da relação de longa data com o realizador e fotógrafo Belmiro Ribeiro.
Quase tudo o que faço tem de ser com o Belmiro, é das pessoas mais engraçadas que conheço, além do sentido estético e das ideias… Às vezes, gosto de ir um bocadinho contra a norma. No cartaz de um espetáculo de stand-up, normalmente a cabeça do humorista deve ser grande, para que as pessoas percebam bem quem é, e ter o título em baixo a dizer “stand-up comedy”. Nós não, sempre tentámos fugir a isso. No cartaz do Arraial eu não podia estar mais longe, nem se vê bem a minha cara, vê-se o contexto e a energia que quero transmitir para o espectáculo. Tem escrito “Espectáculo stand-up comedy do grande artista Vitor Sá”, que era como as coisas se anunciavam antigamente nos arraiais, existiam sempre cartazes desse género.
Isso significa que também não é partidário de só vestir T-shirt preta ou fato, de estar o mais simples possível em palco, para nada distrair o público do texto?
Acredito na simplicidade. Mas tenho alguns complexos com o corpo — não quero levar uma T-shirt que me deixe desconfortável ou que mostre que estou suado. Tenho muita atenção ao tecido da roupa, porque o suor nota-se, sobretudo com a luz do palco. Se não tiver uma boa T-shirt lavada para o espectáculo, prefiro atuar de camisola, suo, mas as pessoas não veem.
Já fez projetos de natureza mais etnográfica e não propriamente cómica, como Ninguém quer ser. Gostava de voltar a repetir uma experiência parecida? E conteúdo mais cinematográfico, como a série original de Cubinho e Bilhete de Ida?
Não, eu agora estou numa fase em que é para rir, acho que já vemos muitas coisas densas em todo lado. Tenho uma série, que ainda deve demorar algum tempo a sair, na qual a cinematografia vai ser um aspeto muito importante, mas o objetivo é sacar o maior número de gargalhadas dos espectadores.