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Park Chan-wook: "Quero contar histórias sobre a possibilidade de nos escondermos no fundo da mente"

“Sem Alternativa” é um filme descabelado sobre as atrocidades cometidas por um bom pai de família quando o expulsam da sua zona de conforto. Entrevistámos o cineasta sul-coreano.

Francisco Ferreira
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Park Chan-wook é um cineasta capaz de pegar e reciclar tudo o que apanha, da comédia ao drama de faca e alguidar, do manga nipónico à ficção-científica, vertendo o todo num resultado único, com copywright inconfundível. Acusem o sul-coreano do que quiserem — de ter uma obra dispersa em temáticas e formatos, irregular de valor — mas não lhe chamem copista que, de tanto ele amassar, é cineasta que não copia ninguém.

Em setembro passado, o autor que Oldboy — Velho Amigo fixou no Ocidente em 2004, apresentou a concurso em Veneza um novo filme cuja origem quase remonta àquela data. Vinte anos atrás, Park leu a novela de horror The Ax, do norte-americano Donald E. Westlake, pensando imediatamente em adaptá-la para cinema em Hollywood. Oldboy e o filme seguinte, Vingança Planeada, tinham dado a volta ao mundo, o cineasta de Seul sentia-se com vontade de provar o seu valor fora de portas. Mas a ideia esmoreceu e, entretanto, Park resolveu mudar completamente de estilo com uma bizarria cómico-cibernética que caiu bem ao autor destas linhas, mas não à maioria: Eu Sou um Ciborgue, mas não Faz Mal.

https://observador.pt/2025/08/31/um-retrato-pungente-da-precariedade-sacudiu-veneza/

O livro de Westlake trazia a história de um fulano de meia-idade, competente e honrado, e que se torna um ogre quando é drasticamente despedido da empresa a que dedicou a vida, devido a cortes orçamentais. Inconformado após meses no desemprego, decide dar caça aos sete homens que se perfilam para tomar o lugar que era seu, limpando-lhes o cebo, um atrás do outro. De um ponto de vista moral, são crimes hediondos mas, para aquele homem — e segundo a lógica capitalista que o rege — a série de crimes é coisa bem mais pragmática: trata-se de eliminar a concorrência.

Entretanto, Costa-Gavras mexia-se mais depressa e adaptava a mesma novela em Golpe a Golpe (2005), mas nem por isso esqueceu Park o filme que queria fazer, antes pelo contrário: num salão do Ausonia Hungaria, no Lido, contou-nos o sul-coreano (por intermédio de um tradutor) que é fã de Costa-Gavras, tanto assim que lhe dedica a obra insolente e desvairada que esta quinta-feira chega às salas, pela Alambique Filmes.

https://www.youtube.com/watch?v=HKZpuG_ezvY

O que é que lhe agradou realmente no livro de Donald E. Westlake?
Antes de tudo, tenho que dizer que adoro as novelas policiais americanas desde a adolescência. Por consequência, sou um grande fã do film noir americano. Esta história de Westlake enquadra-se nesta linha mas é especialmente singular por este cruzamento: a questão sociológica da perda do emprego e os pensamentos mais profundos e sombrios da psicologia da personagem são inseparáveis. Em 2009, julguei que podia ter feito este filme na América. Jamais pensei que a história desse um filme coreano. Mas desde que aceitei essa hipótese, o processo desenrolou-se a grande velocidade.

A história teve, apesar de tudo, de ser actualizada aos autómatos e ao individualismo dos dias de hoje, suponho.
É engraçado que a maior parte dessa mudança está no fim do filme. A automação e robótica da fábrica em que Man-Soo [Lee Byung-hun] costumava trabalhar, até ao aparecimento da inteligência artificial, ganha cada vez mais importância com o decorrer do filme, isto é: a fábrica torna-se cada vez mais inumana. Foi também no fim do filme que nos lembrámos das cenas de desflorestação no epílogo, filmadas quase como se este fosse um filme de ficção-científica. Se olhar bem para essas cenas, aquela maquinaria pesada já não é operada por humanos. Usámos CGI nestas partes, eu estava a pensar em filmes como O Exterminador Implacável.

A inteligência artificial é uma ameaça para um cineasta?
Acho que vai chegar o dia em que a IA vai tomar conta das imagens contra um punhado de gente realmente criativa que continuará a dar-lhe a volta, como um jogo. Esse criativos hão-de sobreviver. E isto não será só aplicável ao cinema, mas sim a todas as indústrias, levando a um novo patamar de desigualdade para os seres humanos. Esta conversa lembra-me muito o meu film noir favorito que é Odds Against Tomorrow [Homens no Escuro, Robert Wise, 1959].

Ao mesmo tempo, há no seu filme momentos de pasmo que a IA não poderia criar, pelo menos para já. Momentos de pura alegria. Estou a lembrar-me daquela cena em que as personagens estão a falar e a lutar e a música está tão alta que não se ouve o que eles dizem, então aparecem legendas no ecrã. A IA nunca se lembraria de tal coisa.
Pensei desde o início que valia a pena pegar nas situações e nas circunstâncias mais trágicas em que estas personagens são colocadas e, de repente, dá-se uma reviravolta em que a tragicidade é amplificada pelo humor. No papel, esta história é triste. Não é coisa bonita nem divertida de se ver. Tive, por isso, de deitar os sentimentos cá para fora de outra maneira, sem carregar na seriedade da tragédia.

Isso teria acontecido se este filme fosse americano, como chegou a desejar?
Acho que sim, seria muito parecido, enfim: talvez o protagonista não tivesse o hobby do cultivo de bonsai. No guião americano ele chamava-se Howard. Não combina com árvores bonsai, parece-me.

Porque é que dedicou o filme a Costa-Gavras?
É um cineasta que admiro muito e pelo qual tenho imenso respeito. Missing [Desaparecido, 1982] é um dos meus filmes favoritos de sempre. Já Golpe a Golpe, só o descobri um bocado depois porque é um filme que adapta a mesma novela. Eu quis comprar os direitos do texto. Estranhamente para mim, eles não pertenciam a Donald E. Westlake: Costa-Gavras já os tinha comprado. Logo de seguida, ele fez o filme dele. Foi mais rápido do que eu, muito mais. Contudo, quando finalmente o vi, apercebi-me de que podia ir por um caminho completamente diferente. Não digo melhor, mas diferente. Isto ajudou-me a não desistir. Curiosamente, acho que ambos explorámos uma forma de humor negro que não está tão saliente no livro.

Esse aspecto já estava em Oldboy. Considera este, definitivamente, o ponto de viragem do seu percurso?
Sem dúvida. Quando o meu primeiro filme, Joint Security Area [2000], foi seleccionado por Berlim, cheirei o que é estar num palco global, mas esta sensação só se materializou, de facto, com Oldboy. Esse filme caiu no goto, criou uma onda qualquer que, para muitos que o viram, ainda perdura. E fez-me ganhar um nome. De repente, toda a gente sabia quem eu era, como se tivesse descoberto uma fórmula para entender a escuridão do ser humano. Quer dizer: não sou médico nem terapeuta. Não vejo mais sobre o assunto do que qualquer outra pessoa. Sei, contudo, que quero contar histórias sobre a possibilidade de nos escondermos no fundo da mente, com esses desejos obscuros que fazem parte de todos nós, sem desistir de uma hipótese de empatia. Foi graças a Oldboy que Costa-Gavras resolveu partilhar os direitos deste livro.

Qual é o seu desejo obscuro aqui em Veneza?
Talvez fazer uma visita a todos os outros cineastas que aqui estão a competir pelo Leão de Ouro [risos]…

De todas as expressões de ironia deste filme, há uma especialmente sugestiva: aquela velha pistola da Coreia do Norte. Não é um detalhe interessante?
Na novela, a pistola do pai era da II Guerra Mundial mas, já que trouxe o filme para a Coreia, resolvi apurar este detalhe e trazer à lembrança a Guerra do Vietname. Achei que faria mais sentido, considerando a idade e a geração dos protagonistas assim como a área geográfica. Muitos não-coreanos desconhecem talvez este facto mas, durante a Guerra do Vietname, as tropas sul-coreanas combateram oficialmente ao lado dos Estados Unidos quando se deram conta de que a Coreia do Norte estava a apoiar clandestinamente o exército vietcongue. Houve combates reais entre as duas Coreias em solo estrangeiro. O facto de introduzir no filme uma pistola que veio de um vietcongue, uma arma que os detectives sul-coreanos não podem rastrear, acrescenta uma camada de especulação e de absurdo à intriga apresentada ao espectador.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.