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(A) :: A nova CSRD não é um custo, é uma oportunidade para as empresas

A nova CSRD não é um custo, é uma oportunidade para as empresas

A CSRD nasceu para ser o pilar da transparência empresarial na Europa, redefinindo a forma como as empresas comunicam o seu valor.

Nuno Bettencourt
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A “nova” Diretiva de Relato de Sustentabilidade (CSRD) não é sobre o que uma organização deve reportar por imposição de um regulador, mas sobre o que uma organização sabe sobre si própria.

Num momento em que a Europa adota um pragmatismo renovado, focado na competitividade e na redução anunciada da carga burocrática, a sustentabilidade quer deixar de ser vista como um custo adicional. Quando bem integrada, a sustentabilidade não compete com o investimento produtivo, ela protege-o.

As recentes alterações à CSRD criaram, por isso, uma oportunidade relevante para as organizações portuguesas. Vale a pena perceber porquê.

A CSRD nasceu para ser o pilar da transparência empresarial na Europa, redefinindo a forma como as empresas comunicam o seu valor. Desafia as organizações a demonstrar como a sua estratégia se alinha com os fatores ESG através da divulgação de riscos e oportunidades, metas, prazos, políticas adotadas e do papel dos órgãos de administração e de supervisão. Inclui também um conjunto significativo (alguns dirão excessivo) de indicadores e métricas.

Parecia simples, contudo, para muitas empresas portuguesas, o impacto inicial foi um verdadeiro “choque de realidade”. O desafio não residia na ausência de práticas sustentáveis ou de ambição estratégica, mas sim a falta de processos de recolha de dados, evidências e métricas de sustentabilidade que, simplesmente, não se encontravam estruturados nos seus sistemas de gestão.

Este desafio estendeu-se às PME’s. Mesmo isentas do cumprimento legal direto, passaram a integrar cadeias de valor que lhes exigiram volumes elevados de informação, muitas vezes através de pedidos complexos, pouco proporcionais à sua dimensão e capacidade operacional.

Durante demasiado tempo, a CSRD foi encarada como uma tempestade perfeita de exigências administrativas, de reporte e de verificação.

As recentes propostas de revisão do European Financial Reporting Advisory Group (EFRAG) aprovadas pelo Parlamento Europeu em dezembro de 2025, introduzem uma nova perspetiva. Permitem mais tempo para a preparação, uma racionalização do âmbito de aplicação e uma simplificação relevante dos requisitos de informação.

Desde logo, o ajuste dos limiares quantitativos — agora fixados em 1.000 trabalhadores e 450 milhões de euros de volume de negócios — reflete uma maior seletividade. Segundo a Comissão Europeia, esta recalibração poderá excluir cerca de 80% das entidades inicialmente abrangidas.

Quanto aos requisitos de informação, a proposta de redução nos datapoints obrigatórios reconhece que quantidade não é sinónimo de qualidade. A abordagem “top-down” à dupla materialidade permite que a estratégia e o modelo de negócio funcionem como filtro inicial, evitando levantamentos exaustivos e pouco relevantes.

E sobre as PME’s? Estão agora protegidas por um “teto” de exigência através de normas simplificadas (ESRS para PME), reduzindo pedidos desproporcionados e concentrando o foco em matérias essenciais como emissões de carbono, condições de trabalho e ética.

Estas alterações, que deverão ser finalizadas pela Comissão Europeia em meados de 2026, refletem uma Europa mais pragmática e atenta à competitividade. Para as empresas portuguesas, a oportunidade é clara: não esperar pelo fim do processo legislativo.

A extensão dos prazos permite um planeamento mais robusto, alinhando equipas financeiras, de sustentabilidade, marketing e operações. Ter dados de sustentabilidade prontos e fiáveis é um argumento comercial, uma vantagem competitiva e um fator cada vez mais determinante nas decisões de financiamento de bancos e investidores.

A recolha sistematizada de dados é um processo crítico. Incluir requisitos, fontes de informação, mecanismos automáticos, riscos, controlos e manter um audit trail é absolutamente imperioso.

Esta é a oportunidade e as empresas não a podem perder.