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(A) :: Apesar dos rumores, Leão XIV não vai aos EUA. Entre críticas diretas e diplomacia discreta, será o Papa o principal opositor de Trump?

Apesar dos rumores, Leão XIV não vai aos EUA. Entre críticas diretas e diplomacia discreta, será o Papa o principal opositor de Trump?

O primeiro Papa norte-americano tem oscilado entre críticas diretas, diplomacia discreta e mensagens de bispos para criticar Trump na imigração e na geopolítica — e não irá aos EUA este ano.

João Francisco Gomes
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A possibilidade circulava há algum tempo nos meios católicos norte-americanos, mas o anúncio feito no último domingo pelo Vaticano frustrou as expectativas: o Papa Leão XIV, o primeiro cidadão dos Estados Unidos da América eleito para chefiar a Igreja Católica, não irá visitar em 2026 o país onde nasceu. A expectativa assentava, essencialmente, no facto de, a 4 de julho deste ano, os Estados Unidos celebrarem os 250 anos da sua independência — e efemérides deste tipo são habitualmente aproveitadas como pretexto para as visitas papais (basta pensar, por exemplo, na possibilidade já colocada em cima da mesa de uma visita de Leão XIV a Portugal em 2027 por ocasião do 110.º aniversário das aparições de Fátima).

Mas, a partir de Roma, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, desmentiu os rumores de uma visita papal aos EUA — confirmando, aliás, as palavras do próprio Leão XIV quando, em maio de 2025, foi questionado por uma jornalista norte-americana sobre uma visita ao seu país-natal e respondeu que não estava nos seus planos para o curto prazo. Enquanto a possibilidade de uma visita aos Estados Unidos nos próximos tempos é liminarmente rejeitada, a agenda das viagens papais, um importante sinal para ler as prioridades de um pontificado, está a ficar cada vez mais composta.

No início de janeiro, por exemplo, os bispos espanhóis confirmaram que o Papa Leão XIV deverá visitar Espanha no mês de junho, com paragens em Madrid, Barcelona e Ilhas Canárias. Também no mês passado, o núncio apostólico em Luanda, Kryspin Dubiel, anunciou que as autoridades angolanas estão já em discussões com o Vaticano para acertar as datas e o programa de uma visita papal a Angola nos próximos tempos. O governo da Guiné Equatorial também já afirmou publicamente que Leão XIV visitará o país durante este ano. Circula igualmente a possibilidade de o périplo africano do Papa incluir uma paragem nos Camarões.

Mais significativo ainda é o anúncio feito pelos bispos peruanos de que Leão XIV deverá visitar o Peru em novembro ou dezembro de 2026. Apesar de ter nascido nos Estados Unidos, Robert Francis Prevost viveu uma grande parte da sua vida no Peru, como missionário agostiniano e como bispo da diocese peruana de Chiclayo. Em 2015 obteve, inclusivamente, a cidadania peruana e é frequentemente considerado mais peruano do que norte-americano — ideia que poderá sair reforçada de uma visita ao Peru antes de uma deslocação aos EUA.

No entanto, a recusa de uma visita papal aos Estados Unidos nos próximos meses poderá revelar-se parte da estratégia que Leão XIV está a seguir para lidar com o momento atual do país onde nasceu. “Leão é muito cauteloso. Ele sabe que a sua voz é universal. Como norte-americano, ele é, de certa forma, o oponente natural do trumpismo”, disse recentemente à AFP uma fonte do Vaticano, falando sob anonimato sobre o pensamento diplomático da Santa Sé e do Papa Leão XIV. “No que toca aos Estados Unidos, ele está a pisar ovos.”

A eleição de Robert Francis Prevost, antigo prefeito do Dicastério para os Bispos, como sucessor do Papa Francisco, em maio do ano passado, abriu uma nova era para a Igreja Católica. Quando surgiu na varanda da Basílica de São Pedro já sob um novo nome, Leão XIV fez história ao tornar-se o primeiro cidadão norte-americano a ocupar o trono pontifício. Nos primeiros minutos após o conclave, o passaporte do Papa foi o assunto mais debatido. Uma imagem de Donald Trump vestido de papa, partilhada pela própria Casa Branca, dera o tom: a administração Trump sonhava aumentar a sua esfera de influência e conquistar também o poder no Vaticano. Porém, o plano saiu furado: foi eleito o “menos americano dos cardeais americanos”, como Prevost foi amplamente descrito. Trump não escondia que gostaria de ver um norte-americano eleito papa, mas teria preferido que os eleitores escolhessem qualquer outro dos cardeais oriundos dos EUA, mais alinhados com a mundivisão norte-americana.

Logo a seguir ao conclave, o The New York Times fez uma análise à conta de Prevost no Twitter e encontrou várias críticas (maioritariamente republicações) à política migratória de Donald Trump. Numa ocasião, Prevost partilhou um artigo com duras críticas ao vice-presidente dos EUA, JD Vance, que tinha tentado recorrer à teologia cristã para defender a deportação de imigrantes ilegais. O norte-americano Prevost chegava ao trono papal com um currículo de atritos com o governo de Trump.

Em vários planos — da ordem mundial à gestão da imigração —, Prevost tem oscilado entre a crítica direta e a diplomacia discreta na forma como está a lidar com Trump. A recusa de uma viagem aos EUA nos próximos meses é o mais recente capítulo nesse complexo equilíbrio.

As primeiras palavras de Leão XIV na varanda da Basílica de São Pedro também foram significativas para compreender as prioridades do pontificado que se avizinhava. O Papa norte-americano escolheu a paz como primeira palavra do seu pontificado, não deixou que passasse despercebido um apelo explícito ao desarmamento e ao desescalar das tensões por todo o mundo (a “paz de Cristo ressuscitado” é “uma paz desarmada e paz desarmante”, afirmou, numa declaração de óbvio contraste com a ideia de “paz pela força” defendida pelo Presidente do seu país) e até com a escolha do seu nome, em homenagem a Leão XIII, o pai da Doutrina Social da Igreja, deixou claro ao que vinha.

A eleição do norte-americano Leão XIV aconteceu num mundo particularmente sensível, com a ordem mundial em aparente redefinição, com um recrudescimento de conflitos armados em todo o globo, com as relações entre os Estados Unidos, a Europa e a NATO em crise e com o drama das migrações a atingir proporções sem precedentes. Com tudo isto no centro da agenda, muitos na Igreja e nos Estados Unidos têm olhado para Leão XIV, o único norte-americano com uma voz global ao nível do Presidente, como o mais eficaz opositor ao trumpismo dentro e fora de portas. Em vários planos — da ordem mundial à gestão da imigração —, Prevost tem oscilado entre a crítica direta e a diplomacia discreta na forma como está a lidar com Trump. A recusa de uma viagem aos EUA nos próximos meses é o mais recente capítulo nesse complexo equilíbrio.

As críticas diretas à “diplomacia baseada na força”

Ao longo dos últimos meses, o Papa Leão XIV tem escolhido alguns momentos para verbalizar críticas explícitas e diretas ao governo norte-americano de Donald Trump, sobretudo quando na agenda estão temas como o tratamento dos imigrantes ou a intervenção dos Estados Unidos no contexto geopolítico global.

Em setembro do ano passado, por exemplo, Leão XIV não poupou nas palavras para condenar a ofensiva do governo norte-americano contra os imigrantes, que já resultou em quase 400 mil detenções em centenas de rusgas levadas a cabo pelo ICE (Serviço de Imigração dos Estados Unidos), várias mortes, detenções de crianças e múltiplas cenas de violência — que têm, de resto, provocado uma forte contestação interna ao modo como Trump mobilizou as forças do ICE para vários pontos do país com o objetivo declarado de prender e deportar imigrantes. A cidade de Minneapolis, no estado do Minnesota, foi o palco da maior onda de violência.

À porta da residência de verão, questionado pelos jornalistas sobre a política migratória de Donald Trump, o Papa Leão XIV foi direto: “Alguém que diz ‘sou contra o aborto, mas sou a favor do tratamento desumano de imigrantes nos Estados Unidos’, não sei se isso é ser pró-vida.” Dois meses depois, no mesmo local, novamente perante os jornalistas, Leão XIV voltou a usar palavras duras para descrever a “forma extremamente desrespeitosa” como os estrangeiros estão a ser tratados nos Estados Unidos. “Temos de encontrar formas humanas de tratar as pessoas, de as tratar com a dignidade que têm”, afirmou Leão XIV. “Se as pessoas estão ilegalmente nos Estados Unidos, há formas de tratar disso. Há tribunais, há um sistema de justiça.”

Reconhecendo que “todos os países têm o direito de determinar quem pode entrar, como e quando”, o Papa lamentou que haja muitas pessoas a “viver boas vidas (…) há 10, 15 ou 20 anos” e a ser tratadas “de forma extremamente desrespeitosa, para dizer o mínimo”.

Já em janeiro deste ano, concretamente depois da intervenção militar norte-americana na Venezuela que teve como objetivo a captura do Presidente Nicolás Maduro (e que foi o culminar de uma escalada de tensões que incluiu um bloqueio naval e ataques a petroleiros venezuelanos), numa altura em que se avolumavam as ameaças de Trump em relação à Gronelândia e num contexto de crescente risco de intervenção militar no Irão, o Papa Leão XIV aproveitou o discurso aos diplomatas no Vaticano para lamentar que o multilateralismo esteja em risco de colapsar para dar lugar uma “diplomacia baseada na força”.

“Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”, disse Leão XIV, num longo discurso em que não escondeu as suas preocupações com o estado do mundo contemporâneo, apenas seis dias depois da operação norte-americana na Venezuela.

O Papa não se ficou pelo implícito. Depois de mencionar a situação na Ucrânia e no Médio Oriente, Leão XIV referiu-se também às “tensões no Mar das Caraíbas e ao longo da costa americana do Pacífico”, que “também suscita grande preocupação”, e apelou com urgência a “que se procurem soluções políticas pacíficas à atual situação, tendo em mente o bem comum das populações e não a defesa de interesses de parte”. E acrescentou: “Isto aplica-se particularmente à Venezuela, na sequência dos recentes acontecimentos. Neste sentido, renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia.”

A relação entre a administração Trump e o Vaticano de Leão XIV é indubitavelmente “tensa”, admitiu recentemente à BBC o investigador David Gibson, diretor do Centro para a Religião e Cultura da Universidade de Fordham. Muitos dos conservadores norte-americanos estão “zangados” porque acreditavam que a eleição de um Papa oriundo dos EUA representaria uma transformação em relação às prioridades do Papa Francisco e viram as suas expectativas frustradas. “Querem dizer à Igreja para se calar”, sintetiza. Do lado do governo, as contas são outras: Trump sabe que “há católicos americanos suficientes, sobretudo brancos, que apoiam o Partido Republicano e Donald Trump” e, por isso, “é politicamente benéfico, em última análise, comprar uma guerra com o Papa”.

É, afirma Gibson, “um cálculo sem precedentes”. A verdade é que, de acordo com dados do Public Religion Research Institute citados pela BBC, perto de 60% dos católicos brancos nos EUA estão a favor do modo como Trump tem lidado com a imigração. Líderes da administração Trump, como Tom Homan (o responsável pelas fronteiras), que é ele próprio um católico, já vieram a público criticar a posição da Igreja sobre a imigração. Figuras da direita conservadora que são católicas têm ganhada proeminência na política norte-americana, com o exemplo do vice-presidente JD Vance à cabeça. No fim de contas, não são só o Papa e Trump que estão em pólos opostos — é o Vatican0 que não está alinhado com uma boa parte da Igreja norte-americana.

Trump e Leão XIV: duas mundivisões opostas

Uma das críticas mais frequentes do universo conservador ao Papa é a de que é necessário separar as águas: o Papa que se concentre na espiritualidade e o governo norte-americano que trate da forma como pretende governar o país. Mas no contexto norte-americano, mais do que uma intervenção direta ou discursos explicitamente contra Trump, o Papa Leão XIV tem mobilizado a hierarquia eclesiástica nos Estados Unidos e a diplomacia do Vaticano para fazer avançar a sua agenda.

Isto tem sido particularmente claro no contexto do debate sobre a imigração. Em novembro de 2025, a Conferência Episcopal dos Estados Unidos, reunida em plenário na cidade de Baltimore, publicou uma “mensagem especial” acerca da situação dos imigrantes no país. Foi a primeira “mensagem especial” — uma “forma particularmente urgente” de os bispos norte-americanos se pronunciarem oficialmente enquanto organismo coletivo, exigindo os votos favoráveis de pelo menos dois terços dos bispos — em mais de uma década e foi aprovada por uma grande maioria: 216 votos a favor, cinco votos contra, três abstenções e um longo aplauso após a aprovação.

"Ficamos perturbados quando vemos, entre o nosso povo, um clima de medo e de ansiedade devido a questões de discriminação e à aplicação da lei de imigração. Estamos tristes com o estado do debate contemporâneo e com a vilificação dos imigrantes. Estamos preocupados com as condições nos centros de detenção e com a falta de acesso a cuidados pastorais. Lamentamos que alguns imigrantes nos Estados Unidos tenham perdido arbitrariamente o seu estatuto legal."
Mensagem especial dos bispos norte-americanos

“Ficamos perturbados quando vemos, entre o nosso povo, um clima de medo e de ansiedade devido a questões de discriminação e à aplicação da lei de imigração. Estamos tristes com o estado do debate contemporâneo e com a vilificação dos imigrantes. Estamos preocupados com as condições nos centros de detenção e com a falta de acesso a cuidados pastorais. Lamentamos que alguns imigrantes nos Estados Unidos tenham perdido arbitrariamente o seu estatuto legal. Estamos preocupados com as ameaças contra a santidade dos locais de culto e contra a natureza especial dos hospitais e escolas. Ficamos tristes quando encontramos pais que temem ser detidos ao levar os seus filhos à escola e quando tentamos consolar familiares que já foram separados dos seus entes queridos”, lê-se na mensagem aprovada pelos bispos.

Lembrando que “gerações de imigrantes fizeram enormes contributos para o bem-estar” dos EUA, os bispos católicos dizem sentir-se “impelidos” a “erguer a voz em defesa da dignidade humana, dada por Deus” e pedem uma “reforma significativa” das leis e procedimentos relativos à imigração. “A dignidade humana e a segurança nacional não estão em conflito. Ambas são possíveis se as pessoas de boa vontade trabalharem em conjunto”, lê-se na mensagem dos bispos, em que abundam passagens da Bíblia sobre a dignidade humana e sobre a preocupação com os pobres e os estrangeiros — e que inclui ainda palavras de encorajamento aos imigrantes e aos católicos que os têm ajudado com as necessidades básicas, e uma oposição taxativa à “deportação massiva de pessoas”.

Dois meses depois, em janeiro de 2026, um grupo de 300 responsáveis católicos norte-americanos, incluindo 15 bispos, publicaram uma carta aberta dirigida ao Senado dos Estados Unidos para apelar ao Congresso que rejeitasse a lei que regulamenta o financiamento do ICE caso não fossem incluídas nesse documento legislativo um conjunto de garantias e proteções para os imigrantes.

O financiamento do ICE, a agência federal que Donald Trump mobilizou para vários pontos do território norte-americano para deter e deportar imigrantes em situação irregular, era já um dos principais pontos de discórdia entre republicanos e democratas no Congresso, com as tensões na negociação a acentuarem-se depois das mortes de Alex Pretti e Renee Good em Minneapolis. No contexto dessas negociações, o grupo de dirigentes de instituições católicas, que incluiu alguns importantes bispos do país, divulgou um apelo aos congressistas para que garantissem a proteção dos imigrantes na aprovação do financiamento da agência.

“A doutrina social da Igreja Católica afirma que a família é a unidade básica da sociedade, desejada por Deus e merecedora de proteção na lei nas políticas públicas”, diz o texto, sublinhando que as recentes ações do ICE, sob a autoridade do governo, “acentuaram a nossa preocupação com o facto de este princípio fundamental estar a ser comprometido”.

A carta aberta lamenta que em muitas comunidades haja “famílias a ser separadas” e que o financiamento do ICE tem de acautelar que a prioridade da agência não é a “detenção e remoção”, mas sim a garantia de “unidade familiar, processo justo e responsabilização”. Na carta, os bispos e outros dirigentes católicos também acusaram a agência de recorrer desproporcionalmente à força na repressão dos protestos. “A nossa fé exige-nos que reconheçamos Cristo em todas as pessoas, o que inclui o migrante, o refugiado e a criança que carrega o fardo da separação”, diz ainda o documento.

No final de janeiro, no pico da violência na cidade de Minneapolis, o próprio Vaticano interveio, não pela voz do Papa Leão XIV, mas pela voz do secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin, chefe da diplomacia vaticana e número dois do Papa. Classificando a situação em Minneapolis como “inaceitável”, Parolin sublinhou que os problemas se resolvem “de uma forma diferente” e deu eco a um novo comunicado entretanto publicado pela Conferência Episcopal dos EUA, especificamente sobre o caso de Minneapolis, apelando à contenção e ao respeito pela vida humana.

Mas os bispos norte-americanos também têm intervindo no debate sobre a política externa do país. Em janeiro, três cardeais dos EUA assinaram um raro comunicado conjunto sobre “a moralidade da política externa dos EUA”. No texto, assinado pelos cardeais Blase Cupich (Chicago), Robert McElroy (Washington) e Joseph Tobin (Newark), afirmam que os casos da Venezuela, da Ucrânia e da Gronelândia “levantaram questões básicas sobre o uso da força militar e sobre o significado da paz”. A carta aberta cita as palavras do Papa Leão XIV no discurso aos diplomatas e opõe-nas claramente às ações de Trump: “O debate nacional sobre os fundamentos morais da política americana é marcado pela polarização, pelo partidarismo e por interesses económicos e sociais estreitos. O Papa Leão XIV deu-nos o prisma através do qual podemos colocar esse debate num nível muito mais elevado. Nos próximos meses, vamos pregar, ensinar e defender essa causa para que seja possível chegar a esse nível mais elevado.”

Numa carta em que as perspetivas de Leão XIV e Trump sobre os EUA e o mundo são evidentemente apontadas como antagónicas, os três cardeais lamentam que “a construção de uma paz justa e duradoura, tão crucial para o bem-estar da humanidade hoje e no futuro, esteja a ser reduzida a categorias partidárias que encorajam a polarização e as políticas destrutivas”.

De acordo com a AFP, que cita várias fontes anónimas dentro do Vaticano, o texto dos três cardeais terá recebido a discreta aprovação do Papa Leão XIV.

O desalinhamento entre os Estados Unidos e o Vaticano liderado por um norte-americano ficou evidente noutro momento recente, quando o cardeal Pietro Parolin revelou aos jornalistas que a Santa Sé tentou, sem sucesso, mediar um acordo entre os EUA e a Venezuela para impedir a intervenção militar e a captura de Maduro. “Tentámos encontrar uma solução que evitasse qualquer derramamento de sangue, talvez chegando a um acordo com Maduro e com outros representantes do regime, mas isso não foi possível”, admitiu Parolin.

Na mesma ocasião, Parolin pronunciou-se também acerca das ameaças que pairavam então sobre a Gronelândia, afirmando que “não se podem utilizar soluções de força” nos diferendos entre nações. “Resolver controvérsias e fazer valer as próprias posições exclusivamente com a força, além de não ser aceitável, aproximará cada vez mais de uma guerra dentro da política internacional”, afirmou o número dois de Leão XIV, voltando a defender o “valor do multilateralismo”.

Ao mesmo tempo, o Vaticano encontra-se ainda a avaliar que resposta vai dar a Donald Trump após o convite para integrar o Conselho de Paz criado pelos EUA para gerir a situação na Faixa de Gaza — mas lido por muitos como uma forma de esvaziar as Nações Unidas, alargando o âmbito da sua atuação a outros conflitos mundiais.

A ausência de uma resposta clara é apenas mais um sinal de como o Vaticano continua de pé atrás no modo como tem tentado lidar com o país de origem do seu novo Papa — que é mútua, já que, nos meios mais conservadores norte-americanos, também abundam as críticas ao Papa. Para já, a ausência de uma viagem papal aos EUA, pretendida por muitos, ajuda a consolidar uma ideia: num mundo crescentemente polarizado, o primeiro Papa norte-americano da história e o Presidente dos EUA estão em pólos opostos e, para muitos, como sentenciou recentemente a historiadora britânica Catherine Pepinster, “a única pessoa que pode parar Donald Trump atualmente é o Papa Leão XIV”.